entrevista com rodrigo, do dead fish
por gabriel kverna / fotos: gabriel soares às 10:36
Dias atrás o Dead Fish passou por Porto Alegre para um show junto com os californianos do Down By Law. Horas antes de subir ao palco, o repórter especial Gabriel Kverna conversou com Rodrigo (vocal) e Alyand (baixista), únicos membros originais da banda, durante um banquete vegano oferecido pelo chef Alan Chaves, lá na Minor House.
Os capixabas falaram sobre o Contra Todos, cd lançado no início do ano, carreira, vida na estrada, planos para o futuro e a difícil relação com os ex-membros do grupo. Confere.
Kverna – Vamos começar falando um pouco sobre esse novo CD, o Contra Todos…
Rodrigo – Cara, com o Um Homem Só (disco anterior) a gente não alcançou o que queríamos. A banda tinha planejado uma coisa e saiu outra. Às vezes isso acontece, né? E aí quando resolvemos fazer o Contra Todos, decidimos que ia ser uma coisa muito mais espontânea e muito menos estudada do que o disco anterior, que era um trabalho que a gente queria que tivesse um conceito e tal. Quando o Nô (antigo baterista, saiu para a entrada do Marco, que também toca no Ação Direta) ainda estava na banda, tivemos a idéia de entrar no estúdio dele e fazer a coisa mais espontânea que pudéssemos fazer. Aí em três meses já tínhamos umas 19 músicas e no decorrer da produção o Phillipe (guitarrista) ajudou a colher as coisas no Pro Tools. Fizemos o CD em casa, na verdade. E essa vibe está nesse disco, a nossa realidade do dia-a-di a está lá. Por exemplo, uma das músicas eu gravei no meio do Largo da Batata, conhece?
Kverna: É um inferno…
Rodrigo: É um inferno mesmo. É gente, ônibus, poeira e calor.
Kverna: A espontaneidade é a marca do Contra Todos então?
Rodrigo: Eu acho que sim. Se bem que eu estou muito envolvido internamente, não posso julgar, mas a meu ver é isso.
Kverna: A Deck (Deck Disc, gravadora da banda) lançou esse novo, o anterior e coisas mais antigas. A idéia de lançar toda a discografia pela gravadora foi de vocês ou veio deles?
Rodrigo: A Terceiro Mundo (gravadora independente de propriedade da banda) ia ficar fechada e eles deram a idéia de lançar as coisas.
Alyand: Na real, quando nós assinamos com a Deck, não era interessante para eles não ter os outros discos. Era pra ter tudo em catálogo para continuar vendendo, assim ficaria mais fácil para dar continuidade ao trabalho. Nós licenciamos os discos pra eles até janeiro de 2010.
Kverna: E a satisfação com a Deck? Tá de boa? Um vez li um comentário do Rodrigo, falando que a assinatura com eles ajudou a restabelecer a banda, meio que revigorou.
Alyand: Meio que criou uma ordem de novo. Como a gente fazia tudo, administrava, vendia, tocava, era complicado. Daí pegava um contratante igual ao Kanela (Juliano Kanela, baixista da extinta Wall Ride e atualmente nas bandas Jay Adams e Jersey Killer, que também é produtor de shows independentes na cena de Porto Alegre) você ficava maluco, sacou? (risos) Aí a Deck veio para cuidar dos discos, cuidar da parte burocrática. Isso ajudou bastante para que a gente pudesse ficar ocupado só com a música.
Rodrigo: Quisemos ter a oportunidade de poder viver de música, só de música.
Kverna: Já te ouvi falar mais de uma vez que você é vegetariano, em shows e entrevistas. Já pensou em fazer uma letra sobre isso ou você prefere deixar nas entrelinhas essa sua escolha pessoal?
Rodrigo: Se eu achar que vai valer a pena, que não vai ficar uma coisa clichê, eu acredito que sim. Eu já fiz música pro meu gato. Mas no dia que eu achar que consigo fazer algo relacionado a isso eu vou fazer, eu não me prendo.
Allyand: É uma letra que ficaria bem complicada, difícil de sair da coisa clichê.
Rodrigo: Mesmo a gente sendo uma banda de hardcore clichê. Mas eu sempre falo nos shows: “Agora todo mundo vegetariano aí hein pessoal!”. Lá na hora do show todo mundo está vegetariano, não tem ninguém comendo, ninguém fazendo nada (risos). Eu lanço no ar. As coisas tem que ser ditas, mas não pode ser aquela pressão enorme.
Kverna: O Dead Fish é uma banda com uma idéia até anarquista, talvez. Mas ela tem uma parada romantizada, uma poesia nas letras. O que você acha que toca na molecada primeiro, a política, o romance…
Rodrigo: A inocência, sem dúvida. Talvez seja uma banda que não tenha tanto cinismo. Tem o lado cinza, mas tem o romantismo, de mostrar pro cara que ele pode fazer as coisas de uma maneira diferente, mesmo tendo se tornado um adulto babaca. E uma coisa que sempre gostei muito é que eu nunca escrevi pra um público específico. Eu escrevo às vezes pra mim, às vezes pro meu gato e as letras acabam não ficando aquela coisa fácil de ser vestida por grupinhos, entendeu? Mas o que pega primeiro é a inocência, o romantismo como você disse. Esse lance de fazer uma letra que pra uma pessoa adulta pode soar idiota, mas pras pessoas que querem preservar algo, preservar alguma idéia de mudança ou de se tornar melhor, faz sentido.
Alyand: Pois é, o Rodrigo falou que as letras podem soar infantis para algumas pessoas, mas é o que ele acredita, o que nós acreditamos…
Rodrigo: Eu não posso abandonar isso senão eu morro.
Kverna: Ou é isso, ou é isso.
Rodrigo: Ou é isso ou você desencana e arruma um emprego.
Kverna: Pois é, e vocês escrevem letras que beiram a seriedade, com ironias e tal…Daí quando rolou o Peixe Morto (projeto paralelo que reuniu alguns dos membros do Dead Fish, aquilo foi um desabafo? (risos)
Rodrigo: Eu tenho muita vergonha daquilo. Aquilo rolou uns 15 dias depois que eu tinha tomado um porre mais brutal da minha vida…
Alyand: A gente tava em estúdio e chegou uma hora em que o Rodrigo não conseguia mais gravar e começamos a conversar com ele, só que com o microfone funcionando…
Rodrigo: Aquilo que foi gravado foi uma traição, fiquei muito brabro e falei: “Isso não vai sair”. Daí quando o cd ficou pronto, fui na última música direto. Eu sabia que os caras não tinham tirado. Aquilo não teve um filtro de senso crítico, porque tinha dias que eu tava de porre. Os caras estavam amarradões porque nunca tinham me visto daquele jeito. Mas no fim das contas eu me senti pelado. Tem um monte de besteiras que eu falei ali que eram circunstanciais, era coisa do momento. Não precisava ter ido pra porra toda!
Alyand: Eu acho que foi legal porque foi um momento em que ele travou e fomos conversando com ele. Depois daquilo ele voltou e gravou bem pra caralho.
Rodrigo: Me foderam de vez! Expuseram minha bunda na janela.
Kverna: Em 18 anos de banda, qual foi o momento mais foda e o melhor momento? Tem algum?
Rodrigo: Ah, tem vários.
Alyand: A coisa que o Rodrigo mais falou nesses anos todos foi “Acabou, eu vou sair, não agüento mais.” Tem 14 anos que eu escuto isso.
Rodrigo: E os caras me sacaneiam, então hoje eu nem falo mais nada disso. Deve ser foda conviver comigo (risos). Todo mês eu vivo uma situação dessas, do tipo, não agüentar mais. Ou então de pensar o contrário, de isso ser tudo o que eu sempre quis pra minha vida. Acho que nesses últimos cinco anos eu parei de falar isso porque acabou virando piada. Mas todo mundo que está envolvido com punk, com hardcore, com idéias e com mudança de comportamento, deve sentir isso. Pode não falar, mas sente.
Kverna: Eu vou te perguntar o mesmo que eu perguntei pro Mozine (Fabio Mozine, baixista do Mukeka di Rato, que também concedeu entrevista, publicada na edição 48 da VOID). Hoje, o que move vocês? Sei que é o trampo de vocês mas, assim como qualquer emprego, você pode chegar e falar pro teu chefe que não está mais na pilha. O que move vocês além desse quesito “pagar contas”.
Alyand: Ah, meu! Pra mim eu gosto ainda! Eu fico nervoso antes de entrar no palco, eu me divirto com minha música, eu me divirto com o público. Na hora que eu não sentir mais isso, não vai mais valer a pena. Não é nem pela questão financeira, por que se fosse só pela questão financeira, eu já estou fodido mesmo (risos).
Rodrigo: Se fosse só por grana eu já tava em outra também. Primeiro que eu nunca encarei a banda como se fosse um trabalho e segundo: existe algo de muito vagabundo dentro de mim, muito acomodado e sem vergonha, que me mantém fazendo música punk. É o melhor emprego do mundo. Hoje eu estou aqui em Porto Alegre, conversando com os amigos, vou comer uma comida vegetariana… O Eduardo, que a gente conheceu na Alemanha, veio visitar a gente…E o que me move é isso, não ter um cara que vai mandar em mim, eu vou fazer o que quiser. Não tem ninguém que manda em mim, estou junto com um monte de camarada que também gosta do que está fazendo. Tem o Marcão que entrou agora e trouxe uma vibe animal. Então vale a pena.
Kverna: Eu já tive banda e o mais difícil é o entrosamento entre as pessoas. Como é que está isso entre vocês e os integrantes que saíram?
Rodrigo: É muita treta.
Alyand: O entrosamento com o Marco foi bem fácil porque ele é amigo de longa data.
Rodrigo: O Dead Fish só funciona de houver entrosamento. Não é à toa que tivemos a última e fatídica separação.
Alyand: O Marco é uma pessoa muito fácil de lidar. O cara é animado, divertido e tem um humor muito diferente do nosso antigo baterista, então isso facilita.
Rodrigo: Eu tentei manter um respeito pelo Nô (antigo baterista, que saiu depois das gravações do Contra Todos), mas nenhum respeito por todos os outros ex-integrantes. Procurei resgatar o respeito que eu tive pelo Murilo, porque acho que eu errei, a cagada foi minha. Mas dos outros eu tenho respeito por eles terem trabalhado com a gente e terem vivido nossa onda por muito tempo, mas individualmente acho que não rolaria. Com o Nô acho que não vai rolar, tem uma mágoa animal.
Kverna: Pois é, o Nô foi seu amigo de infância…E hoje o relacionamento de vocês…
Rodrigo: Não rola, acabou, game over.
Alyand: A gente não tem mais nenhum tipo de contato amigável com o cara.
Rodrigo: É terrível né? Nego vai ler isso e vai pensar, “Pô, em banda normalmente as pessoas são civilizadas”. Mas todas as rupturas que tivemos não foram nada civilizadas, justamente por causa da minha parte.
Alyand: Ao contrário do Rodrigo, eu falo com todos os outros integrantes, menos com o Nô.
Kverna: Vocês já tocaram com uma pá de banda, até com o Bad Religion. E hoje, qual a banda que hipnotizaria, que vocês gostariam muito de tocar junto?
Rodrigo: Tem várias, cara. Eu gostaria de tocar com o Ataque 77 (banda punk rock da Argentina). Eles vieram ao Brasil e eu não os vi. Eu toquei com uma banda chamada Fun People (outra banda da Argentina), que me hipnotizou. Quando a gente tocou com o All eu fiquei bobo. Mas com quem eu gostaria de tocar hoje…Ah cara, eu gostaria de tocar com bandas tipo…
Alyand: Sick of It All!
Rodrigo: Sim, Sick Of It All, H2O…Bandas que não são de hardcore também. Gostaria de dividir o palco com o Die Toten Hosen, da Alemanha, algumas bandas inglesas…Tive experiências ruins com norte-americanos, mas gostaria de estar no mesmo rolê de uma banda como o The Mars Volta, por exemplo, ou uma banda de ska, pode ser o Skatalites.
Kverna: O que vocês indicam de blogs, bandas, livros…
Rodrigo: Cara, eu entrei num blog de um amigo meu que mora em Londres, e o nome dele é Daniel Furlan. Ele era editor de uma revista em quadrinhos do Espírito Santo, que se chamava Quase. Ele tem um blog que é muito legal. E eu voltei a ler Análises do Caráter, peguei um livro deum chileno chamado Bolaños, que mora na Espanha, que é bem interessante também. De filmes eu tenho meu fornecedor em São Paulo, porque eu não tenho grana pra pagar R$20 duas vezes por semana no cinema. Então eu tenho visto filmes coreanos, vi O Lutador esses dias e achei do caralho, vi Milk e achei mais ou menos e vi o filme do Ratos de Porão, o Guidable (documentário do Ratos de Porão, lançado recentemente) e recomendo.
Kverna: O Dead Fish daria um bom Guidable?
Rodrigo: Não, daria um bom Some Kind Of Monsters (documetário do Metallica) (risos).
Kverna: E foi você mesmo que começou com aquela história do “Ei Dead Fish, Vai tomar no cu” (saudação clássica que a própria banda inventou e que é entoada pelo público antes dos shows) e como você já deve estar cansado dessa porra, quem tu mandaria tomar no cu hoje?
Rodrigo: Eu mandaria metade do mundo pra casa do caralho! Mas talvez o governador de São Paulo, a governadora do Rio Grande do Sul. Mandaria tomar no cu cem por cento dos motoristas do centro de São Paulo e a metade dos promotores de show do Brasil (risos), esses caras que fazem festival pra cobrar das bandas dos moleque idiota…É muita gente que eu mandaria pra casa do caralho!
Kverna: Agora você falou desses moleque idiota, mas eles são vítimas né?
Rodrigo: Ah meu! Eles são vítimas, mas poderiam ser bem menos. É muito fácil se colocar no papel de coitado, falar “ah eu não consigo nada”. Como não consegue nada? Como que o Kanela aqui em Porto Alegre, eu lá em Vitória e um monte de gente no Rio conseguiam fazer qualquer merda? É muito fácil se botar nesse papel, entendeu? Eles são vítimas, mas não podem se colocar nessa postura.
Kverna: De cena no Brasil, o que você tem visto de legal no independente?
Rodrigo: Cara, em São Paulo tem muita coisa e fica até difícil de acompanhar. Eu vejo umas bandas de Pernambuco… Mas sou mais fã das bandas velhas, do Nação Zumbi, do Mundo Livre. Eu acho que estou ficando velho e ficando mais conservador.
Alyand: Eu gosto do Macaco Bong, de Cuiabá.
Kverna: Vocês estão lançando esse CD em formato digipack e sobrou música de gravação. Vocês pensam em lançar alguma coisa na internet? Como é que rola isso com vocês e com a Deck?
Rodrigo: Teve quatro sobras, mas não gravamos e provavelmente a gente não vai gravar por que temos que pedir autorização pro Nô e como nossa relação acabou, é preferível fazer música nova.
Alyand: Essas músicas não foram registradas ainda e não foram feitas por ele. Se a gente quiser, podemos lançar.
Kverna: Ó, bafão, bafão!
Rodrigo: Ah, tudo bem, vai. Deixa pra lá.
Kverna: E essa molecada que baixa som…
Rodrigo: Baixar música é distribuição de informação. Eu baixo filme ultimamente. Eu gostaria muito de vender um milhão de cópias do Contra Todos em digipack, mas isso não vai acontecer. Então eu quero que a molecada ouça o som, e eles vão ouvir baixando, não tem jeito.
Alyand: No meu caso eu baixo pra conhecer, pra ver se é legal, depois eu vou lá e compro. Acho que isso é legal.
Kverna: Ouvi um papo de que os caras de gravadora grande estão cobrando até 40% dos shows…
Alyand: É um processo que a Deck queria fazer e não fez. Muitas gravadoras estavam pra adotar isso. Você já fecha como se eles fossem um escritório de produção, como é a Arsenal.
Rodrigo: Eu não sabia que tava rolando desse jeito.
Alyand: Como as gravadoras não estão mais vendendo disco, essa seria uma solução pra ganhar dinheiro de alguma forma, fazendo o trampo de escritório.
Rodrigo: Porra, tô quase me mijando…
Kverna: Então antes de mijar dá um recado pra todo mundo, manda a merda quem vocês quiserem, enfim…
Rodrigo: Eu queria que vocês não desistissem, arrumem seus empreguinhos, arranjem uma maneira de subsistir, mas não desistam, por favor. Sinto muita falta de velhos camaradas, sinto falta da molecada nova com boas idéias. Tudo bem que eu vivo em São Paulo e estou cercado de gente louca e de gente criativa e legal, mas precisamos de mais.
Alyand: É legal isso que o Rodrigo falou. Porque cada amigo, cada banda, cada fotógrafo, cada zine, cada revista, cada idéia que aparece e de repente acaba…Pô, isso machuca. Você ouve o cara dizer “Ah não, eu não estou mais nessa”. Ou uma banda antiga que acaba, ou uma banda nova que decide parar, para nós que já temos um tempo rodando, é a maior tristeza. Então essa é uma mensagem legal, não desistir.









admin | 01/06/2009 | 10:49 am
kverna | 01/06/2009 | 2:58 pm
kverna | 01/06/2009 | 2:59 pm
Vida Vegan | 01/06/2009 | 8:03 pm
mirelle | 19/06/2009 | 5:04 pm
mirelle | 19/06/2009 | 5:06 pm
Mo_Hoffelder | 14/09/2009 | 1:00 pm
Quem procura, acha! « Achei Vegan! | 04/08/2010 | 10:22 pm