alan chaves, cozinheiro vegano e ativista gastronômico

por felipe de souza / fotos: gabriel soares às 17:47

Se você mora em Porto Alegre e arredores, curte hardcore e circula ou já passou pelo Garagem Hermética, já deve ter topado com Alan Chaves. Baterista da banda XAmorX e vegano, além da música, o cara sempre esteve envolvido em manifestações pelo direito dos animais. Eu, por exemplo, já topei com o cara na frente de uma Expointer. Eu trabalhando para um jornal local, ele participando de um protesto contra a exploração animal.

De lá pra cá, Alan participou  da ocupação N4 (squat instalado na zona norte de Porto Alegre), se aprimorou na cozinha cruelty free e resolveu se profissionalizar como cozinheiro. O cardápio de seu TCC foi feito sem nenhum ingrediente de origem animal e chamou atenção da mídia. Agora Alan mete temperos e receitas na mochila e cai na estrada para uma tour vegana que vai até o nordeste do país. A intenção? Passar um pouco das técnicas que conheceu e desmistificar o vegetarianismo.
Fiz uma entrevista com ele no começo da noite de uma sexta-feira, lá na Minor House, onde mora e promove as festas Open Minor (você já deve ter visto as fotos de festas da Minor aqui e aqui)  em que geral paga R$10 e experimenta um pouco da gastronomia vegana do rapaz.

VOID: O curso que você fez não era um curso vegano né? Lá dentro você teve que manipular carne?

Alan: Antes de entrar no curso, tive que fazer uma espécie de vestibular, porque a procura hoje em dia é muito grande. Aí eu mandei um mail pra coordenadora perguntando se eu real mente precisaria mexer com carne e se eu seria obrigado a provar a carne. Ela me respondeu dizendo que eu teria que manipular e preparar carne para obter o certificado, mas eu não precisaria provar. Outra coisa que me preocupou é que um amigo meu que também é vegetariano e fez o mesmo curso, me disse que teve que matar siris e caranguejos para o preparo de pratos.

VOID: Os tais dos ingredientes “frescos”…

Alan: Pois é, aí eu pensei “Se eu tiver que matar um animal ali, na hora, não vai dar”. Porque já é covarde da minha parte ter que mexer no bicho morto, eu não teria esse sangue frio. O engraçado é que a coordenadora disse que de maneira nenhuma eu teria que matar algum animal, que seria muita crueldade, que era pra eu ficar tranqüilo, pois eles já vinham congelados.

Void:Como se a carne congelada não fosse um animal morto…

Alan: Exato… Mas no fim das contas eu não precisei comer carne. O legal é que eu não cheguei lá tentando convencer ninguém sobre o veganismo. Eu queria entrar, ficar bem quietinho, aprender o máximo possível e pegar meu diploma. O legal é que quando o cara fica quieto e não fala muito, as pessoas vão ficando curiosas sobre o vegetarianismo. Aí elas começaram a me perguntar e eu fui respondendo de boa. Nisso, até um colega de curso parou de comer carne.

VOID:Boa!

Alan: E tinha aulas sobre a carne do coelho e, porra cara, é brutal ver um coelho daquela maneira. As pessoas viam aquele animal encima da mesa e falavam “Parece meu cachorro” ou “Parece meu gato”… Isso já cria um elo né? Aí eu chegava e falava: “Pô, pra mim parece uma criança”. Aí todo mundo ficava meio chocado.

VOID: E você é vegetariano há quanto tempo?

Alan: Eu sou vegano há oito anos e vegetariano há oito anos e meio. Na real eu comecei a ler sobre o veganismo e me tornei vegetariano. No começo eu comia queijo, mas depois eu parei com os derivados. Na realidade é difícil porque é gostoso. Eu nunca vou chegar pra alguém e dizer pra não comer carne porque não é gostoso, eu sempre tento mostrar os outros motivos.

VOID: Apesar de toda a informação disponível, em alguns lugares e por certas pessoas o vegetarianismo e o veganismo ainda é visto como frescura…

Alan: Pois é, mas lá dentro do curso eu sempre fui simpático e carismático com o resto do pessoal, tanto que eu fiquei amigo de todo mundo lá dentro. Só tinha um cara que ficava pegando direto no meu pé. Era um aluno mais velho que quando tinha uma prova de desossar frango ou algo parecido, ele ficava no meu pé perguntando “Tá e aí? Não vai fazer?”. Mas o cara era tão chato que acabou se queimando com o resto da galera e no fim das contas deu tudo certo, meu TCC foi vegano por sugestão dos meus colegas de grupo. Eu não tinha nenhuma pretensão com o curso, além de ir lá, aprender técnicas e ter meu diploma.

VOID: A intenção na real era entrar e sair na miúda…

Alan: Sim, só que daí deu esse boom e o TCC foi o cartão de visita pra divulgar o trabalho que eu quero fazer.

VOID: E o trabalho de conclusão teve que menu?

Alan: Cara, no TCC você tem que apresentar um jantar com entrada, prato principal e sobremesa. O que conta é a originalidade e um dos colegas veio me falar pra fazer um cardápio vegetariano. Então, como o curso tem um enfoque comercial, tivemos que mostrar que o vegetarianismo cresce no mundo, os produtos estão surgindo, os restaurantes estão aumentando e o público cresce. Já existe uma sociedade vegetariana organizada, as pessoas estão começando a reivindicar os direitos dos animais e os direitos do consumidor vegetariano também. Tivemos que mostrar que, como profissionais, teremos que atender todo mundo. Ah, e também mostramos que o prato era viável economicamente. No fim das contas, nosso jantar custaria R$8,00 por pessoa.

VOID: Putz, muito barato mesmo!

Alan: Pois é! O menu teve funghi flambado, acompanhado de risoto de tomate seco e falafel (bolinhos de grão-de-bico com molho de gergelim). A sobremesa foi um petit gâteau à moda vegana, com pistache, cerejas e um nada óbvio recheio à base de licor de menta. E decidimos não fazer nada com soja, nada com salada, nem com frutas. Eu tenho todo o respeito pela alimentação macrobiótica, pelos hare krishnas, porque foram eles que iniciaram esse lance de vegetarianismo no Brasil. Só que os motivos que eu tenho para não comer carne não são religiosos, são éticos e eu não sou nada natureba, sou um vegetariano meio junk (risos) e assim é mais fácil de chegar nas pessoas. Você querer mudar a maneira como uma pessoa vive e se alimenta já é algo difícil, e ainda pedir pra pessoa comer uma comida insossa… Aí não dá né? Uma friturinha sempre cai bem (risos). Ah, fizemos também um ninho de tomates verdes fritos. Ficou bonito, fritamos o tomate em um óleo de nozes, saborizamos o azeite de oliva. Enfim, aplicamos todas as técnicas do curso nesses ingredientes, no vegetarianismo.

Conchinglioni com fungui

Tofu na chapa com fungui e legumes salteados

VOID: Esse é outro quesito de qualquer prato né? Tem que ser bonito!

Alan: Sim, tem que ser bonito! E a comida vegetariana se presta muito pra isso.

VOID
:E o fato de o prato de vocês ter ficado barato, já refuta aquele argumento de que vegetarianismo é frescura…

Alan: É que tem um problema aí. Isso de falarem que o veganismo é caro é por causa dos produtos que circulam no mercado, todos eles tem um valor agregado por serem considerados saudáveis. Cara, é um absurdo o litro do leite de soja custar R$3,00 ou R$4,00 porque o leite de soja nada mais é do que um suco de feijão.

VOID: Uma lata de leite condensado de soja sai por uns R$5,00 também.

Alan: Sim, o creme de soja também é caro. Mas isso vai melhorar, com certeza. Quando eu comecei com o veganismo tinha só duas marcas: o leite de soja da Ades e uma maionese da Superbom, que de super bom só tinha o nome.

VOID: E esse lado do vegetarianismo poder ajudar as pessoas, poder fazer com que mais pessoas possam comer bem, você tem alguma pretensão em fazer algo nesse gênero?

Alan: Esses dias eu tava discutindo com um argentino que ficou aqui em casa. Ele me disse que era vegetariano, mas voltou a comer carne porque quer viajar muito e na estrada vai ter que comer o que tiver disponível. Pô, mas se tu viajar pelo Brasil, em todo lado tem um Mercado Público, aliás uma das coisas que eu quero fazer nessa minha tour é visitar  os mercados de cada cidade. Deve ser uma riqueza de alimentos inacreditável. E hoje em dia o cara pode visitar todos os lugares do mundo e ainda assim não vai ter tempo de visitar todos os estabelecimentos vegetarianos que existem, tem muita coisa.

O menu completo: entrada, prato principal e sobremesa

VOID: Pois é, dá pra viajar de boa sendo vegetariano ou vegano…

Alan: Cara, quando eu comecei a conhecer pessoas vegetarianas aqui, depois dos shows a gente ia naquelas lanchonetes mata-rato do centro, aí um cara que trabalhava num desses lugares falou que passou anos vendendo hambúrguer de soja e ninguém percebeu (risos). E não vamos muito longe, quem estudou em colégio público lembra de comer aquela polenta com um negócio encima imitando carne, aquilo também é soja!

VOID:
Minha vó falava que usava proteína de soja pra dar um engorde no guizado, quando ela tava sem grana…

Alan: Sim! Já ouvi falar que tem muito restaurante que mistura a carne com proteína de soja.

VOID: E aqui na Minor House, você pretende fazer mais eventos divulgando teu trabalho, divulgando o veganismo?

Alan: A Minor nasceu despretensiosamente. Você conheceu o N4 né? Então isso aqui nasceu do que era pra ser a ocupação do N4. Naquela época éramos muito sisudos, muito politicamente corretos… Então começamos a fazer as coisas aqui de boa e vem gente direto. Nosso objetivo é fazer cada vez mais eventos, chamar uma galera. Quero começar a formar meu nome como cozinheiro vegetariano e quem sabe aqui seja um pontapé inicial. Viemos também de um resquício, de um fim de cena do hardcore na cidade. Não rolava mais nada e aqui virou meio que um foco, a galera vem aqui, come, se diverte…Na real alugamos essa casa pra fazer um show, mas aí não deu. Nos avisaram que se fizéssemos seríamos colocados pra fora.

VOID:
Você já trabalhou em um lugar vegano em Curitiba, como foi parar lá?

Alan: Tinha contato com uma menina que morava aqui, ela tinha uma banda chamada XConvictosX e a gente já organizava shows juntos. Depois ela se mudou pra lá e me convidou pra ir cozinhar.

VOID: Você tem pretensão de fazer um evento que tenha a proporção de uma Verdurada, como ocorre em São Paulo?

Alan: Hoje em dia somos mais despretensiosos. Saímos de uma cena que tinha 300 pessoas, rolava show direto, o hardcore aqui era maior. E ainda tinha a galera que curtia punkrock, a galera meio Ramones e os grunges, que se você panfleteasse eles apareciam nos eventos, então era bem maior. Pouco tempo atrás eu cheguei até a tentar fazer contato com essa galerinha mais nova, os emos…Mas não vinha ninguém, então eu desisti. Hoje somos muito poucos, somos remanescentes, mas eu acho tudo muito mais sincero. Tem uns lances que me cansaram também. Tenho banda e fazia as letras, sempre escrevi o que vivia e as pessoas me incentivavam. Aí eu montava uma ocupação e as pessoas simplesmente não apareciam. Então fiquei meio frustrado, por isso montamos a Minor.

VOID
: Que não deixa de ser um squat, uma ocupação né?

Alan: Sim, a gente brinca que isso aqui é um squat de playboy, tá ligado? Por que pagamos aluguel (risos).

VOID: Mas mesmo despretensiosamente, você quer que mais gente venha até aqui?

Alan: Sim, o lance é divulgar. Eu sempre fui marqueteiro e acho que os projetos bons tem que ser divulgados mesmo. Lá no N4 tivemos oportunidade de participar de eventos como a Bienal B. Eu sempre falava “Pô, vamos participar”, porque aquilo servia como mais uma prova de que estávamos dando valor público ao imóvel ocupado. Mas o pessoal que estava junto não queria, não rolava. O tempo todo que fiquei lá acabamos não fazendo nada de útil para o público.

VOID: E deu uma mão de obra do cão né?

Alan: Putz, você se lembra né? Era só entulho. Mas foi legal porque pegamos uma base de como fazer as coisas. Quando chegamos aqui a casa também estava ruim, mas arrumamos tudo rindo. E hoje eu estou dando essa entrevista pra você, na época do N4 não rolaria. Algumas pessoas iam fazer tese sobre ocupações e queriam falar comigo, aí eu tinha que ir até uma praça que ficava próxima pra conversar.

VOID: E a tour, cara? Fala dela!

Alan: Começa no próximo domingo (14/06) lá em Gramado e depois vou pra Curitiba, Guarapuava, São José dos Campos, São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Salvador, Natal…

VOID: E a estratégia qual vai ser? O que você vai apresentar?

Alan: A idéia é desmistificar o lance da culinária, que ainda está envolta em muito glamour. Esse lance de ser chef, que na real é o mercado que dá esse título pro cara. Eu não sou chefe, eu uso um termo que é o de Ativista Gastronômico. Essas minhas aulas tem um fundo ideológico, pra divulgar o veganismo, desmistificar. Não vou chegar falando para as pessoas que elas vão aprender ali a fazer um prato fantástico, que voa e brilha no escuro. Vou ensinar as pessoas a fazer coisas legais e simples, que elas curtam cozinhar.

Kibe de forno

VOID: E essas oficinas em lugares mais carentes, você também pensa em fazer?

Alan: Em 2001 eu fui lá em um vila que tem perto do campus da UFRGS pra ensinar o pessoal a fazer cartaz, porque na época eles precisavam, estavam reivindicando uma biblioteca. Nessa época eu tive a idéia de ensinar aquele pessoal a cozinhar com soja. Se alguém conseguir armar uma estrutura, eu faço. Em Curitiba vou dar uma oficina numa ocupação, pegando sobra de feira e montar uma demonstração de reaproveitamento de alimento na hora, freehand. Quero fazer coisas diferentes, quanto mais coisas diferentes rolarem, mais divertido vai ser.

VOID: E o sujeito que está em casa e quer fazer uma receita vegana, como o sujeito substitui um ingrediente como o ovo, por exemplo?

Alan: Pois é cara, a gente usa maçã e banana pra dar liga em receitas doces. A maçã tem que ser com casca. Parte ela ao meio, tira as sementes e bate no liquidificador. Pode usar a linhaça também, que é uma colher de sopa para duas de água. Você bate num mixer e ela vira um creme. A linhaça tem albumina, que é o mesmo componente que tem no ovo.

VOID: É legal saber que certas coisas podem ser encontradas nos vegetais também.

Alan: Sim, o que eu quero cada vez mais é me especializar no estudo dos vegetais por causa disso também.

Mais informações e datas da tour estão no http://cozinheirovidavegan.wordpress.com/

Recomende
Enviar esta página
Indique os endereços para quem deseja enviar esta página

Busque seus contatos por aqui

Comentários
Formulário de envio de comentário
  • André | 10/06/2009 | 6:05 pm

    Cara, muito boa a entrevista. Quase me convenceu a virar vegetariano. Só que eu não consigo desperdiçar um bom matambre, hehehe.

    Só queria entender uma coisa: como esse pessoal vegano lida com os esquemas de soja modificada geneticamente, já que os cientistas usam genes de animais para deixar mais resistente à pragas. Durmam com esse barulho!

  • kverna | 15/06/2009 | 11:38 am

    Esse é meu cozinheiro favorito :)

    Bom quanto ao comentário do André, eu não durmi e pensei.
    Caro amigos/as, até aonde o teu paldar te controla ou até aonde chega teu egoismo para tirar uma vida simplismente pq gosta de um pedaço de carne?
    E infelizmente há uma leia brasiliera que não é cumprida sobre os transgênicos, que se deve rotular todos os produtos que contenham 1% no min. de produtos transgênicos, oque deixa não só nos vegetarianos/as como todos os consumidores brasileiro/as.

  • kverna | 15/06/2009 | 11:42 am

    …. de mãos e olhos tapados, inclussise tu André, que alem de consumir legumes trangênicos consume carne que se alimenta de soja trang., e hormôniso de todos os tipos.
    Agora vou voltar a durmir, sem hormônios e com a consciência limpa e menos suja de sangue e sofrimento.
    Valeu

  • Vida Vegan | 16/06/2009 | 3:18 am

    [...] Felipe de Souza entrevistou Alan chaves para a Revista Void, contando como foi seu curso no SENAC, sobre as atividades da Minor House e da Veg Tour. Confira a entrevista aqui. [...]

  • choly | 17/06/2009 | 7:32 pm

    porkão. mesmo me chingando, terá sempre meu orgulho aqui cmg. e meu paladar pra provinhas delícias. QUEREMO!

    drama queen mode [x]on [ ]off

  • Mo_Hoffelder | 14/09/2009 | 12:33 pm

    Brilhante este trabalho! A galera vegetariana agradece!
    Eu ia nos show da XamorX, Tombshit, nas antigas.. que bom saber que a galera continua fazendo coisas legais na cena!
    Abraço.