é só o começo

43 é só o começo - Games

SACI NÃO ME INTERESSA - EU QUERO HALLOWEEN

por Fabrizio Baron

Recebi uma carta escrita em japonês postada em Manaus. As únicas coisas legíveis eram meu nome e endereço, assim como os dados dos emissores: Satoru I., Ryoji C. e Steve B.. Emocionado, tratei de escanear e enviar a um conhecido que é tradutor. Eis o conteúdo:
 
"Caro Chocoprilho, sentimos muito ter demorado em lhe responder. É que decidimos de última hora resolver nossas diferenças competitivas saindo numa jornada espiritual, mas acabamos ilhados numa palafita rodeada de ribeirinhos doentes de dengue. Só espero que o Mario tenha chegado ao vilarejo onde montam alguns produtos de segunda linha do Ryoji, pois disseram que lá tem algo parecido com agência postal. Portanto, se você estiver lendo isto, saiba que tentamos de tudo para lhe atender. Mas, por forças externas a nós, sentimos muito em dizer que seu país possui definitivamente uma força negativa muito superior às nossas três forças criativas somadas.

A resposta à sua pergunta 'Por que jamais foi lançado OFICIALMENTE qualquer videogame no Brazil?' veio enquanto tentávamos achar água potável e saiu assim igual à diarréia do Steve. Bem, é tudo culpa das cargas tributárias criminosas com relação a produtos de alta tecnologia sem NENHUM similar no mundo e que jamais deveriam ser taxados desta maneira burra (impostos federais absurdos mais um tal de ICMS). Produtos que apenas nós inventamos e produzimos e que jamais irão configurar ameaça a seus empregos (muito pelo contrário), e que por sinal sempre vendemos no vermelho, com prejuízo mesmo em cada unidade, com o projeto de aumentar cada vez mais a imensa base de usuários em todo o planeta (com você de fora, é claro), e assim lucrarmos com o maior mercado em expansão atualmente – depois da robótica.

Podemos dizer que já tentamos de tudo, eu mesmo já quebrei a cara quando apostei numa tal de Gradiente (ou era Degradê?) para nos representar naquela época do presidente jet ski e que só nos ajudou a perder muitos ienes. Nós três nos perguntamos: será que foram vocês quem escreveram estas leis de importação, únicas no mundo? De onde saiu tamanha estupidez, e como ainda aceitam passivamente? Logo, nossa ausência oficial na sua vida e de seus conterrâneos tem tudo a ver com suas políticas alfandegárias imutáveis e quase nada com a pirataria. Mesma coisa com o Lego (em vez disso vocês tinham aquela cópia mal feita, o Hering Hast).

O Steve é um pouco mais briguento e tá ali tentando tirar uma sanguessuga da uretra e mandou dizer que o seu país deixa de gerar milhares de empregos tratando videogame como brinquedo de luxo. Mandou também 'tomar no cu' todo o pessoal da receita junto com os tributaristas, o que escrevo aqui em inglês mesmo pra você, já que não existe tal insulto em minha língua milenar. Ah, o pau dele tá sangrando e agora gritou que gostaria de 'urinar na boca dos parlamentares que têm poder de mudar as leis que regem essa espelunca, mas que em vez disso ficam se locupletando e contratando parente, dirigindo caminhão pipa, levando celular pros preso e esmola pros miserável e ainda obrigando vocês a votarem neles’. Ele tá, acho eu, mais brabo é com o fracasso daquela tentativa ridícula de lançar o console dele por aqui ano passado (me disse que ninguém quis pagar três mil reais oficialmente, já que naquela cópia pirata do eBay de vocês, o Mercado 'Livre', tinha por menos da metade). No verso da carta tem um e-mail, pedimos que escreva apenas 'Game Over' e envie quando sua energia acabar. Mas por favor não desista, sempre há mais uma vida, mais uma fase... novos cenários. Adeus e boa sorte.”