43 é só o começo - esportes
o bmx de jesus & cara queimada
por felipe de souza / fotos: mauricio capellari
Diz a lenda que o BMX surgiu lá pelos anos 70, quando a molecada americana usava suas magrelinhas para imitar os ídolos que voavam e faziam estripulias no FMX, a bordo de motos off-road de 250 cilindradas. No imaginário coletivo da petizada, as bicicletas ganhavam motor e os obstáculos eram feitos com o que se tinha à mão. Mais de três décadas depois, o BMX já é esporte institucionalizado, com presença garantida em qualquer evento de esportes radicais que se preze. Mesmo assim, para não trair nossa tradição terceiro-mundista, por aqui o negócio ainda não ganhou o merecido destaque.
O esporte desembarcou por aqui às vésperas dos anos 80, por intermédio da extinta Monark. Quem não se lembra daquela bicicleta estilosa, aro 20 e com placa numerada na frente do guidão? A marca da pantera era o slogan. E a Caloi Cross Freestyle, com aro estrelado, e lixas coladas no tubo do quadro? A esmagadora maioria dos moleques que tiveram uma daquelas preciosidades esqueceu a magrelinha em um canto empoeirado da garagem da casa de praia, depois de alguns tombos, cicatrizes e reprimendas maternas.
Poucos tiveram colhões de zombar dos xingamentos da mãe e continuar. Esses, com o passar do tempo, se depararam com dois estilos de BMX: Racing (corrida) e Freestyle. E o Freestyle ainda vinha com ramificações: vert, dirt, street, park e flatland.
Como toda regra produz exceções, no último mês os Jogos Radicais de Porto Alegre nos deram a oportunidade de conferir duas figuras desse esporte. Em um domingo de sol acachapante, topamos com o paulistano André Jesus e com o porto-alegrense Alessandro “Cara-Queimada” na pista snake do Parque Marinha do Brasil, onde rolava a primeira etapa dos Jogos.
André tem 18 anos e há três esmerilha suas bicicletas. A destreza do garoto chamou atenção, e hoje ele conta com o patrocínio da Nike 6.0. Em São Paulo, pratica nas pistas dos CEOs espalhadas pela cidade. “Minha manobra preferida é o Double Tail Whip”. Calado e discreto, cada vez que rasgava o cimento da pista do parque, levava com ele pelo menos uma centena de pares de olhos.
Alessandro “Cara-Queimada” já contabiliza 33 anos de vida e 20 de BMX. Ocupou o lugar mais alto do pódio dos Jogos Radicais de 2007 e já participou de dois X Games, o último deles esse ano mesmo, a convite do pro Matt Hoffmann. O que mais gosta de mostrar na pista são os aéreos Look Down e os Flip Look Down. Sua vida é tocada no embalo das duas rodas. Quando não está praticando, ganha a vida como motoboy e, de vez em quando, quando o rapa não está por perto, arrepia com a CG 125 no snake, com baú de entrega e tudo. “O Cara-Queimada do apelido veio dos acidentes, de se esfolar”, explica.



