61 nóis que voa - i shot macunaíma
a formiguinha e o cigarro
por fabrizio baron
Gozado que nos contos do “nosso” folclore não existam aquelas pequenas e marcantes lições de moral das grandes fábulas. Há quem defenda que lições de moral estariam outdated desde que as mulas sem cabeça assumiram o Ministério da Educação. Mas, pra quem ainda acredita que exemplo é tudo nesta vida maluca, nada como relembrar um clássico, adaptado a nossa surrealidade.
"O mendigo batia umazinha defronte a igreja. Nem terminava aquele gozo seco já corria pra praça: saída do teatro! Madames e bolsas cheias, e melhor ainda: forradas de pena. ‘Ai essa pena, que dádiva meu sinhô!’, se enchia de satisfação o mendigão. Não tão alto na hierarquia como os 'flanelinhas', recebia menos mas levava a vida sem grandes preocupações. Afinal, os dias se repetiam infinitamente iguais e novos mendiguinhos não paravam de brotar. Pois um dia o mendigoso foi atropelado e teve amnésia. Saiu do hospital lesado e caminhou pro sul, só parando 666 dias depois, quando no acostamento arrancava a última unha do pé e acabou atropelado, de novo. Foi daí que saindo do coma sentiu uma coisa muito doída que fazia bater dente. Antes de ser devolvido às ruas perguntou pro estranho doutor de seis pernas o que era aquela 'doença'. ‘É o inverno’, respondeu surpreso.
Arrastou-se até o primeiro viaduto, onde mais colegas aqueciam-se à fogueira. Explicaram onde ele estava e que o frio do tal de inverno era um fenômeno que acontecia forte naquela região todos os anos. Mais tarde, já com o ar da madrugada congelando, Saramago (o mendigão) morreria. Seus cigarros, espalhados próximos ao corpo, seriam imediatamente coletados e transformados em monumento. Na inauguração, um Nobel póstumo lhe seria entregue, por ter inspirado tantos intelectuais na 'luta contra o imperialismo e a favor do urânio enriquecido e o fim de Israel’.
Alheias ao nonsense geral, as formigas trabalhavam sem parar. Tinham dia e hora pra acumular os recursos que garantiriam a sobrevivência durante os meses frios. Estoicas, sustentavam todos aqueles milhões de mendigos, inclusive aqueles mais gordos de gravatas coloridas (os eleitos). Porém, desde que os Imensos Cigarros em homenagem ao mendigão do arraial foram acesos, todas as formigas adoeceram e pararam de produzir. Como a fumaceira entrava diretamente no formigueiro, todas morreriam em poucos anos. Uma nova carta magna seria escrita, e ofender alguém de ‘fumante assassino’ passaria a constituir crime hediondo. A história continuaria com 666 novos viadutos por ano, 666 CCs por mês, 666 invasões de terra por semana, 666 carrões emplacados por dia, 666 mendiguinhos por hora, 666 fugas do todo-aberto por minuto, 666 baganas por segundo no chão de escolas e paradas de ônibus..."
atarilândia
por fabrizio baron

Todos os anos, grandes feiras de games rolam pelo mundo, sendo as duas maiores no Japão e esta que terminou dias atrás em L.A., a E3. Como sempre, foi novidade demais pra contar aqui. Então o jeito foi dar um pulo numa feira alternativa que rolou semana passada na cidade de Atarilândia do Piauí.
Contraponto à indústria transnacional hegemônica e com apenas uma barraquinha (autossustentável com um jumento rodando feito hamster) e um expositor (PlayGlobo), a feira mostrou poucos mas originais lançamentos. Muqueca é um RPG online baseado na vida de Jorge Amado, com trilha de Gal. Cansado de ter sua cultura invadida pelo Guitar Hero? Berimbau Hero já vem com berimbauzinho uéssibê e água de coco.
Com gráficos realistas e detector de lágrimas, Viajo porque preciso e volto porque não sei inglês é um adventure épico sobre a saudade do agreste e do Galvão. Programados em mandioca para rodar no Ué (clone araguaio do Wii, da Severino & Severino), os jogos ainda não têm data de lançamento. Sabe-se apenas que virão embutidos no console e a distribuição será exclusiva para mendigos sem terra.
lavagem cerebral
por fabrizio baron

Fatima, 2 anos. Podia aprender ballet, piano, videogame, desenho... Mas não vai.



