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55 agora vai - matéria 02 - maquinária

anos 90: de trás pra frente: maquinária

por leandro vignoli / fotos: carol Bittencourt, derrick green, binho nunes e marcos hermes / agradecimento: evoke eyewear

 Faith No More

“Diggin the Grave” fechou o show num espantoso clímax que parecia já não mais ser possível alcançar. A apresentação de fato foi um grande orgasmo, e aquilo não soava apenas como dignidade intacta através de Viagra®, mas efetivamente ninfomania. Era a última música, eu já estava todo fiodaputa, mas tudo que pude fazer foi entrar num incontrolável pogo com a massa. Não havia nem mais palavras pra descrever aquilo. O Faith No More tocou igual uns piás chegando à zona pela primeira vez. E gozou muito.

 Faith No More_Foto: Marcos Hermes


Um senso de segurança foi o que mais me chamou a atenção. Em momento algum pareceu que alguém na banda não soubesse o que estava fazendo. Num show recheado de fatores externos, imprevisíveis e bizarrices, isto é sempre um baita mérito. Num bis que passa do tema de “Carruagens de Fogo” pra “ Stripsearch” pra “We Care a Lot”, músicas tão antagônicas, e tocadas com tamanho senso de sincronismo, qualquer transeunte desavisado que por ali passasse não acreditaria no frescor juvenil de tantos senhores, e perguntaria “onde está o rímel nos olhos?”. Não, cara. Nos anos 90 não tinha isso.

Faith No More_Foto: Marcos Hermes

Durante os anos 90 eu era apenas um guri mijado, e que parou de escutar só heavy metal após surgir uma banda como o FNM. Nem sabia exatamente o que significava “Midlife Crisis” e já achava uma das canções mais fodas de sempre. Era até trilha duma novela, se não me engano, e não vem ao caso.

Agora, eu sendo um (quase) trintão, a música ganhou uma ressonância monstruosa. Sei o que eles querem dizer com aquilo, sobretudo ENTENDO o que querem dizer com a metáfora do coração menstruado. Toda uma geração que estava ali também sabia e cantou em uníssono aquele refrão quando Mike Patton deixou apenas para que eles cantassem. Antes foi “Epic”, um hit muito maior, e antes foi “Easy”, potencial chamariz de ouvintes de ocasião, mas acontece que o show tinha tudo a ver com “Midlife Crisis”. A deles e (talvez) a minha.

Faith No More_Foto:Marcos Hermes
 
O que a banda fez foi dedicar o seu tempo em cima do palco a quem gosta de fato dela. Houve intenso espaço para músicas que só o fã extreme conheceria (o desavisado transeunte teria dificuldade de compreender boa parte). Quando tudo que eu fazia era ouvir metal, foi a partir de coisas como “Suprise, You’re Dead” e “Caffeine” e “Ricochet” que percebi que ser durão poderia ser uma espécie de catalisador da coisa, e que eu deveria ouvir (ainda que escondido) outras coisas. Eram também das figuras mais sui generis daquela década perdida, todo mundo cabeludo e cara de pivete do centrão. Agora estavam ali, a três metros de mim, Bottum careca, Gould com cavanhaque de pai-de-família, e Bordin gordo com seu dreadlock esbranquiçado. Ainda que toquem muito, escrevi num papel e joguei no palco: surpresa, vocês estão mortos.

Faith No More_Foto: Marcos Hermes

Claro que logo no começo do show você já percebe por que Mike Patton tem toda uma história de babação de ovo em cima (o que é perigoso, visto ele já ter sido casado com atriz pornô e se declarar fã de estranhos fetiches, que incluem cocô e anões). Provável que inexista, não me lembro agora, um frontman tão frontman de verdade quanto Patton, que conduz todo o espetáculo com a soberania de um Deus, mas sem jamais denotar qualquer sentido de superioridade em relação aos demais. Ele canta feito o Sinatra quando precisa, berra igual um demônio, suínga, e soca o microfone na boca. Também se joga no chão, faz cara de louco, e depois sorri. Uma figura livre de qualquer amarra, que se comunicou o quanto pôde em português (às vezes em italiano, provavelmente confuso com anos de gemedeira quando scopava con la sua porn star). Cantou pelo menos parte de “Evidence” na nossa língua, igualmente a bossa-novística “Caralho Voador” – o único lugar da turnê onde tocaram foi aqui. E óbvio, sua frase mais emblemática da noite: “porra, caralho”, repetida à exaustão durante 110 minutos.

Faith No More_Foto: Marcos Hermes

Pouco antes do Faith No More subir ao palco, desabou uma água daquelas poéticas. Nenhum grande arroubo de iluminação ou arte no palco. Tudo era pela música, e quando os caras entraram lá, vestidos de paletó, Roddy Bottum entoando os acordes de “Reunited”, óbvia referência ao status quo atual da banda, tudo prometia ser muito foda. Quando a seguir Patton entrou, de paletó vermelho (os dos outros eram pretos), bengala na mão e guarda-chuva na outra, e abriu a boca pra cantar, nada ficou apenas na promessa.

Estava absorto de pau duro e isso não é uma força de expressão. Dançarinas japonesas seminuas enfeitaram com graça e beleza o show dos Jane’s Addiction. Elas se retorciam em poses eróticas pra lá e cá, uma delas filmando tudo, imagens internas no telão, um grande exercício infame de voyeurismo em pleno show de rock. Não havia dúvidas de que tínhamos alguém do mundo pornô no palco. Dave Navarro, man, que bela ideia.

Bailarinas japonesas com Janne's Addiction

 Farrell e suas nisseis

Na finaleira fizeram “Jane Says” no formato acústico, talvez mais decepcionante do que o previsto, ela sendo o maior hit da banda, e eles tendo feito um show impecável até ali, de fazer 2009 parecer 1993. Anticlímax completado no bis, um clichezão da banda tocado com a bateria da Nenê de Vila Matilde, algumas mulatas rebolando lá em cima, e eu perguntando onde raios se meteram aquelas lesbo-japs. Muito mais pessoas interessadas do que previa, a noite caindo, a chapacêra começando a aparecer de uma forma ou de outra, “Been Caught Stealing” jogada estrategicamente no meio do set quando a coisa parecia esmorecer, um surpreendente coro de sex is violent sex is violent sex is violent na belíssima “Ted Just Admit It”, uma arrasadora “Stop” incentivando pogos, as dançarinas japas, “Jane Says”, e escola de samba. Saldo positivo.

Perry Farrel emergiu num macacão roxo luminoso com cabelo todo cheio de gel, e sem anunciar nem nada tascou “Up The Beach”.

Perry Farrel emergiu num macacão roxo luminoso com cabelo todo cheio de gel, e sem anunciar nem nada tascou “Up The Beach”. Ao vivo o Jane’s é muito mais pesado, aquele senso de psicodelia hippie (representado nas viagens do guitarrista) perde espaço pra cozinha funk-metal, os graves socando direto no peito como uma chifrada de touro. Navarro passou a apresentação toda do lado esquerdo do palco, esmerilhando riffs e solos gigantescos em sua personalizada guitarra PRS branca, que ele usaria durante todo o show (exceção para “Jane Says”, em que usou um violão). Prêmio blasé de ouro pra ele, sempre de chapéu, colete, deixando o cigarro queimar por vezes na haste. Farrel, ao contrário, estava pilhadaço. Correu, pulou, gritou e mostrou incrível domínio do que faz com o microfone, contrário senso a sua notável voz de gazela com crise bronquítica.

Navarro passou a apresentação toda do lado esquerdo do palco, esmerilhando riffs e solos gigantescos em sua personalizada guitarra PRS branca, que ele usaria durante todo o show

No meião da tarde, os Deftones fizeram outro show na linha do surpreendente. Atolaram todos os seus hits, do Around the Fur e do Adrenaline e do White Pony, um atrás do outro, sem espaço pra pausa, pra respiro, pra ceva, pra nada. Interessante notar que toda vez que Chino Moreno pega numa guitarra é uma balada que sai dali (foram apenas duas vezes, de qualquer modo, e “balada” não é exatamente o termo correto pra “Change”).

 No meião da tarde, os Deftones fizeram outro show na linha do surpreendente.

Em boa parte do show fiquei imerso nos meus 17 anos, balançado a cabeça por osmose como se ali ainda tivesse algum cabelo comprido seboso, como se ali estivesse de camiseta preta, gritando o refrão de “My Own Summer” como se tivesse enchendo o saco dos vizinhos da minha rua. Admirável a maneira da banda não parecer uma caricatura de si mesma, o que seria perfeitamente possível (e normal) com aquele tipo de som mais de 15 anos depois. Admirável que Chino tenha feito um show de calça preta e flanela longa com aquele sol.

E quando cheguei lá o Sepultura tocava, e mais anos 90 tudo aquilo parecia, agora juntava o fato de só ouvir metal na época e mais: o Sepultura foi o primeiro show grande que fui. Claro que às vezes soou meio isso-não-é-mais-pra-mim, a tal caricatura, o fato de o metaleiro médio ser um cara durão e ingênuo ao mesmo tempo, que você faz piadas, usa de sarcasmo, e ele nem ao menos tem o discernimento de entender. Quatro horas da tarde, 35 graus. Festival ainda vazio o suficiente para aquela horda de fiéis fazer seus moshs, rodas, balançar jubas e fazer guampinha com a mão e levantar uma poeirama do chão do Jóquei. Em algum ponto tudo que se via era só poeira, e ao fundo, o Sepultura tocando “Arise”. Algo que, se não foi exatamente “clássico”, foi extraordinário como máquina do tempo. E não foi à toa cada banda ao longo da noite ter citado o nome do Sepultura em tom de reverência.

Quatro horas da tarde, 35 graus. Festival ainda vazio o suficiente para aquela horda de fiéis fazer seus moshs, rodas, balançar jubas e fazer guampinha com a mão e levantar uma poeirama do chão do Jóquei

Então, meu, outra edição do Maquinária Festival, em São Paulo, 7 de novembro. Apesar do lugar afastado, da dificuldade do transporte e dos tradicionais problemas de estrutura do Brasílis, teria bandas no mínimo com o culhão para sair de lá com a adrenalina em dia. Logo o festival se mostraria pontual nas atrações. Com um som impecável. Esquema de dois palcos, um para as principais atrações, outro para bandas novas, nenhuma delas vista por mim, dado a sempre boa opção editorial de tomar uma ceva nos intervalos. Separação de público entre VIPs e normais, nesses mistérios da vida assisti a tudo a poucos metros de distância, com as chances de erro serem bem poucas. A menos que eu caísse bêbado. Mas estou aqui.