hann á afmaelli í dag

54 hann á afmaelli í dag - materia 03

tá me entendendo?

por felipe de souza / fotos: mauricio capellari

Tá me entendendo?

Há um ano decidimos dar vida à última página da Void. Na época, abrimos um concurso incitando nossos jovens leitores, donos de brilhantes mentes criativas, a mandarem projetos e ideias que preenchessem a derradeira lâmina de celulose de nossa publicação. Quanta decepção.

Depois de algum tempo, eis que o nosso fotógrafo Mauricio Capellari nos traz a boa nova: tinha conhecido um vizinho maluco, músico, escultor e hiperativo de plantão. Um cara com vida errante, que já tinha morado no Largo do Arouche, em São Paulo, e em Padre Miguel, no Rio. Um sujeito que atuou em fotonovelas com a cantora Vanusa e queimou baseados com Tim Maia.

Foi Laírton Rezende que deu à luz o Homem Banana, o herói que tem sua vida retratada lá no fim de cada edição. No começo o inanimado boneco de potássio vivia sozinho e dormia em uma pantufa. Provando a evolução da história, ganhou colegas e uma casa nababesca, toda projetada e executada pelas mãos hábeis de Laírton. Dia desses, invadimos o apartamento do cara para uma entrevista. Ele, ao 62 anos, não deu folga pro gravador.

Tá me entendendo?

Void: Tudo começou com uma vaga de estacionamento...

Laírton: O Mauricio Capellari, fotógrafo da Void, é meu vizinho e estava procurando uma vaga para guardar o carro. Uma semana depois ele já sabia que eu era artista plástico, rei das traquitanas e precisava de uma bucha pra pendurar uma prateleira. Viemos aqui em casa procurar e ele perguntou o que era aquela figura maravilhosa. O Seu Banana era uma resposta masculina a essa onda de mulheres-fruta que tava acontecendo. Eu pensei “puta que pariu”, tá faltando uma resposta masculina pra isso aí.

Void: Uma resposta viril, um homem que é todo desejo e está sempre pronto...

Laírton: Maravilhoso! Aí a Void gostou e eu acho que está sendo um personagem legal da revista.

Void: Começou com um Banana?

Laírton: Começou com um Banana que não tava preparado para enfrentar essa maratona que ele tá enfrentando, era feito de cera. E ele foi pra uma festa e quebraram o cara (um dos episódios do HB foi “rodado” durante uma balada em Porto Alegre, e lá pelas tantas uma menina foi brincar com o boneco e acabou o partindo em dois). Até pensei que tinha sido proposital, uma maneira de me dizerem que não queriam mais a história na revista. Sabe como é? Não dava pra mexer muito com ele. Daí num capítulo seguinte ele foi congelado e recauchutado e nasceu esse outro Banana até mais viril, um novo homem, com perfil do que ele realmente iria passar a ser. Agora, depois de um ano, ele tá ganhando essa casa.

Void: Mas essa casa foi sendo construída aos poucos. Como foi o processo?

Laírton: Então... Apareceu uma garota de programa na história e eu ficava me perguntando pra onde ele ia arrastar a menina. Pensando em fazer uma coisa só em que tudo rolasse. Eu ia fazer uma boate, um cabaré grandão, que a politicagem e os artistas frequentariam. Mas aí me falaram: “Quem é o herói da história? É o Homem Banana! Ele tem casa? Não! Então ele tem que ter uma casa!”. Aí foi aos poucos. Ele fez uma participação especial na Vista (revista Vista, de skateboard e arte), onde ganhou um escritório e passou a ser pintor e skatista. Na Void, ele precisava ter um quarto pra trazer a Bolina, uma personagem que era feita de carambola. Um quarto e um escritório. Na hora que tava fazendo o teto, recebi o Capellari aqui em casa ele deu a ideia de fazer a laje do HB.

Void: Dá pra sacar que você é um cara que se botar a pilha...

Laírton: Puta, meu... E o desafio, então? Entendeu? Tem a companheirada junto, tem um time. O Capellari fotografa e o Damasio (Pedro Damasio, um dos editores da Void) é o cara que bota os balõezinhos no Homem Banana. Aí fui fazer a laje do HB, e tinha que ter algo que o levasse até lá. A primeira ideia foi uma Teresa, que é aquele lençol que os presos usam pra fugir da cadeia. Mas ele é chique, precisa ter uma escada. Aí veio a sala de jogos, o banheiro. Essa escada é maravilhosa, em 90 graus, ela se divide em três pedaços. Fizemos um banheiro embaixo, com vaso. Aí é o seguinte: se o cara é fodão, não é laje. Então acabou ganhando churrasqueira, cadeira de praia. Olha que gracinha a cadeirinha do cara! Aí nesse andar aparece o personagem Xarope, o Mango, que tem um jogo de cintura maravilhoso, a Bolina... Tá me entendendo, jacaré? É gol do Bangu!

Laírton com o HB ao fundo

Void: Mas esses outros personagens não vão ganhar a dimensão física do HB...

Laírton: O cara é o Banana, mas ele precisa dialogar, entendeu? A Bolina vive lá naquela casa de encontros, um lugar tomado por trepadeiras. O Banana tem a casa dele.

Void: Toda a parte física, as amizades, os personagens são sua responsabilidade. Mas como você tá vendo a trajetória do HB?

Laírton: No primeiro número ele dormia numa pantufa. Pra um personagem que começou dormindo numa pantufa, isso aqui é impressionante. Se cuida, Chapolim! (risos) Ele ganhou!

Void: Mas como você vê a história?

Laírton: Ah, num crescendo total.

Void: Porque na realidade você entregou o personagem para a criação alheia, no que diz respeito ao destino, aos diálogos, ao enredo...

Laírton: Sim, eu até palpito. Por exemplo, se você cria um guarda-sol, a história vai ter que passar por uma situação onde o guarda-sol seja usado. Pensando num futuro, vou ter que criar uma boate, pra evitar o trabalho de ter que fazer casa pra todos os personagens. Agora, o Mango e o Xarope vão ser vizinhos de prédio. E esse diálogo que eles vão manter vai ser bem típico de briga de vizinhos, tá me entendendo? Sabe como é?

Num momento relax

Void: Sua vida hoje é o Homem Banana. Vinte e quatro horas catando negócio na rua pra transformar em cenário?

Laírton: Cata, ganha, compra e faz. Muita coisa se faz, se corta, se serra, pararatibum, tá entendendo? Outras coisas se ganha dos amigos, outras coisas se acha na rua, como a caixa de frutas, que o cara da fruteira guarda pra mim. Andando na rua eu tô sempre atento, sou um concorrente do papeleiro (risos).

VOID: Mas isso aqui não se faz em horário de expediente. Isso são noites em claro, dias e noites...

Laírton: Sim, são dias e noites. Não tem um horário fixo porque também tenho algumas coisas particulares que tenho que resolver e depois das 22h aqui no prédio não pode fazer barulho nem usar serra.

VOID: E você respeita essa determinação à risca?


Laírton:
Respeito, mas às vezes eu arrisco. Quarta-feira, quando é dia de jogo e eu arrisco tomar um vinho. Aí vou até as 4h trabalhando, tranquilamente.


VOID: E o formato da história? Ela é curta e tem um espaço de um mês entre uma e outra.

Laírton: Mas o interessante é que ela fecha em si.

VOID: Mas como é o processo? O Pedro Damasio escreve sozinho, o Capellari fotografa e você produz o cenário e os personagens?


Laírton: Sim, na hora de fazer o capítulo eu ajudo a botar o Banana em pé, dou uns palpites e faço toda a criação. Estávamos num impasse e sugeri que ele encontrasse essa casa em um classificados de internet. “Imobiliária Capellari vende casa” (risos) [episódio publicado na Void#53].

Lairton enquadrado

VOID: O que você sentiu quando viu a silhueta do HB na capa da Void #39 (Edição de estreia do personagem)?

Laírton: Parei, cara! Putz, naquelas nuvens... Sensacional. Com certeza ele tá num crescendo, tem o espaço dele e isso é irreversível.

VOID: Já pensou na possibilidade de o HB ser personagem de uma animação?

Laírton: Aí é medalha de ouro!

VOID: Mas o HB é só a ponta do iceberg dentro da história de Laírton Rezende.

Laírton: Me conheço como artista desde sempre. Nasci em Santa Rosa (cidade do interior do Rio Grande do Sul) e com 15 anos fazia cinco horas de baile, tocando sanfona. A gente tinha um conjunto chamado Excelsior, lá por 1962, 1963, aqui em Porto Alegre. Meu pai era militar e tinha muita transferência de uma cidade para outra. Aí fizemos esse conjunto melódico com piano, bateria, contrabaixo de pau e sanfona.

VOID: Onde você aprendeu a tocar sanfona?

Laírton: Sou formado em Sanfona, Teoria e Solfejo pelo Conservatório Musical Rossini. Apareceu a guitarra quando eu tinha uns 16 anos e um amigo meu, que hoje é psiquiatra, fazia a guitarra base e estava precisando de contrabaixista e me convidou. Como eu não sabia tocar, ele se predispôs a me ensinar. Então ele ia lá em casa com um violão. No ginásio eu não fui um bom aluno, mas na música, trabalhos manuais e desenho eu sempre fui nota 100.

 Um homem feliz

VOID: Era difícil pra você ficar sentado em uma sala de aula?

Laírton: Eu sempre fui assim, hiperativo, com faísca rápida, tá me entendendo? E agora com a revista eu tô me reciclando, porque vocês me botam em cada situação que eu vou te contar! Mas eu acho ótimo, porque daí eu tenho que correr atrás, sabe como é que é?

VOID: E nessa época você só se dedicava à musica e tal...

Laírton: Aí apareceu a guitarra, com Shadows, Ventures... Fui tocar no The Phantomas, pintei uns Gasparzinhos que eram o símbolo da banda. Aí formamos esse grupo de guitarra solo, nesse meio tempo aparecem os Beatles. Tentamos começar a cantar também, mas não sei por que não rolou e a banda acabou. Como tava embalado, já entrei na Beat Group Co. Não éramos um conjunto comercial. O empresário ia lá, vendia uma vez, a gente quebrava um pau no palco, mas ninguém dançava (risos).

VOID: Mas o que vocês faziam no palco? Experimentalismos?

Laírton: A gente mandava ver, compreendeu? E como a gente não conseguia tocar, também não conseguia pagar os instrumentos, tá me entendendo? Então a loja pediu nossos instrumentos de volta, entregamos e ficamos sem ter o que fazer. Aí eu fui pra São Paulo, era a época da Jovem Guarda...

VOID: Você tinha o que, uns 18 anos?

Laírton: Não, nessa época eu já tinha servido o exército, devia ter uns 20.

Laírton, dono da bola

VOID: Porra, Laírton, você serviu o exército?

Laírton: Sim, servi!

VOID: Mas você foi porque seu pai era militar. Você não quis servir, né?

Laírton: Eu não quis, mas eu repeti o ano no colégio por causa de falta, não ia mais pra aula. O acordo era que se eu tomasse bomba ia ter que puxar um quartel. Aí meu pai, que tirou muito amigo meu do serviço, fez o contrário comigo. Chegou e disse: “Amanhã, 6h te quero na minha frente, de cabelo cortado”. A revolução foi em 64 e eu servi em 65.

VOID: Seu pai era o que dentro do exército?

Laírton: Ele era capitão.

VOID: Porra, um cara de respeito. Ele devia esperar que pelo menos você não queimasse o filme dele lá dentro.

Laírton: Sim, e não queimei. Saí sem nenhuma punição, sem cadeia. Fiz o que devia fazer, batia continência na hora certa, aquela coisa toda. Toquei numa banda dentro do exército, assim como montava e desmontava uma metralhadora de olhos fechados, atirava legal. Foram dez meses.

VOID: E esse lance das fotonovelas? Como começou esse negócio?

Laírton: O Beat Group Co era uma banda boa pra burro, só que ninguém entendeu, o grupo acabou e foi cada um pra um lado. Eu fui pra São Paulo tocar com Os Brasas, mas era foda porque tinha que dividir a grana entre cinco. Aí não, não e não, e lá tinha outra banda de gaúcho que tava gravando. Eram Os Cleans. Gravamos um compacto com Chicaboom, que era do Van Morrisson. Aí ficou meia bomba, não rolou nada. Gravamos outro compacto e também não aconteceu nada.

VOID: Mas naquela época gravar um disco não devia ser tão fácil como é hoje.

Laírton: Olha, cara, eu passei fome, bicho. Tinha época que era um pãozinho com manteiga pela manhã, dois pãezinhos com manteiga ao meio-dia e um outro pãozinho à noite. Morei em Pinheiros, morei na Brigadeiro Luiz Antônio, na casa da banda Os Incríveis, que eram fodões na época. Morei no Largo do Arouche quando tinha a Boca do Lixo e a Boca do Luxo. Ali tocava Mutantes, Mustang, Beatniks. Era putaria, mas era coisa organizada. Hoje parece que por lá rola a cracolândia, uma coisa assim. Aí nessa época, depois do segundo compacto, o Tim Maia estourou com a música “Primavera”. É primaveeeera, te amo (cantarolando), e foi pro Rio de Janeiro. Ele era nosso amigo de balada e fomos atrás dele.

 Cultivando o black power

VOID: Na época ele já era doidão?

Laírton: Claro, muito doido. Eu até tive a oportunidade de queimar uns baseados com o Tim Maia.

VOID: Mas quanta honra!

Laírton: Os bauretes!

VOID: Outro cara que eu entrevistei confirmou a história de que ele tinha uma maletinha de drogas...

Laírton: Olha, eu nunca vi ele com essa maletinha, sabe como é? Chegamos no Rio e era carnaval. Sou roqueiro mas gosto de samba, de tango e de valsa. Aí fomos conversar com o Tim porque a gente queria sair numa escola. Naquela época as grandes eram Salgueiro, Mangueira e Portela. Aí nos falaram de Padre Miguel, que tinha a Mocidade Independente e a Unidos de Padre Miguel. Moramos quase dois anos em Padre Miguel.

VOID: Mas vocês não foram pro Rio pra desfilar em escola de samba, foram pra tocar...

Laírton: Exatamente... Aí o Tim fez a dele e no Rio a gente tava meio deslocado, começamos de novo a fazer baile. E se era pra fazer baile de novo eu não queria, o pessoal concordou e voltamos.

VOID: O Tim Maia largou vocês, então?

Laírton: Não é que ele tenha nos largado, é que ele não tinha alternativa, contatos. A gente vinha com outra proposta musical. O primeiro compacto do Chicaboom tinha uma música esclarecidíssima, sabe como é? No segundo compacto era uma música meio infantil, sabe como é? O público que a gente queria atingir, que eram os roqueiros, não rolava. A RCA na época não queria. Em 1985, com a abertura, fiz um compacto que tinha uma música chamada “Taxas e Pregões”, olha que maravilha. Era uma marcha-rancho. Ouve: Já tive meus dias de glória / Hoje é duplicata e promissória / Estou indo à falência esperando a concordata / Essa situação já vem de longa data / Desprovido então de meus valores, me vi no circo dos horrores / Cercado, ilhado entre credores / É que no momento passo por apuros / O que me mata são os altos juros / Bota pra cobrança em cartório, comparando, o juro é irrisório / Toca eu pro bancop, pro reduto financeiro / Preciso urgente de muito dinheiro / Não posso dar cheque pré-datado, estou com saldo estourado / O meu sigilo foi quebrado / É que no momento passo por apuros / O que me mata são os altos juros / Tem taxa pra anão, pra gigante tem pregão / As joias pendurei, no prego empenhei e o dinheiro já gastei. No outro lado tinha a “Conversas e Lorotas”, que gravei junto com Chico Ferreti, que foi o primeiro compacto independente aqui de Porto Alegre.

VOID: E você falou que esse disco lhe trouxe uns problemas...

Laírton: A música mesmo era um frevo esclarecido, foi composta quando quebrou o (banco) Sul-Brasileiro, e depois dele foi uma quebradeira de bancos, um atrás do outro, uma ciranda desgraçada, tá entendendo? Eu trabalhava numa agência de publicidade que tava fazendo a campanha do Alceu Collares (eleito governador do Rio Grande do Sul em 1986).

VOID: Mas o que você fazia na campanha dele?
Laírton: Eu bolei toda a campanha do cara, tá entendendo?

VOID: Você foi responsável por algum bordão dele?

Laírton: Bordão não, mas o visual de cartaz, essa coisarada toda... Em três meses ganhei um dinheiro que não ganharia em um ano, uma bolada. Foi bem vantajoso. Mas não tenho envolvimento com política. O negócio de fazer música pra político, isso sim eu adoro. Aí nessa época fizemos uma música, “Conversas e Lorotas”, falando da quebra do (banco) Sul-Brasileiro. Mostrei pro cara da agência e ele achou maravilhoso, só que tinha que ter uma música do outro lado pra poder gravar um compacto simples. Aí começou a tocar a música no rádio e chegavam uns caras pra falar que eu ia amanhecer boiando no rio, falavam que eu não tinha que estar cantando aquilo... Umas coisas assim. E eu ia reclamar pra quem?

Os Cleans, de Laírton, abrindo show para os Mutantes

VOID: Essas intimidações eram por telefone, carta?

Laírton: Não, era ao vivo. Uma vez foi num restaurante natural no centro da cidade, outra vez num banheiro de bar. Nessa vez do bar eu fui ao banheiro e veio um armário dizer que não é por aí, entendeu? Eu não podia ficar cantando aquilo. Uma ameaça velada ao trabalho que estava sendo feito.

VOID: Mas essa música chegou a tocar em rádio?

Laírton: Sim, chegou a tocar em rádio, mas tocou só até um certo ponto, tá me entendendo? Talvez por ser independente, sei lá.

VOID: Mas e esse lance da fotonovela com a Vanusa, que coisa sensacional.

Laírton: Pra você ver... Nossa banda fez a fotonovela interpretando uma quadrilha de assaltantes de banco, e ela era a bancária. No fim da história a banda entrava em cana e tal. Pra você ver como é louco tudo isso, depois fui fazer a música da quebra dos bancos e tal.

 Laírton nas fotonovelas, contracenando com Vanusa

 Encarnando um assaltante de bancos na fotonovela

 Laírton atuando em fotonovela

VOID: Mas como surgiu o convite pra fazer a fotonovela da revista Melodias?

Laírton: Cara, na época as principais revistas da mulherada eram a Melodias e a Contigo. A banda apareceu algumas vezes na Contigo, fotos com lente olho de peixe, reportagem maravilhosa.

VOID: E circulando esse universo de Contigo, Melodias, Vanusa, Jovem Guarda... Como era a vida na alcova?

Laírton: Como tem a fã, a macaca de auditório, tinha aquela que dizia que queria casar contigo...
VOID: Mas com quem você circulava?

Laírton: Olha, fiz a Jovem Guarda três vezes, tocando na banda de apoio. Aí tinha a Vanusa, a Silvinha... Senti o poderio do programa do Roberto Carlos naquela época.

 Os Cleans com Vanusa


VOID: E dessa mulherada aí, você pegou alguém? Comeu a Vanusa?

Laírton: Não! Não peguei ela.

VOID: Se pegasse, contaria?

Laírton: Acho que não (risos). Mas eu não tinha carência de mulher, sempre tinha, sempre tava bem.

VOID: E os trampos com artes plásticas, como surgiram?

Laírton: Eu sempre fui metido a trabalhar com madeira, saca? Aí fui começando, expus no Banco do Estado do Rio Grande do Sul e vários lugares e espaços culturais da cidade. Numa dessas conheci uma senhora que me disse pra fazer o ateliê livre da prefeitura. Trabalhei lá dentro durante cinco anos e meio, aprendi a mexer com ferro e pedra. Comecei com pedra grés, fui pra pedra sabão, até chegar no mármore. E faz cinco anos que não bato uma pedra, por não ter local. Trabalhar com pedra é muito barulhento e faz muita sujeira. Aqui tenho minha bancada sobre o tanque de lavar roupa, que é onde foi feita essa casa do Homem Banana.

VOID: Sua casa parece um ateliê, uma oficina. Ela não devia ser desse jeito antes do Homem Banana.

Laírton: Não! O negócio é o seguinte: já pensou estar às 22h em casa e precisar de uma tampa de refrigerante pra improvisar alguma coisa do cenário e você não ter essa tampinha? Você tem que ter. Se o cara se meteu nessa encrenca tem que ter tudo, de todas as cores e tamanhos. Tá me entendendo? Por isso aquele quarto lá (apontando para a dependência de empregada) está abarrotado de tranqueira.

VOID: Pra isso é indispensável que se more sozinho.

Laírton: Não sei. Você pode ter uma companheira que costure, sei lá! Tá me entendendo?

VOID: Um bonequinho de banana que você não dava nada por ele tomou essa proporção e virou um personagem, um super-herói. Isso te revigorou de alguma maneira?

Laírton: Eu tava fazendo uns abajurs, coisas com mosaico, mas nada tão criativo. Coisas pra vender em lojas, aquela coisarada toda, tá me entendendo?

VOID: E hoje o HB tem até uma linha de camisetas...

Laírton: Sim, as camisetas foram feitas no ano passado, no verão. O Capellari deu uma elaborada na arte e eu providenciei o resto. Eu apostei no personagem, apostei energia, tempo, grana. Sei lá, tá me entendendo?

VOID: Mas você teve uma época de baixa, antes do HB. Acho que o Homem Banana deve ter lhe mostrado que a chama ainda queima.

Laírton: Ah, sim! Pô, hoje eu entro em uma lanchonete e as pessoas perguntam como tá o HB, isso é uma massagem no ego, tá me entendendo?

Tá me entendendo?

VOID: Com 62 anos, a maioria das pessoas que a gente conhece não está nesse ritmo que você está agora. Estão numa curva descendente...

Laírton: Mas eu acho que não pode ser assim, né, cara!

VOID: É que você é esse esbanjar de vida! Trabalha, cria, se emociona com as coisas que faz...

Laírton: Ah, eu me emociono mesmo! E outra coisa: o importante é eu estar em contato com vocês. Vocês estão nessa faixa etária dos 30 anos e eu tô com 62, compreendeu? Essa pilha que vocês metem em mim, pra mim isso é muito importante. E de repente eu também passe alguma coisa boa pra vocês, sabe como é que é? Coisas que me deixem com fé e tesão pelo negócio.

VOID: Uma vez te encontrei na rua e você me disse que não sabia explicar como se deu toda essa história de sucesso do HB, se era coisa do destino. Você tem uma prática espiritual?

Laírton: Eu fui criado dentro do kardecismo. Sou um misto de budista com rastafári, algo assim, tá me entendendo? E entre o bem e o mal, escolho sempre o lado do bem. Seja pelo humor, de tirar as arestas da coisarada. Às vezes passa uma pinta que sei lá, tá me entendendo? Mas eu vejo, sabe como é que é? Não é bem por aí, mas aos poucos tu vai contornando e chega num ponto de consenso, tá me entendendo? No compor, fazer música, escrever...

VOID: Você tem uma história sensacional de um poema que fez pra entrar no processo que moveu contra a vizinha do seu prédio...

Laírton: Ah, mas daí eu posso ter problema, posso ser processado... A poesia tá no processo. O artista tem uma arma na mão, tanto no pictórico como no verbal, fazendo uma música, filmando ou inventando uma história, batendo uma foto. Com a arte você tem uma arma na mão e às vezes essa arma incomoda, mas nós não matamos ninguém (risos).

VOID: Mas a poesia isoladamente não é ofensiva a ninguém.

Laírton: Não, ela só fala a real. É o seguinte: dizem que 10% é de inspiração e os outros 90% são de transpiração. Comigo o negócio é meio a meio: “Meu lar virou uma galeria de arte / Há expressões artísticas por toda parte / Contemplativo fui fundo sem olhares radicais / Entendendo que obras são viagens visuais / Mergulhei de cabeça, envolvido no clima infiltrante que vem do apartamento de cima / A vizinha me enrola, com seu choro fico louco, ao ver as paredes despojadas sem reboco / Cinquenta por cento de inspiração, cinquenta por cento de transpiração / Por enquanto, nenhum arranhão, mas vem por aí muita incomodação / Na sala o visual é pop, modernista, de cara percebe-se o recado do artista / Na cozinha, pasmo enquanto vejo, o que brota escorrer pelo azulejo / No banheiro, o efeito é catarata / As manchas no teto são impressões abstratas / A dúvida é o que faço contra esse efeito destruidor / Sei lá se procuro um pedreiro ou um restaurador.“

VOID: Isso é sensacional! E o seu advogado, o que achou?

Laírton: Pois é, peguei as fotos com a poesia e entreguei pra advogada. Um dia ela me ligou dizendo que aquilo era uma maravilha, que ia ser entregue ao juiz. Eu ganhei o caso.

VOID: Mas você deve ser um vizinho boa praça, não deve ter se indisposto com a senhora do andar de cima.

Laírton: Não! É que isso aí faz mais de um quarto de século que está nesse chove não molha. Não tenho nada contra ela, acho ela uma pessoa maravilhosa. Dou bom dia, boa tarde. Todos os meus vizinhos são ótimos, maravilhosos. Sei que não posso fazer barulho depois de um certo horário, mas às vezes são 23h e falta só um parafusinho para terminar o trabalho. Que me perdoem os vizinhos, mas pego a furadeira e faço. Sabe como é?

VOID: Você é um cara que não deve dormir nunca.

Laírton: Durmo sim! Durmo bem! Tenho acordado cedo agora. Durmo depois do Jô Soares. Aí acordo, tomo café e Homem Banana em mim.

VOID: Mas você não é o tipo de cara que consegue ficar algum momento do dia sem pensar em nada, à toa.

Laírton: Não, não posso ficar sem pensar em nada. Putz, sabe? Sei lá! Tenho que fazer as coisas, escrever... Sei lá, bicho! Tenho que estar sempre a mil. Não tomo remédio nenhum, só tomo café e sou tabagista. Raramente tenho bebido, vinho e champagne. Cerveja é muito pouco.

VOID: E vida noturna, balada?

Laírton: Não, não tenho mais saco pra sair pra caçar. Não namoro firme, tenho uns freelances (risos).

VOID: E essa loucura de fazer intervenções na rua, com adesivos de político e tal?

Laírton: Não! Eu só corto adesivos de propaganda política para usar como fita adesiva.

VOID: Mas ali no poste da esquina tinha um adesivo que dizia “A dança não pode parar”. Acho que era de um político que tinha como slogan “A mudança não pode parar”. Não me engana! Com certeza isso é coisa sua.

Laírton: Ah, sim! Mas isso é esporádico, quando não tenho nada o que fazer (risos).