54 hann á afmaelli í dag - matéria 02
poesia pagã
por denise rosa / fotos: eduardo carneiro (desfile) e guilherme thofehrn (passeios e making of)

Vestidos de crochê hiperbólicos borrifados com vapores sulfurosos. Vikings pagãos, as musas de Vadim e um abrigo da Otan. Bem-vindos ao mundo da estilista Helen Rödel, supernova da moda brasileira que foi conquistar a Islândia.
Conheci a marca Rödel LA em 2007, quando minha caixa de e-mail recebeu pela primeira vez uma mensagem de Helen Rödel. O assunto era o editorial de moda com garotas ao redor do globo, intitulado Flickr Gals. Numa época em que não se falava em outra coisa a não ser em web 2.0 e colaboração, me senti instigada por aquele label de moda brasileiro e desconhecido que colocava em prática um projeto tão articulado quanto despretensioso, que se resumia a enviar peças de roupas a it-girls do Flickr para que estas se fotografassem conforme seus gostos e realidades. Dessa forma, um dos primeiros catálogos da Rödel LA já teve ares cosmopolitas, com modelos da vida real oriundas de lugares tão díspares quanto Chile, Suécia, Áustria e Estados Unidos.

Na verdade, a moda da Rödel LA (a estilista Helen Rödel e o marido, advogado e fotógrafo entusiasta Guilherme Thofehrn) já nasceu com ares de mundo. São roupas extremamente autorais, sem nenhuma marca de regionalismo ou vínculo com tendências vigentes. Aliás, pelo contrário, há um aspecto de ancestralidade tanto no desenho de Helen quanto na linguagem das fotos de Guilherme. Esse traço se explica facilmente quando você adentra no mundo do casal: dois apartamentos em um prédio na zona nobre da cidade de Porto Alegre deixados de herança por uma tia-avó antiquarista.
Um apartamento é a casa e o outro, interligado pelo corredor que dá acesso ao elevador, é o ateliê. Imagine o espaço criativo de um novo estilista e provavelmente lhe virá à cabeça minimalismo, linhas limpas, móveis descartáveis tipo Tok Stok. O ateliê de Helen Rödel não é nada disso. Seu habitat é composto de móveis de outro tempo, cristaleiras abarrotadas de bibelôs e utilitários antigos. São artigos de colecionador herdados que Helen, de 26 anos de idade, conserva com um zelo admirável. Um universo paralelo de caixinhas de costura chinesas do início do século passado. De pilhas de Vogue Brasil da década de 1970 (quando começou a ser editada no país). “Ainda tenho as revistas Burda da minha avó com todas as modelagens”, comenta.


Das Vogues, das Burdas, das coloridas calopsitas em porcelana e, também, de Brian Ferry, Brian Eno, Velvet Underground, Caetano e, evidente, de David Bowie, vem a inspiração para a moda crochetada de Helen. Sim, porque até a técnica mais utilizada nas criações da estilista remete às nossas avós: o crochê. “Nós valorizamos muito o trabalho artesanal. Dissociar a técnica das velhas escolas do crochê é uma das coisas que propomos”, declarou recentemente em entrevista à Revista Mag! Uma proposta que demanda tempo e dedicação, na medida que uma peça-piloto pode levar UM MÊS para ficar pronta. Na verdade, a peça-piloto acaba virando peça de coleção, pois dificilmente será fabricada em série.
“Estou em uma fase muito pesada na faculdade, então não tenho tido tempo para pensar na Rödel como business”, confessa Helen sentada em uma poltrona de madeira maciça, em estilo vitoriano, na sala de estar. “Nem na divulgação da marca. Estou para enviar para a dona da Collete (a famosa loja de Paris) dois vestidos, mas até agora eu só me enrolei. O Rony Rodrigues (Box 1224) que apresentou meu trabalho a ela. Nem o conheço. Ele reclama que vive me ajudando e eu nunca disse um 'obrigado' a ele”, ri.


Tamanha e adorável displicência explica-se, em parte, pelo fato de Helen estar recém-chegada de uma tour pela Islândia, onde mostrou suas coleções na Iceland Fashion Week, evento que já teve como patronas Vivienne Westwood e Patricia Fields e que tem como enfoque conclamar um seleto grupo de jovens designers do mundo. Helen esteve lá no início de setembro juntamente com novos estilistas da Grécia, Holanda, Polônia, EUA, Ucrânia, Suécia, Austrália, Argentina, Coreia, Espanha, Noruega e Tanzânia, todos convidados pelo produtor nova-iroquino Andrew Lockhart, a quem coube também trazer a imprensa. Entre estes, Vice Magazine, V Magazine, New York Times, Style.com, Surface Magazine, S Magazine, Wear Magazine e outras.
A entourage de Helen na viagem foi composta apenas do marido e Eduardo Carneiro, fotógrafo de moda que aproveitou as paisagens gélidas do país para clicar um editorial totalmente protagonizado por modelos nórdicas, assim como o staff que colaborou na produção. Sobre a viagem ao país da Björk, você confere na entrevista a seguir.
Como surgiu o convite? Qual foi o contato e como rolou?
Recebemos um e-mail de Andrew Lockhart, que é estadunidense e o diretor da semana de moda. Ele foi incumbido de escolher os estilistas, bem como convidar a imprensa internacional. Ele é produtor em Nova York, e trabalha com artistas como Franz Ferdinand, M.I.A e Hot Chip. Ele achou nosso site e nos escreveu se dizendo maravilhado com a marca, que queria nossa participação.
Vocês tiveram que bancar as despesas ou rolou algum incentivo/patrocínio?
O evento bancou a hospedagem, passeios, alimentação e transporte, além de toda a estrutura que envolve o desfile, maquiadores, cabeleireiros, modelos e produção. Por nossa conta, as passagens e o que mais quiséssemos. Chegamos na Islândia uma semana antes de o evento começar, alugamos um carro com GPS e viajamos por toda parte.


Qual coleção/temporada foi mostrada no desfile?
Apresentamos peças de três coleções. Tentamos sintetizar a moda da Rödel LA, mostrando as plataformas trabalhadas até aqui, crochê, malharia retilínea, tricô manual e tecido plano. O appeal foi inspirado nas mulheres de Vadim (Bardot, Deneuve, Fonda), e a canção “You Set the Scene”, da banda californiana LOVE, foi a trilha-dádiva.
Como é o público islandês consumidor de moda? Tem cultura fashion por lá?
O islandês parece bastante livre e tem sim informação de moda, isso fica claro nas escolhas de seu look. As pessoas parecem se sentir confortáveis e são informais, no geral gostei de sua postura. Eles gostam demais do design escandinavo, como não poderia deixar de ser, uma vez que são muito orgulhosos de sua cultura e de seu povo. Há muitas boutiques interessantes com o selo "Icelandic design". Trabalham muito bem a malha retilínea, modelagem em tecido plano, texturas e volumes, sem contar o tricô manual, técnica que deu origem ao clássico sweater islandês, em tricô sem costuras e jacquard típico. As cartelas de cores são sóbrias e econômicas. Nas noites, as garotas usam muito salto alto, mínis e meias-calças louquíssimas em combinação com blusas bem casuais. As bolsas são pequenas ou carteiras. Os garotos mais jovens são básicos, os antenados escolhem alfaiataria ajustada e escura bem combinada com acessórios.
Como eram as outras marcas/estilistas desfilando? Qual deles você destacaria e por quê?
Tive muita sorte. Conheci pessoas realmente talentosas e produtivas. Meus preferidos são a elegante grega Myrto Stamou, que trabalha corpetes estruturados em couro com lânguidas saias de jersey de seda, tudo em tons areia, bastante imperial e delicado; Anja Hynynen, a élfica sueca que traz uma alfaiataria fresca, suave e pagã construída com ricos tecidos escoceses de fibras naturais e ornada com crochê; a espanhola Georgina Vendrell, de uma moda masculina impetuosa e elegante; a ucraniana Anna Unger, que trabalha com grandes extensões de seda pura, pinks ou estampadas com gigantes cabeças de cavalo, criando um futurismo espacial mundano; e a holandesa Linda Valkeman, cuja cartela de cores me emocionou, bege, branco, alaranjado claro e suave, azul petróleo esmaecido, verde menta sóbrio e marrom claro avermelhado em modelagens amplas e desconstruídas.
Observo que a moda brasileira desperta muito interesse fora, é incrível (porém justificada) a atenção que as pessoas dão. Pensadores e criadores de moda brasileiros precisam dar atenção ao resto mundo, temos muito a contribuir, nossa visão de todas as coisas, nosso entendimento, nossa beleza. E as pessoas querem de fato saber. Precisamos apenas entender como nos movimentarmos pelo mundo.


Vocês ficaram hospedados em abrigos da Otan. Como eram esses abrigos? Como funciona a hospedagem lá?
A ex-base da Otan, fechada para tal função em 2006 e localizada a 30 minutos da capital Reykjavík, hoje é um grande condomínio fechado que está em processo de habitação. Lá há supermercado e restaurante (Langbest II, maravilha), longas e largas ruas e construções amplas e bem acabadas. Os prédios são todos de três andares, o nosso, 744, tinha 20 quartos por andar, academia, lavanderia, sala de jogos e salas de estar com internet wireless. As janelas são grandes, de vidro duplo, com abertura mínima (lá o vento é intenso e muito gelado). Havia muitos estudantes de graduação estrangeiros hospedados no 744 quando chegamos, mas partiram quando o evento começou. O condomínio tem sua administração aberta 24h e recebe pessoas com necessidades de moradia diversas.
Com que impressão vocês ficaram do país?
Foi simplesmente a viagem mais incrível das nossas vidas. A lua está na terra. Em algumas palavras, é um país educado, organizado, unido, orgulhoso, inteligente, com muitas paisagens, vasto, por vezes intocado, curioso, frio, ventoso, pedregoso, poucas árvores, saboroso, fresco, saudável, igualitário, confortável, estradas macias e infinitas, a água quente da torneira vem direto das profundezas da terra, acolhedor, feliz, vivo, sereno, pagão, anuviado, claro-escuro, viking.

Como rolou a ideia de fazer o editorial de moda com o Dudu Carneiro? Como foi a escolha da locação?
Foi a primeira coisa que pensamos. Não podíamos perder de trabalhar com profissionais islandeses em alguma coisa nossa. Unir estas vontades, pensamentos diversos, experiências e culturas é o que queríamos. A beleza nórdica também é algo admirável. Foi fantástico, hoje somos todos amigos e é provável que voltemos a trabalhar juntos. As locações foram escolhidas logo nos primeiros passeios. Lá, qualquer lugar é muita paisagem, mas tivemos sorte de estarmos próximos a um lugar especialmente “explodedor”. Águas vaporosas saindo da terra sulfúrica, precipícios banhados pelo mar, extensos campos de lava negra, colinas verdejantes, tudo isso em um só lugar. Estávamos bem estruturados, nossa caravana dispunha de 3 carros e nossa equipe era fantástica, três modelos, maquiadora, cabeleireiro, stylist, Guilherme, Dudu e eu. Este lugar fica na península de Reykjanes (que é também um sistema vulcânico), situada na ponta sudoeste da Islândia.



Que temperaturas vocês enfrentaram?
De 5 a 10 graus Celsius, mas com um vento intensamente frio e forte.
E a Björk, hein? É a Evita Perón deles? Ou eles têm outro ícone mais relevante?
Sem dúvida. É a pessoa mais importante/célebre do país. É adorada e respeitada. Ela costuma estar por lá, tem uma casa bacana toda preta em um bairro residencial de Reykjavík. Hoje mais do que nunca percebo muito a influência das terras islandesas no trabalho da Björk. Um sentimento que está por toda parte. Uma inteligência tecnológica bem casada com o respeito e com a vontade pelo natural, pela natureza, que é maior e mais forte que tudo e que guia. E eles também amam o Sigur Rós, que por sua vez é tão bucólico, etéreo e silencioso quanto as paragens do norte.



















Info: www.rodel-la.com
EDITORIAL HELEN RÖDEL
Ficha Técnica:
Fotos: Eduardo Carneiro
Modelos: Aldís G.S., Jenný Huld Þorsteinsdóttir, Kolbrún Ýr (Kolla)
Make up: Halldora Jonsdottir
Hair: Erik Helgi
Stylist: Ásta Guðmundsdóttir



