capai que não

53 capai que não - matéria 03

transplante

por matias maxx

Baladas, conexões aéreas, tragos, sushi estragado, cumplicidade, pegação, confusão, pão de queijo, biritagem, shots, long drinks, queimaduras de terceiro grau, cervejinha e algumas manchas de tinta... Bem-vindo à turnê brasileira de Tara McPherson.

Tara em SP

 Tara em SP

Quando conheci a artista Tara McPherson, em janeiro de 2009, a primeira pergunta que eu fiz foi se ela conhecia o significado do seu nome em português. É claro que já conhecia, além do significado em outros países, como no Japão, onde é uma espécie de peixe, e na Irlanda (é de lá que ele vem), onde batiza uma região mística, ponto de encontro de antigos reis. De qualquer maneira, a versão brasileira do nome lhe cai muito bem: ela é loira, corpulenta, toda tatuada, e boa parte de sua obra consiste em retratos de mulheres…

Tara em SP

Tara em SP

Quando não está pintando em seu estúdio em NY, Tara está viajando pra montar suas exposições, lançar seus livros e… conhecer pessoas! Sua primeira viagem ao Brasil foi pra participar de uma expo coletiva na Galeria Choque Cultural, em São Paulo. Tomei conhecimento disso porque uma cliente da La Cucaracha, minha loja no Rio de Janeiro, me ligou minutos depois de Tara ter postado sobre a exposição no seu blog. Escrevi um e-mail perguntando se ela tinha interesse em fazer uma noite de autógrafos na loja, e ela logo respondeu dizendo que já tinha comprado sua passagem pra cidade maravilhosa. Após uma noite de autógrafos de sucesso e duas semanas de muita loucura, a loira saiu daqui já marcando sua viagem de volta em agosto. Foi quando me propus a produzir uma minitour pra ela, que concordou no ato.

Tara em SP

Tara em SP

Tara em SP

Nesse intervalo de meses entre as viagens ao Brasil, Tara praticamente não parou em casa, fazendo uma tour de 12 cidades nos EUA e mais 13 na Europa. Sua vocação pra cidadã do mundo está nos genes. Seu avô desembarcou em NY vindo da Irlanda no início do século XX à procura do sonho americano. Acabou se alistando no exército e servindo em Pearl Harbour. Após a Guerra, Vovô McPherson continuou no Hawaii, onde Tara tem parentes até hoje. Seu pai, no entanto, mudou-se pra Califórnia pra trabalhar na indústria cinematográfica.

 Tara em SP

 Tara em SP

Apesar de ter nascido em San Francisco, ela foi criada em Los Angeles e passava as férias em Baja, no México. Por conta disso, Tara fala um espanhol perfeito, o que lhe ajudou muito nas viagens pelo Brasil, desenvolvendo um dialeto que apelidamos de Portuspanglish. Algumas frases mais repetidas eram “Oi, chica!”, quando encontrávamos alguma amiga, e “Sai forah!”, para os rapazes mais abusados, geralmente acompanhada de um sonoro soco no externo.

Tara em SP

Tara em SP

Reencontrei a Tara em São Paulo na abertura de sua exposição na Choque Cultural. Ela ocupou os três andares da galeria com sua exposição de gravuras, a maioria produzidas para tours ou shows de bandas de rock, como Green Day, Depeche Mode, The Melvins e muitas outras. Ela já estava em Sampa há uma semana e passou o tempo todo pintando as paredes da Choque, além de um painelzão. Por conta disso, acabou ficando com os braços e costas doloridas, o que obrigou este tour manager aqui a carregar todas as malas nas quatro viagens seguintes.

Tara em SP

Tara em SP

A primeira escala foi no sul do país – os amigos doidões, o Xis do tamanho do prato e as belissímas (y muy simpáticas) mulheres de Porto Alegre sempre proporcionaram experiências incríveis. No entanto, nunca consegui escapar de envolver-me em confusões nessa cidade. E é claro que desta vez não seria diferente. Na véspera de nosso voo de Sampa pra Porto, levaram a Tara pra um sushi e, numa mesa com quase dez pessoas, ela pegou um camarão premiado e acordou com intoxicação alimentar. Tivemos que remarcar o voo para o dia seguinte, o que tornaria nossa até então folgada estadia em Porto a maior correria.

Mal chegamos em Porto Alegre e ela encarou uma sessão de fotos. Na sequência, Eduardo e Claudinha, nossos anfitriões na cidade, nos levaram pra um suposto churrasco que, na verdade, era uma festa com line-up de DJs e umas 150 pessoas desesperadas em conhecer e tirar casquinhas da loira! A alimentação saudável de que a Tara precisava resumiu-se ao bom e velho suco de cevada, ou pão líquido. Não ficamos até muito tarde, mas derrubamos inúmeras cervejas com direito à clássica saideira no meu quarto, que se repetiu durante toda a tour nas noites que voltavámos desacompanhados ao hotel.

A noite de autógrafos foi um sucesso, vendemos muito mais gravuras e livros do que o esperado, mas eram tantos fãs que a gente não conseguia sair do lugar. A Tara numa ponta da mesa posando para fotos e autografando, e eu na outra administrando as vendas para uma turba alcoolizada perturbando por descontos e formas alternativas de pagamento. Num determinado momento, a Tara, ainda sob efeito do sushi paulista, pediu licença e correu até o banheiro feminino, não segurou e acabou vomitando pelo corredor mesmo – sorte que ninguém viu. Ainda assim, ela continuou bebendo suas cervejinhas, mas, em prol de conseguir chegar até o fim da tour, acabou optando por voltar ao hotel.

Um pouco antes de ela ir embora, notei que uma das gravuras tinha sumido. Era uma do Supergrass, cópia única, vendida pra primeira gatinha a chegar no evento e que ficou de buscá-la no dia seguinte. Resulta que um mané e seu acompanhante, depois de tirarem foto com a Tara, se achou supermalandro e meteu a gravura, dobrando-a em várias partes e enfiando na bunda por baixo de uma jaqueta. O comédia era local do pico e, na hora de ir embora, levou um tapinha nas costas do segurança, que logo percebeu algo errado. Após tentar três desculpas esfarrapadas e ser devidamente humilhado, o babaca assumiu a cagada e pagou pela gravura. É… Porto Alegre sem confusão não é Porto Alegre.

Fomos recebidos em BH por Rodrigo e Ayrton, donos da Quina Galeria, um espaço maneirissímo no Edifício Maletta, no Centro da cidade, lugar que tem uma história bacana de samba, malandragem e repressão. O evento rolou no sábado à tarde, e como sempre deu uma galera maneira. Eu apresentei a Tara pra Angelina e pro povo da Mini Galeria, outro espaço bacana de BH, e eles nos convidaram pra uma Pizza a lenha num bairro no alto de uns morros. Na volta, paramos num mirante incrível que fez a Tara lembrar dos “date-points” de LA. No dia seguinte, saímos pra almoçar com a Angelina e uma amiga num boteco (BH parece não ter restaurantes, só botecos!) e ficamos da uma às seis da tarde derrubando várias garrafas.

 Tara em BH

Tinha saído uma matéria de três páginas sobre a Tara na revista do jornal O Globo, e precisávamos bebemorar. Saímos do restaurante pro aeroporto, onde bebemos da fila do check-in até o embarque, tendo que matar a long neck no vira pra deixarem a gente entrar.

Tara em BH

Tara em BH

Tara em BH

Em Curitiba, os donos do Kitinete Bar, Márcia Maçã e Rodrigo, nos receberam no aeroporto e nos levaram pra jantar numa balada. Tinha um DJ de Nova York tocando, o cara mixou funk carioca com as músicas dos samplers originais e outras doideiras. A Tara ficou trocando ideia com ele e eu fiquei caçando fumo, que a esta altura da tour já tinha acabado. Era domingo e acabamos indo embora cedo, fomos pro hotel falar abobrinha até secar o frigobar dos dois quartos.

Tara em Curitiba

Tara em Curitiba

Na segunda-feira, a Tara tinha que entregar um design da Hello Kitty para um série Blind Box da Kidrobot, então ela disse que ia ficar trancada no quarto até a hora do evento. Lá fui eu montar a expo sozinho. O Kitinete é um bar superaconchegante, montamos a expo e a mesa de autógrafos no andar subterrâneo da casa, que virou tipo um bunker de toda sorte de doidão.

Tara em Curitiba

O evento foi divertidíssimo. O Eduardo (do Nucleo Urbanóide, que produziu o evento de POA) e o Henry vieram do Rio Grande do Sul até Curitiba prestigiar a Tara. Apresentei ela pro Rafael Silveira, que é o artista brasileiro mais em sintonia com o Pop Surrealismo americano. A loira já conhecia os trampos dele, e os dois ficaram rasgando elogios um pro outro. Quando finalmente conseguimos encerrar a noite de autógrafos, expulsamos todo mundo que não fosse do bonde, bloqueamos a escada que dava acesso ao bunker com um manequim e uma barricada de puffs e fizemos um atentado herbífumo.

Quando saímos, a festa já estava miando, mas não nos demos por vencidos. Depois de passar por uma balada com banda cover já de final, alguém sugeriu que fôssemos a um puteiro qualquer. A Tara concordou, dizendo que eventualmente vai parar num strip joint lá na América. Tentamos entrar em três casas diferentes, mas todas pediam em torno de 50 mangos de ingresso. Estávamos prestes a desistir e voltar ao hotel, quando passamos na frente do Cobra’s, uma sinuca 24 horas no centrão com fama de barra pesada. Pra vocês sentirem o nível alcoólico da galera, ficamos umas três horas e jogamos duas partidas, ambas terminadas quando mataram a bola branca. Enfim… uma noitada clássica!!!

Próxima parada... Rio de Janeiro. A Tara não escondia a emoção de voltar à cidade maravilhosa. A essa altura, a gente já tinha encerrado tantas noites em confissões etílicas de quarto de hotel que já estávamos num estágio de amizade e cumplicidade fudido. Hospedei a mina na casa da Marcella, minha amiga jornalista. No caminho do aeroporto pro apê, fomos parados pela blitz da Lei Seca, mas eles chegaram cedo demais. Ainda estávamos todos clean, ainda...

Tara no Rio  - Foto: Garoto Juca

Tara no Rio  - Foto: Garoto Juca

Novamente foi só o tempo de largar as malas, trocar o tênis e ir beber. Tara e um grupo de amigas da Marcella beberam de manhã, de tarde e de noite praticamente todos os quinze dias em que ela esteve por aqui. Eu acompanhava sempre que podia, pois em algum momento tinha que trabalhar. Era bacana sair causando pelos bares com aquela mulherada, o povo das outras mesas devia achar que eu era o babaca que pagava a conta no final (o que de fato aconteceu bastante). Ou pior: o melhor amigo gay que toda mulher tem!!!

Tara no Rio 

Tara no Rio

Tara no Rio

Tivemos uns dois dias para descansar antes da noite de autógrafos na La Cucaracha, que atraiu umas 400 pessoas mesmo com pancadas de chuva. Vendemos a exposição toda e encaramos uma maratona de bares e festinhas. Encerramos a noite com uma cervejada de manhã na casa da Marcella, com direito a treino de boxe com luvas rosas. Dois dias depois do evento foi meu aniversário e preparei um churrascão na Toscographics, produtora de desenhos animados do célebre cartunista Allan Sieber, que deixou a Tara mal-humorada chamando ela de Sara umas quatro vezes seguidas. A festa foi animal, vários amigos queridos compareceram e eu acordei na manhã seguinte com uma cicatriz nova (e inexplicada) na testa.

Tara no Rio

 Tara no Rio

 Tara no Rio

Agora a situação definitiva foi no final de semana seguinte… Convidaram a Tara para discotecar na Casa da Matriz. A mina arrebentou num set de rock, depois levei as meninas lá pra casa pra verem o nascer do sol e a vista do Cristo Redentor da minha varanda. Quando eu já estava prestes a jogar a toalha, ir dormir e mandar a galera fazer o que quiser (vazar, dormir, foder, whatever!), a Tara coloca a pilha: vamos a la playa!!!! Chegamos no Leblon umas oito da manhã e não havia absolutamente ninguém. Após uns jacarés e uma cerveja, acabei chapando. Então acordo ao meio-dia, deitado e segurando uma latinha de cerveja quente com o braço atravessado pela barriga. Minha pele estava vermelha como um camarão, com exceção de uma faixa branca cruzando o peito. Tipo a camiseta do Vasco ao contrário. A Tara, pelo contrário, estava bronzeadissíma e toda por igual... Porra, além de beber litros e litros de birita e continuar de cara, a mina ainda é imune ao sol! Realmente chegamos à conclusão de que essa gata não é deste planeta… Ela é simpática, gostosa, talentosa, pegadora, boa de copo e durona – me deem motivos para não amar essa mulher!!!

Ah! Ela saiu daqui já marcando a volta, no Carnaval… Alguém me doa um fígado?