capai que não

53 capai que não - matéria 02

maldade alheia

por piero barcellos e vini de la rocha / fotos: gabriela m.o.

 

 Maldade Alheia

Múmia tem 41 anos, a mesma idade que o China. Ambos são... Bom, com esses codinomes, o que passa pela sua cabeça? Serão parceiros do Escadinha, do Melara e do Fernandinho Beira-Mar? Integrantes da facção criminosa PCC? Pertencem a uma quadrilha de asiáticos que vende pisantes originais no centro das principais capitais do país? Não, não é nada disso... Mas você notou que tudo que eu citei está ligado de algum modo à subversão e à ilegalidade? Pois é... e é exatamente essa imagem que a maioria das pessoas têm quando vê a dupla e seus comparsas dirigindo em bando motos gigantes por aí. Deu para ter uma ideia agora do que o Múmia e o China fazem? Sim, ambos pertencem ao Molambo’s Moto Clube, sediado no bairro de Itaquera, zona leste da capital paulista, um dos clubes de motoqueiros mais antigos do Brasil, fundado em 1985. Só que essa visão distorcida de quem os vê e julga apenas pela aparência é um puta preconceito.

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Ok, tudo bem que eles realmente têm um visual que pode assustar os mais conservadores e antigos – várias tatuagens espalhadas pelo corpo, cabelão, barbão –, mas tirar os caras pra marginais e “arruaceiros” (que termo mais careta), como quase sempre acontece, é meio foda. Aliás, é bem foda.

Ou você, leitor da Void, também teria este preconceito filho da puta se topasse com os caras numa estrada? Hein? Bom, independentemente do que você pensa, muita gente pensa assim – e acaba agindo desta maneira também. Até durante o velório da avó de um dos Molambo’s (sim, eles também têm avós, certo?), os caras já foram discriminados.

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“A gente estava no velório e foi no barzinho do cemitério comer e tomar um café, dar uma descansada. E o Molambo’s que tem mais jeito de mendigo, o Maurão, foi pedir um cafezinho no galpão e o dono do boteco achou que ele estava pedindo ‘no amor’, que não ia pagar, que estava realmente mendigando uma comida”, conta Múmia, que além de integrante do clube é construtor de chopper nas horas vagas para tirar uma grana. “É foda, por mais exótico que ele pareça, por mais que ele realmente se pareça com um mendigo, o Maurão é um cara que tem bens, tem uma boa grana, mas sofre preconceito direto pelo seu visual. E ele sempre reage indignado quando isso acontece.” É isso aí, Maurão... mendigo é o caralho!

Molambos

Outra treta que rola com frequência é quando os caras tentam descansar de alguma viagem longa em hotéis de beira de estrada. Dificilmente eles são aceitos nos estabelecimentos de descanso, mesmo nos mais fuleiros. Duvida? “Da última vez, a gente mandou os dois mais bem apessoados do ‘trem’ (palavra que define o grupo todo de motoqueiros, tipo ‘bonde’. Não, acho que bonde não é uma boa comparação, mas enfim, deu pra entender, né?) para ver se desta vez dava certo. Eles mal chegaram na recepção e o atendente já foi falando: ‘Não tem vaga, não tem vaga aqui’. E o hotel vazio, às escuras, acho que não tinha ninguém hospedado”, conta China, um dos fundadores do Molambo’s e presidente do clube. Bom, para tentar fazer a cabeça do recepcionista, os dois “bonitões” do grupo tentaram persuadi-lo, dizendo que havia ainda mais 11, que ele ganharia uma boa grana naquela noite e tal, mas o papo foi em vão. O argumento só serviu para assustar ainda mais o funcionário do hotel.

Molambos

Molambos

No fim das contas, todos acabaram dormindo num posto de gasolina, fato mais que comum para o pessoal do Molambo’s. “Esse tipo de preconceito acontece muito. E eu acredito que a mídia e os filmes têm uma boa parcela de responsabilidade, pois os motoqueiros quase sempre aparecem como bandidos, como os caras do mal”, analisa China, que além de presidente do Moto Clube é motorista na “vida real” para tirar o seu sustento e o da sua família. Sim, eles também têm família, tá pensando o quê, ô preconceituoso?!

Molambos

 Molambos

Quer outra? O “trem” chegou numa cidade do interior paulista dividida por um pequeno rio. Não digo o nome da cidade porque nem eles lembram o nome. De um lado a estrada, do outro a cidade com os bares, as residências, um visual bem de município interiorano mesmo. “Cara, parecia cena de filme de terror, de suspense... Nós chegamos de um lado do rio e o pessoal do lado oposto começou a sair correndo, fecharam as portas dos bares e das casas numa velocidade absurda, parecia um toque de recolher. Com tudo fechado, a galera acabou dormindo naqueles canos gigantes de esgoto, que estavam em uma obra, e ficamos por lá mesmo”, disse Múmia com a maior naturalidade do mundo, como se dormir em canos fosse uma coisa corriqueira. Dormir em canos? Atitude muito de motoqueiro, vai dizer? Ou será de mendigo? Não, não... mendigo é o caralho, porra!!!

MEDÃO

Das poucas referências ao universo dos motoqueiros que o senso comum conhece, uma não é nada amável: os Hell’s Angels, a famosa gangue sobre duas rodas dos EUA. A origem do nome remete à II Guerra: os “anjos do inferno”, como era chamado o esquadrão de bombardeio aéreo americano. Ao fim da guerra, seus dissidentes montaram o clube, e mais do que rodar pelas estradas de moto, tornaram-se conhecidos pelo envolvimento com tráfico de drogas, violência e extorsão.

A outra referência é cult e se baseia nos filmes de contracultura Sem Destino (Easy Rider, 1969) e Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955). A premissa de jovens em busca de um ideal de liberdade, junto com a força do cinema, ajudou a criar uma mística em cima das motos custom, também conhecidas como “estradeiras”, elevando-as a ícone da cultura americana. Porém, o que permanecia era a imagem de um Hell’s Angel esfaqueando um fã dos Stones no documentário Gimme Shelter.

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Por isso cheguei na sede do Mutantes Moto Clube, em Porto Alegre, segurando o brioco na palma da mão. Pautado para descobrir o que acontecia naquele endereço ermo da zona industrial da cidade, me senti rumando para o inferno e tomado pelo medo de provocar a ira do grupo com alguma pergunta capciosa. No entanto... Surpresa. Em vez de uma gangue disposta a esquartejar o primeiro engraçadinho, o clima de camaradagem imperava no churrasco preparado para comemorar o 13º aniversário do Clube.

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No rádio, um jovem Axl Rose se esganiçava cantando “Sweet Child o’ Mine”. Na grelha, linguiça, galetinho, picanha e costela. Em meio a um naco de carne e outro, descobrimos que não existe espaço para bad boys no grupo formado por veteranos beirando os 40 anos e que cultivam longas barbas e cabeleiras grisalhas.


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TEM QUE TER RESPEITO

Quem nos recebeu foi o André de Souza Batista, vice-presidente dos Mutantes. É ele quem nos apresenta aos “irmãos” ali presentes. Participa dos Mutantes desde o início, quando ajudou o presidente vitalício Paulo Tattoo a criar um dos clubes mais antigos e respeitados do sul do Brasil. “Tudo começou com o Paulão, e mais um grupo de pessoas que se reuniram em 1996. Uns entraram, outros saíram porque não se adaptaram às regras, e hoje o clube cresceu, com mais de 70 afiliados, tendo facções em Tubarão, Florianópolis, Joinville e Curitiba.”

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Respeito às regras e comprometimento com o clube foram os termos mais ouvidos naquela noite. As normas envolvem basicamente o pagamento de mensalidade, a participação nos eventos realizados pelo clube e frequência nas viagens organizadas. Por uma questão de segurança, nenhum associado cai na estrada sozinho, viajando sempre em duplas ou mais parcerias. Nos trajetos mais longos, os demais clubes são comunicados e ficam responsáveis por providenciar comida e abrigo para os “irmãos”. Como era o caso naquela noite: muitos ali presentes vinham de outros estados.

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Para se tornar um Mutante não é fácil. O cara tem que ter um padrinho que seja o tutor do jovem mancebo. Fora que o novato deve ter uma moto acima de 250 cilindradas, e que não seja Jaspion – nome dado àqueles que andam em motos esportivas. “Há 13 anos o pessoal tinha motos muito velhas, era só sucata. Daí bastava cruzar um bicho no meio da estrada que o veículo rachava no meio ou caía o pneu. Hoje a situação já melhorou, o pessoal está com motos mais novas, mais inteiras”, disse André. Uma vez lá dentro, o cara precisa provar que é digno do grupo, bem como agradar à diretoria. O grau de reconhecimento entre eles é medido pelo número de partes do escudo que levam junto ao colete de couro. O ápice da honraria ocorre quando o escudo está completo, ou quando o presidente autoriza o associado, caso queira, a tatuar o símbolo dos Mutantes – ato que é feito pelo próprio Paulo Tattoo.

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Então aquela história de vilania foi para o saco? “Lá nos EUA tem o pessoal que é bandido de fato, como os Hell’s Angels. Nós aqui somos os apreciadores do estilo de ser motoqueiro, sem maldade. A maioria se inspira nos filmes dos anos 50 e 60, aquela coisa Elvis Presley, James Dean, e na sensação de liberdade que a moto dá. Nunca tivemos problemas com outros clubes, é tudo na base do respeito”, conclui André.


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OS DIPLOMADOS

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Enquanto aprendíamos sobre as regras, um irmão se aproximava. Média estatura, cabelo e barba de dar inveja a qualquer headbanger, e um Ray-Ban estiloso. Era chamado pelos demais como “Teacher”. Ele é chamado assim por ser professor de história do ensino fundamental. E dá aula a caráter, com toda a indumentária de motoqueiro. Nem os óculos ele dispensa em classe, já que um problema de visão impede que os olhos fiquem muito expostos à luz. “No início os alunos estranharam um pouco, mas hoje não choca mais. Se o cara trabalha certinho, ele pode ser o que quiser.” A viagem mais longa feita de moto foi com os irmãos do clube para assistir ao show dos Rolling Stones no Rio de Janeiro, em 2004. Porém, o arauto das estradas ainda pretende montar um dos seus três cavalos de aço (e eu achando que professores ganhavam mal) e partir rumo a Rondônia, sua terra natal. “O brabo é arranjar uma parceria que aguente o tranco da viagem, além do calor.”

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Uma das motos chamava a atenção absurdamente. Era uma das poucas choppers presentes no local. O tamanho e as chamas desenhadas nas laterais não a deixavam nada discreta. “Essa aí é do Cowboy. O cara veio de Floripa pra cá”, disse um curioso. Perguntando para um e outro, encontramos o dono da moto, um senhor cinquentão, rechonchudo e bonachão, degustando um suco de cevada próximo ao som. Cowboy é formado em Engenharia Civil, e trabalhou por muitos anos com isso em terras catarinenses. “A merda é que nunca me pagavam o que o meu trabalho vale. A remuneração da engenharia civil é muito baixa, não rende. Como o pessoal sempre dizia que eu desenho bem, decidi trocar de área e virar tatuador. Parece mentira, mas eu ganho mais rabiscando pele de gente do que naconstrução civil.”

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JIMI HENDRIX IS ALIVE

Em meio a tanta gente vestida de preto, eis que, do nada, surge uma figura exótica montada numa Harley Davidson: o tradicional colete escudado vinha por cima de uma malha laranja. A faixa na testa dava forma ao cabelo pixaim, e os óculos no estilo aviador eram a única proteção do rosto. Se o cara tivesse com uma guitarra na garupa, poderia jurar que era Jimi Hendrix em pessoa. Mas não. Era o Paulo Ratão, do Ratos de Ipanema, outro clube da região. Com orgulho ele levantava a manga da camisa para mostrar os brasões dos dois clubes tatuados, um deles próximo ao tradicional retrato de Che Guevara. Batia com força em cima do emblema dos Mutantes enquanto dizia: “Isso aqui é família, é tudo”. Paulo foi membro do clube durante sete ou oito anos (ele mesmo não sabia precisar), antes de sair para montar o seu próprio. “Mas uma vez Mutante, sempre Mutante”, ressalta.

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Um detalhe que chama a atenção na moto do Paulo é a inclusão de um câmbio manual do lado direito. Há alguns anos ele perdeu a perna direita, prensada em um acidente com um micro-ônibus. A vontade de correr mundo afora era tanta que fez com que ele vendesse duas motos para investir na sua recuperação, e em um veículo que não lhe oferecesse dificuldades para pilotar. “Hoje eu tenho essa criança aí. Na estrada a gente costuma fazer até 140km/h. É um cruzeiro!” Sobre a sensação de andar de moto, ele faz um pequeno discurso: “Andar de moto é liberdade, é interação com a natureza. E a moto pra mim é uma filosofia de vida. Os valores e as pessoas que você conhece pelos eventos afora são para sempre. Quando a gente se junta, é rock n' roll das sete da noite às sete da manhã, todo mundo bêbado e muito louco. Se precisar a gente se atira na lama, depois se atira no meio de dois, três dentro de uma barraca, e no dia seguinte pega a estrada assim mesmo”.

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THE GODFATHER

Todos os andarilhos em duas rodas citaram a entidade mística do meio, conhecida como Paulo Tattoo. O presidente do clube porta-se tal qual um verdadeiro chefe, com direito a um leão-de-chácara de dois metros de altura na sua cola. Segundo ele, o cara é uma espécie de discípulo, que o ajuda no ofício de tatuador – além de auxiliá-lo em alguns pormenores da organização do clube.

Paulo Tattoo

Paulo Tattoo fala pouco, mas tem firmeza na voz. “Enquanto o pessoal está lá se divertindo, eu estou aqui trabalhando. Mas eu não me importo, porque me realizo com a felicidade deles.” Todas as decisões do clube passam por ele, até mesmo a entrada de novos membros e a punição por desrespeito. “Para entrar aqui, o cara precisa ganhar confiança. Por isso que o processo é lento. Tem gente que demora um ou dois anos para receber a peiteira. Outros demoram menos tempo para completar todo o escudo, pois participam mais, estão sempre dispostos a acolher um irmão quando necessário. Aí, quando alguém pisa na bola, a gente pune removendo uma parte do escudo que ele demorou tanto para conquistar. E ele aceita a punição na boa, porque sabe que errou, e mesmo assim a amizade e a consideração comigo continuam as mesmas.”

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A paixão pela motocicleta veio desde pequeno, e era de família: sempre filava uma carona nas motos dos tios e do avô. Quando fez 17 anos, ele comprou sua primeira moto “cinquentinha”. Hoje alterna entre três, sendo uma delas um triciclo. Em todos estes anos rodando pela estrada, nunca sofreu qualquer tipo de acidente grave, afirmando que só sofreu alguns “arranhões”, normal para quem curte motociclismo. “Hoje eu ando dentro do limite de velocidade, até como forma de dar o exemplo aos demais. Mas antes eu corria que nem louco”, afirma.

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FORASTEIROS

Enraizada em Curitiba fica a sede dos Forasteiros Moto Clube. O nome e o logotipo são inspirados na cultura country da região, aliada ao estigma dos cowboys, eternamente retratados como foras-da-lei. Mas André Arlindo Viana, presidente do clube, salienta: “O nosso negócio é rock e blues mesmo, que é o som dos viajantes. Country mesmo só no nome”. Com 42 anos no documento e 25 anos de quilometragem em duas rodas, o bancário aposentado curte o vento na cara a bordo de uma Harley Classic.

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São 50 Forasteiros espalhados pelo Brasil, com facções em Santa Catarina e Goiás. Para entrar no clube, a vontade de seguir um estilo próprio, aliada a uma moto custom, é fundamental. Durante três meses, o próspero (como é chamado o calouro) deve se dedicar a conhecer todos os demais membros, um por um, além de participar das reuniões toda quinta-feira. Se o cara se comportar direitinho durante um bom período, ele ganha o escudo do clube no colete e é considerado um sócio efetivo. Além disso, é preciso comparecer em todas as quatro viagens obrigatórias que o clube realiza por ano. Afinal, não é só de jaquetas de couro e cara de mau que se faz um motoqueiro.

Maldade Alheia

Agora tente imaginar um bando de motoqueiros, ornamentados com todos os estigmas possíveis, voando baixo nas rodovias. Certo que os meganhas dão aquele aperto. “Já rolou várias vezes da gente ser parado em blitz por causa da aparência. Mas depois de uma conversa rápida, a gente é liberado, sem grandes problemas. Mas sempre rola um preconceito por causa do nosso estilo. E olha que eu, que sou negro, entendo muito bem de preconceito”, disse André.

Ratos de Ipanema

Ele ainda afirma que não há conflitos com os outros clubes de motociclismo, exceto com aqueles que clonam o escudo dos Forasteiros indevidamente. “O nosso símbolo é a nossa identificação, principalmente na estrada, quando nos encontramos com outros clubes, ou quando nos acolhem nas sedes. Tem gente que se aproveita disso e usa o escudo sem autorização. Como estas pessoas não são ‘forasteiros’, e não seguem as nossas regras, isso pode dar problema exatamente para quem curte o movimento.” O presidente do clube paranaense disse que já acionou juridicamente os mal-intencionados.

Ratos de Ipanema

RASGANDO A CAMISA

Se os Forasteiros anseiam pela ação da justiça, os Abutres não perdem tempo para ajudá-la. Sidney José dos Santos, o Buba, é o presidente do clube no Rio de Janeiro, cuja matriz fica em São Paulo. Ele contou que um “esperto” no Espírito Santo estava vendendo camisetas com o escudo do clube, sem a sua permissão. “A gente só aplica o escudo em camisetas brancas ou pretas, e esse cara estava vendendo camisetas laranja, rosa...”, explica. Depois de várias tentativas de conversa, os Abutres resolveram agir: organizaram uma expedição com vários membros até a loja do cara, onde entraram e rasgaram todos os produtos que tinham o brasão. Em seguida, levaram o encagaçado vendedor (vai enfrentar uma turba enfurecida de motoqueiros tocando o terror pra ver se é bom) até a delegacia mais próxima, denunciando-o por crime de pirataria.

Abutres

O respeito pelo escudo do clube possui um significado muito forte para todos, principalmente por ser um símbolo. Buba, que está nos Abutres desde 2002, demorou dois anos para ser “escudado”. “É difícil ser um Abutre porque existe um compromisso e uma união muito grande entre os membros. Tanto que precisa da aprovação de todo mundo para saber se ele merece andar com a gente.” O motoqueiro também fala da confiança que existe não só no clube que frequenta, como também nos demais espalhados pelo Brasil: “Veio um pessoal de Pernambuco em três motos, e bateram aqui na nossa sede. Confirmei os dados com a sede de Recife, e não hesitei em deixar com eles as chaves de uma das minhas casas para que eles se hospedassem”.

Abutres

Quanto às viagens, os Abutres procuram viajar em grupos menores. Grupos com muitas motos costumam andar mais devagar na pista. Além, é claro, de assustar e ocasionar algum problema com as autoridades locais. “Uma vez estávamos andando em um grupo de 30 motos, quando fomos parados pela Polícia Rodoviária. Um dos nossos, que estava em um triciclo, havia perdido os documentos. A polícia não quis liberar a moto, disse que ia detê-la. Como um Abutre não abandona um irmão, nós avisamos que a gente só sairia de lá com a moto liberada. Ficamos todos os 30 por três horas no posto rodoviário, até que veio a liberação de um delegado. A gente ganhou essa na pressão.”

Abutres na pressão

Porém, nem sempre existem alegrias na estrada. Mesmo com o regulamento rígido de comportamento nas viagens, e mesmo seguindo o lema de que um Abutre cuida do outro, nem sempre as pessoas se livram do inesperado. “Uma vez um irmão foi atropelado em São Paulo. Quem estava com ele tentou socorrer, mas foi em vão. Quando isso acontece, a gente fica extremamente triste pela perda, mas tentamos não nos abater. Nós marcamos presença durante o funeral do amigo, e em seguida fazemos uma grande festa, para celebrar todas as coisas boas da vida”, conta.

Abutres

Buba conseguiu transformar seu hobby em profissão. Quando tinha 17 anos, comprou sua primeira moto. Para que a mãe não descobrisse, ele a guardava desmontada debaixo da cama, junto com as peças que ia adquirindo. Hoje ele é dono da Rio Choppers, fábrica especializada em fazer motos choppers por encomenda. “Uma moto customizada leva cerca de quatro meses para ser feita, e custa cerca de R$ 12 mil, mais os acessórios que o cliente me fornece, como os pneus apropriados, a moto que serve de base e a bateria.”


EM BANDO

Durante a II Guerra Mundial, uma das preocupações das tropas era percorrer longas distâncias em curto tempo com agilidade. A exportação de motos para o front de batalha foi o que salvou as montadoras americanas da quebra da bolsa de 1929. Até então, o transporte em duas rodas era encarado como um substituto barato aos “muscle cars”, beberrões de gasolina.

Por segurança, as viagens de moto dos militares eram feitas em grupo, não raro em formações típicas das aeronaves, em que os que se mantinham na frente quebravam a resistência do ar para que os que estivessem atrás aproveitassem o vácuo e economizassem combustível. Este é o embrião dos clubes de motoqueiros espalhados mundo afora.

Nas telas


- Motoqueiros Selvagens (Wild Hogs, EUA, 2007)
Quatro amigos de meia-idade largam a rotina para fazer uma grande viagem de moto, e descobrem que o mundo lá fora é bem diferente, além de se envolverem com uma gangue de motoqueiros de verdade. É um bom filme para quem leva as lições de moral das comédias americanas a sério, e consegue aceitar Martin Lawrence, Tim Allen e John Travolta como motoqueiros.

- Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, EUA, 2007)
Nicolas Cage é piloto de acrobacias e usa uma peruca estranha. Para salvar o pai da morte, ele faz um pacto com o capeta, ganha poderes e uma moto custom infernal. A única verdade neste filme é o capeta. Se você morrer, não espere que o tinhoso te dê um presente desses...

- Desafiando os Limites (The World’s Fastest Indian, EUA, 2005)
Anthony Hopkins deixou de comer pessoas para fazer uma grande viagem com uma moto Indian de 1920. Um daqueles filmes emocionantes que você vai adorar citar as passagens para os amigos de estrada, até que eles lhe mandem calar a boca.

- Diários de Motocicleta (Vários, 2004)
Che Guevara corta a América do Sul com o amigo Alberto Granado na garupa da moto. Se você é facilmente influenciado pelas mídias a ponto de dar “boa noite” para o William Bonner no Jornal Nacional, este será o seu grande motivador para qualquer doideira em duas rodas.

- Sem Destino (Easy Rider, EUA, 1969)

Taí um filme que pode retratar bem o espírito dos motoclubes do Brasil afora. Sem Destino é uma viagem por uma América psicodélica em busca de liberdade. A diferença é que nos anos 60 os motoqueiros eram juvenis e inconsequentes, diferentes dos tios quarentões e cinquentões que conhecemos.

- Juventude Transviada (Rebel Without a Case, EUA, 1955)

Um dos últimos filmes do ator James Dean, ajudou a cunhar o lifestyle da maioria dos motoqueiros: jaquetão de couro, calça jeans, atitudes rebeldes e muita velocidade. E não se pode negar que Dean deu um bom exemplo ao mostrar o que pode acontecer com quem corre demais...