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tradição, família e propriedade

por felipe de souza / fotos: mauricio capellari

 tradição, família e propriedade

Aos 30, olhar para as garotas de 15 anos que estão ao seu redor faz você lembrar que sua adolescência foi vivida em um estado de retardo mental semivegetativo. Hoje a puberdade chega aos 9 e, aos 15, a molecada já está voando baixo com suas conexões de 1MB durante 12 horas por dia, com tragos homéricos e vida sexual a pleno.

No interior não é diferente. Vá pra Quixeramobim, desafie qualquer infante para um duelo de shots e esteja pronto pra acordar no hospital, com o carimbo de Tio Bundão estampado no rabo. Mas, se procurarmos bem, ainda iremos achar jovens que cultivam as tradições já esquecidas nos grandes centros. E uma delas é o indefectível e folclórico baile de debutantes, ritual em que as meninas adolescentes são apresentadas para a sociedade local e de algum modo passam a interagir mais na comunidade em que vivem. Se por um acaso você lembra do último debut em que esteve presente, é provável que não queira rever as fotos daquela noite.

Do fim dos anos 90 pra cá, a esmagadora maioria das meninas prefere não debutar. No lugar do vestido longo, do baile e da reunião de parentes e amigos comendo e bebendo na faixa, moçoilas optam por viagens ao exterior. A terra do Mickey Mouse ou a Bahia com os colegas de colégio parecem ser os destinos favoritos.

Então, para buscar o verdadeiro significado do verbo “debutar”, tivemos que pedir ternos e sapatos emprestados para nossos amigos bancários, meter câmeras de vídeo e foto no porta-malas e cair na estrada. A cidade escolhida foi Sobradinho, no interior do Rio Grande do Sul e distante 236km da capital Porto Alegre. Segundo informações quentes, lá o espírito da coisa continuava intacto.

Assim como a Cordilheira dos Andes serviu, durante muito tempo, como isolamento cultural para o Chile e outros países andinos, nosso palpite é que o debut tenha resistido em Sobradinho graças à estrada íngreme e miseravelmente esburacada, que torna a viagem até o município um inferno na Terra. O legal é que, apesar das crateras, com um pouco de espírito aventureiro dá pra curtir a viagem e aproveitar as paisagens bucólicas de lugarejos como Linha Andreas, Vila União e Passa Sete.

tradição, família e propriedade

Novatos nesse esquema de bailes, chegamos um dia antes da grande noite. No fim da tarde de uma sexta-feira, nos reunimos com as debutantes e suas mães, o que nos deixou mais inteirados do assunto. E o negócio é sério. As mamães, em polvorosa, se preocupam com tudo: fotos, vídeos, decoração do salão, horário marcado na cabeleireira... A cerimônia estava confirmada para a noite de sábado, no Clube Comercial da cidade. Ao todo, meia dúzia de meninas debutaria em conjunto.

Quem organiza toda a logística é Clauria Ruosso (apostaria R$50 que o primeiro nome é erro de cartório), debutóloga do clube e dona da loja de roupas mais hype de Sobradinho, a Status. “No cerimonial tem que usar gravata. Não fumem no salão”, orientava a frenética Clauria. O cenário de tudo isso segue a linha interiorana tradicional. Sobradinho tem 14 mil habitantes que circulam num universo que comporta não mais que uma igreja, uma praça com coreto, uma emissora de rádio, um hotel vagabundo e uma avenida principal. Ah, e umas duas dezenas de salões de beleza, que parecem ser a mola propulsora da economia local.

Tradição, família e propriedade

No sábado pela manhã, a missão era acompanhar os preparativos das incautas. Para tanto, rumamos para Ibarama, cidade satélite de Sobradinho, onde residia uma das meninas. Com quatro mil habitantes, arquitetura intocada e vasta área verde, Ibarama é linda. É daqueles lugares que você planeja ir viver quando largar a bebida e deixar de fumar. Um pico bom pra comprar uma casa de quintal grande, deixar as janelas abertas o dia inteiro e plantar uma horta orgânica. E é exatamente num lugar desses que vive Ana Carla Prade. “Aqui não fazem mais bailes. Quem fazia era o salão paroquial da cidade, mas como agora tem muito pouca menina debutando, eles encerraram”, dizia ela, explicando o porquê de ter que sair dos limites da cidade para debutar.

Ana Carla se prepara para o baile

Ana é, de longe, a mais desenvolta e simpática das aniversariantes. Torcedora fanática do Internacional, a menina escolheu um vestido em tons que lembrassem o clube do coração. Há três meses namora um rapaz do colégio e faz planos para sair da cidade, de preferência Santa Maria, onde há uma universidade federal. Tantos planos para o futuro, respostas calmas e diretas ao repórter inconveniente e traquejo com a câmera não apagam seu lado romântico. “Toda menina sonha com uma festa dessas, uma festa grande. Como o próximo ano deve ser meu último por aqui, é mais um motivo para participar do baile."

Ana Carla e sua mãe, em Ibarama

Apesar de a tradição dizer que a cerimônia de debutantes é um rito de passagem para uma nova fase da vida, Ana Carla é bem realista. “Depois do baile nada vai mudar.” Mudança mesmo só a de cidade. A mãe de Ana Carla não simpatiza muito com o genro e torce para que a rebenta passe no vestibular e saia logo da alça de mira do galalau. “Ela é muito nova pra namorar, ainda tem outras coisas mais importantes pra conquistar”, sentencia a sogra que poucos gostariam de ter.

Suas escolhas fazem você

De volta à “metrópole”, em Sobradinho tudo era efervescência. O vai e vem de carros ao redor da Praça Três de Dezembro era constante, loirinhas tomavam cerveja na calçada, um desfile de moda era feito ao ar livre e os preparativos para a parada de 7 de setembro tingiam tudo em tons de verde e amarelo. Completando a agitação, em razão do baile, metade da população feminina do local circulava pelas ruas com os indefectíveis bobs enroscados no cabelo. Tudo era fresco e revigorante. Deu até pra achar que a vida realmente valia a pena ser vivida.

Dentro do salão, a atmosfera também era agitada. O ônibus da banda já tinha sido estacionado, técnicos cuidavam da luz e os músicos passavam o som. Caixas de rango e bebida eram empilhadas na cozinha, os refrigeradores funcionavam a pleno. De meia em meia hora, uma nova debutante chegava para uma sessão de fotos. A primeira delas foi Sabrina Denardi, filha da mãe mais zelosa que já vi em minha vida. Enquanto Sabrina posava, a coroa atazanava a vida do fotógrafo, ordenando que a filha fizesse as mais descabidas poses. “Tira os sapatos, filha... Deita... Cuida o olhar... Segura a flor, sente o aroma.” Em contraste com a agitação daquela senhora, o retratista era pura calma e concentração. Pela paciência demonstrada, é quase certo que se tratava de um ávido leitor do A Guide to Bodhisattva Way of Life e que, após aquela sessão de fotos, tenha se recolhido em algum canto para se dedicar a prostrações e mantras.

Depois de um sem número de flashes disparados, conseguimos conversar com Sabrina. Com o rosto alongado e um nariz à la Betty Lago, a menina tinha toda a pinta de miss. Tentando cutucar a mãe pentelha, metralhamos a pobre menina com perguntas capciosas. “Você não acha meio atrasado esse lance de debutantes? Por que não pediu a grana do baile pra viajar pra Miami e conhecer o Pluto?”.

Tradição, família e propriedade

A rapariga, calma e sorridente, devolveu: “Debut é só nos 15. A viagem eu posso fazer em qualquer outra idade”. Muito mais que vontade própria, talvez o exemplo familiar a tenha empurrado para o salão de baile. “Lá em casa somos cinco irmãs e todas debutaram. Quis fazer o meu debut também.”
Sabrina era mais um exemplo vivo de que, quanto mais cedo você se distanciar de sua família, menos chances eles terão de colocá-lo em situações embaraçosas. Como a colega Ana Carla, ela também quer vazar para Santa Maria, para estudar Medicina. Logo mais à noite, 20 integrantes da família Denardi pagariam R$25 por cabeça pra ouvir a moça declarar em seu discurso de estreia:

“Escolhas podem definir um momento, mudar o caminho ou transformar sua vida. Afinal, você faz suas escolhas e suas escolhas fazem você”.


Transformando o impossível em realidade

Já meio sufocado por aquele ambiente de candura, saímos pra tomar ar. Por pouco tempo. Logo chegou o aviso de que outra das debutantes estava por perto, em um salão de beleza, dando os últimos retoques na maquiagem e no cabelo. Luma Trevisan é herdeira do maior supermercado da região. É a mais mignon e com certeza a mais acanhada. “Depois do baile de hoje começa uma nova fase, com amadurecimento e mais responsabilidades”, disse Luma. Fiquei imaginando qual a carga de responsa que se carrega em Sobradinho quando se faz 15 anos.

Luma se prepara para o baile

Em seu discurso para a sociedade sobradinhense, Luma disse que “somos a história que escrevemos a cada dia, vivendo conquistas, experiências e descobertas, da certeza de que a vida é o grande momento de todos nós”. De certa forma, num ponto de vista ateu, dá pra concordar com ela, já que ainda não temos provas científicas da reencarnação kardecista.

Estávamos vivendo uma experiência única. Uma emulação do mundo perfeito, um universo onde o núcleo familiar ainda estava vivo e a sociedade gerava seres humanos sonhadores. Éramos os únicos miseráveis espíritos de porco em um raio de muitos quilômetros. Quase anestesiados, ouvimos Cristina Rigon, outra debutante, filha de Maria Bridi Rigon e Márcio Rigon, nascida em um ensolarado e fresco dia 27 do alviçareiro mês de maio do ano de 1994, declarar que “os sonhos são tão importantes quanto os passos de uma pessoa, pois são eles que nos permitem caminhar na direção certa e transformar o impossível em realidade”. E, adivinhem: ela também quer ir pra Santa Maria, estudar Farmácia.

Naquele começo de noite, tudo era alegria, excitação e ansiedade, e olha que ainda tínhamos pela frente o ponto alto da noite: o baile.

Valsa, cenário escarlate e bico seco

O baile repleto

Já empacotados nos ternos conseguidos através da caridade de terceiros, o grande puzzle era dar o nó correto na gravata, tarefa em que ganhamos auxílio de um prestativo garçom da festa, sósia de John Malkovich. Nos demos conta que éramos os únicos a usar trajes sociais. Todo o resto do povo vestia traje de gala, que é como chamam aquela roupa que faz geral parecer como um bando de pinguins. Depois de vencer a tradicional escadaria de acesso, ganhamos o salão.

O local recebia umas 300 pessoas e, ao fundo, o palco alvi-rubro por onde entrariam as meninas chamava a atenção.

O baile

A cerimônia era simples e começou na hora marcada. Uma a uma, as garotas eram chamadas por Clauria ao microfone, entravam por um acesso lateral, chegavam ao palco, sorriam, acenavam e desciam as escadas para encontrar os pais e o par de honra. Na sequência, a clássica e constrangedora valsa. Tudo ocorreu incrivelmente bem, a felicidade e a esperança encontraram ali, na sede social de um clube cinquentenário, seu apogeu. Encerradas as formalidades, era dada a hora de encher o cu de parentes e amigos com álcool e empadas.

Clauria Ruosso, a debutóloga

Foi aí que descobrimos que não teríamos bebida na faixa. “Pra beber tem que pagar”, lembrava Clauria. Como a embriaguez era peça-chave para continuar suportando o ofício de reportar um baile (teoria aprendida com o Amaury Jr.), a debutóloga gentilmente cedeu uma garrafa de Chivas Reagal para a equipe. A bebida era de uma safra especial, produzida lá no país de Fernando Lugo, e cobrou seu preço na manhã seguinte, especialmente em nosso cinegrafista, que foi sedento em demasia.

Alegria

Sim, o uísque foi o ponto final em nossa jornada. Esticando de maneira imprudente a alegria, no dia seguinte as debutantes ainda desfilariam em carro aberto pelas ruas da cidade. Não ficamos para ver.

O certo é que deu inveja de todo aquele frescor, de todos aqueles planos. Não saberemos como será o futuro de nenhuma das seis debutantes. Se o destino se entrosar com a estatística, é provável que nenhuma delas chegue na Universidade Federal de Santa Maria e fiquem ad eternum em Sobradinho, o que não seria má ideia. A cidade precisa de gente que saiba gerenciar um hotel, programar uma rede wireless, tocar um negócio em que se possa tomar café da manhã e ler jornais aos domingos e, em uma última e desesperada oportunidade, alguém que tape os buracos da estrada.