52 por trás - matéria 03
depois do temporal
por pexão
No início dos anos 2000, usando apenas a assinatura “Calma”, Stephan Doitschinoff começou a chamar atenção no concorrido e intolerante cenário da arte de rua paulistana. Sua força não estava na quantidade, e sim na qualidade e na força dos desenhos, como seus esqueletos de passarinhos e o emblemático boi com marcas de corte e cabeça de Jesus Cristo. De lá pra cá, Stephan apurou a técnica e enfrentou seus demônios em obras que foram expostas em diversas galerias prestigiadas do mundo e, no Brasil, principalmente na Choque Cultural.
Em 2007, no meio do hype da arte urbana, ele se mudou para a cidadezinha de Lençóis, no interior da Bahia. O objetivo era se isolar e produzir em casa, mas acabou indo para as ruas e elevando a street art para outro nível, em uma intervenção sem precedentes na cidade e no cotidiano de seus habitantes, que rendeu inclusive a pintura da capela do cemitério local. A experiência transformadora está devidamente registrada no livrão/bíblia Calma, lançado pela editora alemã Gestalten, e no documentário Temporal. Mas, voltando ao seu começo nas ruas, com o Cristo-boi, e passando por temáticas atuais (incluindo igrejas pegando fogo ou afundando em mares de sangue), o que pouca gente sabia na época é que ele tinha sim raízes legítimas para fazer o que estava fazendo, principalmente para brincar com o fogo sagrado.
VOID: Onde você está agora, o que está produzindo e sentindo? E pra onde vai em seguida?
CALMA: No momento estou morando em São Paulo novamente, bem feliz de estar aqui perto dos meus amigos e amigas. Estou trabalhando na minha próxima exposição solo, que vai ser bem diferente de tudo que já fiz. Não vai ter nenhuma tela, vai ser uma grande instalação. Já estou há quatro meses trabalhando nisso. É estranho trabalhar tanto em uma coisa tão grande assim, pois por muito tempo o trabalho parece abstrato demais. Parece perdido, bate uma ansiedade, mas agora está começando a tomar corpo. E no Museu Afro Brasil, na exposição “Os Mágicos Olhos das Américas”, que abre agora no fim de setembro, terei uma instalação formada por um oratório e algumas peças em madeira e tecido.
VOID: Seu trabalho parece ser a ilustração de algo como uma nova religião, um projeto quase de ficção. Ou uma expressão usando imagens que talvez sejam mais naturais pra você do que pra outras pessoas. De onde veio isso?
CALMA: Fui criado num ambiente extremamente religioso. Meu pai era pastor evangélico e diretor de um acampamento de férias da igreja, enquanto minha mãe também dirigia a igreja e o acampamento. Muitas vezes o ponto de partida das alegorias em que me baseio vem de histórias bíblicas e profecias apocalípticas que eu lembro da minha infância. Eu e minhas irmãs éramos incentivados a decorar longos trechos da bíblia, e muitos deles eu ainda lembro de cor. Mas a maioria das profecias que lembro veio dos Cultos de Domingo para Adultos. A maioria das crianças frequentava apenas a Escola Dominical Matutina e, às vezes, outros cultos da tarde, com histórias leves sobre o Amor Crístico ou os Salmos. Mas, como éramos os filhos do pastor, não tínhamos babá e televisão era coisa do capeta, eu e minhas duas irmãs sempre tínhamos que passar o dia na igreja e ficar até bem mais tarde. Até o final do último culto noturno, que era destinado somente a adultos e normalmente abordava temas mais pesados. Havia um pastor mais velho, chamado Seu Varridel, que era, na verdade, o mentor e chefe do meu pai. Ele era um velho missionário suíço-alemão e fundador da nossa igreja. Seu Varridel tinha um gosto todo especial pelas profecias apocalípticas, tema central dos seus discursos acalorados. Os discursos sempre terminavam com alguma história bizarra e assustadora sobre demônios, prostitutas de dez cabeças e civilizações inteiras sendo destruídas por seres bestiais. Ele gritava e gesticulava apopleticamente enquanto dizia que o fim estava próximo e que tínhamos que nos salvar, pois “Satanás Reinará na Terra por 1.000 Anos!”.
VOID: Toda essa proximidade com a religião poderia ter lhe bloqueado com uma fé cega. Mas você escapou dessas limitações e virou o jogo, usando inclusive essa bagagem para impulsionar a sua expressão artística e visão crítica do mundo. Qual a raiz dessa mudança?
CALMA: A raiz vem da minha infância, mas demorou uns quinze anos pra eu conseguir digerir, assimilar e, talvez, me sentir confortável pra trabalhar essa problemática na minha vida e na minha arte. O esquema da igreja para as crianças não é muito diferente do que pra adultos. O que pega é que a criança já tem uma fé cega natural, então as experiências se tornam mais intensas e profundas. No fim foi o hardcore que me levou de volta à religião. No início da adolescência, eu já não queria mais saber de igreja nem de bíblia, e comecei a andar de skate. Comecei a me envolver com a molecada do skate e do punk do meu bairro, na Zona Sul de São Paulo. Em 94 formei uma banda de hardcore e, na mesma época, comecei a me interessar mais pelas a questões éticas e políticas do movimento, ir atrás de fanzines e livros. E com isso acabei me tornando vegetariano. O vegetarianismo me levou a um interesse pela culinária e filosofia macrobiótica, da qual me tornei adepto extremista e fiel seguidor. Foi através do livro Macrobiótica Zen, de Georges Osawa, que comecei a me interessar pela parte filosófica dessa ideia, baseada no zen e no taoismo, e que mais tarde fui estudar. Então cheguei a alguns textos de C. G. Jung, nos quais ele dissecava a religião, mostrando seus aspectos mais científicos e psicológicos. A partir daí comecei a estudar psicologia junguiana e me interessar também por mitologia, estudando autores como Marie Louise Von Franz, Sallie Nichols e Campbell. São autores que abordam a mitologia através de uma visão mais científica e psicológica, mas sem negar seu valor sagrado e sua influência na esfera não física.
VOID: O Ale Vianna, da revista Cemporcento SKATE, que me falou: "o Stephan tem uma relação com o skate mesmo, encontrava ele direto andando com a galera". Qual sua história com o skate?
CALMA: Sempre andei na rua porque o bairro em que eu cresci, o Planalto Paulista, era meio tranquilo naquela época. Então, desde os sete ou oito anos eu já ficava na rua o dia todo, jogando taco ou andando de carrinho de rolimã. Isso perto de casa mesmo. Eu morava na rua da (favela) Mauro 1 e a gente descia de rolimã pra comprar gelinho, escondido das nossas mães porque elas diziam que era feito com a água do córrego. Aí apareceu o skate. Mas antes de ter um, eu já andava com a galera do skate. Mas eu andava de bike. Só comprei um skate meu mesmo com uns 15 anos. Na época era a febre skate-punk total, patche-costa costurado na camisa de flanela, bandana, meia levantada.
VOID: O gosto pelos universos gráficos sagrados e a investigação das religiões são características muito especiais da sua arte. Mesmo com resultados diferentes, são coisas também presentes no trabalho do coletivo Upgrade do Macaco e nas carreiras solo de seus integrantes. Tem uma afinidade com essa galera?
CALMA: Quando fui pra Porto Alegre pela primeira vez, acho que em 2002, e conheci o Emerson Pingarilho, fiquei perplexo com o trabalho e a busca dele. Depois fui conhecendo melhor ele, o Guilherme Pilla, o Geraldo Tavares, o Bruno 9li, o Tinico, todo mundo de uma vez. Foi bem estranho, fiquei bem a fim de mudar pra cidade. Comecei a conversar mais com o Pinga principalmente nessa época e vi que tinham várias coisas muito a ver, principalmente os estudos de filosofia e ocultismo e em como isso permeia nossas vidas. Isso pode vir à tona na nossa arte, mas não necessariamente de forma gráfica. Como, por exemplo, no caso do Tinico, que tem desenvolvido um trabalho não figurativo, mas altamente espiritual. Ou no caso do Bruno 9li, que se desvinculou da maioria dos símbolos seculares.
VOID: Como você enxerga as igrejas brasileiras modernas voltadas para as massas, que usam os meios de comunicação e são bem eficientes em arrecadar dinheiro de seus seguidores?
CALMA: Do ponto de vista útil, acho que desde 1500 e pouco, com Calvino e Lutero, a igreja protestante vem fazendo um desfavor à humanidade ao execrar a arte sacra e a sacralidade do próprio espaço. Elementos que, na minha opinião, são o maior valor de todo e qualquer templo religioso, que deve oferecer um lugar de paz e estimulo à contemplação, à oração e à meditação. E esse é também o principal papel dos ícones e relevos, assim como as mandalas são para o budismo tibetano e o hinduísmo. Focar no ícone até tudo mais se dissipar. Acredito que não importa onde, nem pra quem, nem de que maneira se está meditando, orando ou chorando, o importante é o desligamento. Do ponto de vista histórico, acho que não mudou muito. Talvez o povo esteja ainda mais conformado e indolente do que nunca, porque agora as notícias de escândalos e as comprovações de esquemas de corrupção aparecem na mídia e mesmo assim ninguém se move.
VOID: O seu trabalho tem esse peso apocalíptico. Fico curioso sobre a sua visão do atual cenário escravizante e alienante.
CALMA: O problema da escravidão e da alienação é que elas são voluntárias. Em geral é a própria pessoa que se afunda. Quem te obriga e chegar em casa e assistir ao noticiário? Quem te obriga a ler o jornal? Porque todo mundo acha que tem que estar informado e saber quantas pessoas morreram na Faixa de Gaza, ou no morro do Boréu, ou no Belenzinho, ontem? Pra que acompanhar qualquer notícia? Mesmo se não fosse manipulado, não faria diferença assistir ou não. E não é só o tempo perdido. Aquilo entra e se cristaliza no inconsciente como se fosse a realidade. A maneira pela qual você vivencia as coisas e responde ao mundo vai se basear naquilo, você vai pra onde sua atenção está.
VOID: A colaboração de Oscar Niemeyer e Candido Portinari para criar a notória igreja da Pampulha, em BH, não teve como objetivo direto exaltar a religião católica, até porque eles eram comunistas, e o arquiteto, publicamente ateu. Parece que eles realmente aproveitaram uma oportunidade de se expressar criando um espaço que seria frequentado, contemplado e preservado. Na primeira vez em que vi as imagens da capelinha que você pintou em Lençóis, lembrei da Pampulha. Queria saber a sua visão dessa relação e o quanto foi premeditado ou espontâneo isso de inserir sua arte de uma maneira tão profunda no cotidiano das pessoas.
CALMA: Na verdade, eu fiquei totalmente dividido quando fui convidado pra pintar a capela. Porque eu sempre me senti como opositor e contra tudo aquilo que o cristianismo representa como instituição. Talvez a mais sinistra das organizações que já existiram. Imoral e amoral. Enraizada na nossa cultura a ponto do próprio inconsciente coletivo do Ocidente estar baseado em alguns dos seus mitos e dogmas. Uma máfia que vem prejudicando a humanidade de todas as formas, desde a manipulação de textos sagrados, da mais alta sabedoria e valor, com o intuito de controlar o povo, até a destruição de culturas inteiras e a alienação e o distanciamento voluntário de uma experiência real mística.
Deixando tudo isso de lado, eu percebi que no Alto do Tomba, comunidade satélite de Lençóis e refúgio de netos e bisnetos de escravos do antigo quilombo do Remanso, aquela igrejinha era o que o povo tinha nas mãos. E ela estava semiabandonada, pois não era cuidada nem pela diocese e nem pela prefeitura de Lençóis. Na capela já havia um altar com imagens de um Preto Velho, um Boi, uma Iemanjá e um Índio, entre outras. Aquela já não era uma capela católica, e sim um templo onde as pessoas da região iam rezar para suas entidades protetoras e acender uma vela para seus mortos. Respeitando essas pessoas e suas crenças, eu tentei realizar um trabalho livre de críticas, acidez ou de qualquer interferência da minha opinião sobre a instituição.
VOID: Você gosta de falar ou escrever diretamente sobre suas obras? Elas despertam bastante curiosidade, como, por exemplo, esse trabalho que está na divulgação da exposição Novo Mundo, “O Homem Apropriado”.
CALMA: Acho importante analisar. Até porque muitas vezes eu desenho uma peça nova e, depois de acabada, percebo algumas associações de símbolos que se encaixam e formam histórias mais complexas do que eu primeiramente havia pensado. O “Homem Apropriado” foi uma das últimas telas que pintei antes de ir embora da Bahia. Eu já a tinha esquematizado na cabeça fazia uns seis meses, apenas em linhas gerais, como a parte do intestino e da cabeça.

VOID: Depois da experiência na Bahia, o que mudou na sua visão da relação obra-público? E o que lhe interessa fazer agora?
CALMA: Me interessa experimentar e me apropriar de novos espaços, que extrapolem a rua. Admiro quem consegue se infiltrar com sutileza em locais e conceitos sociais pela tangente. Alguns artistas conseguem fazer isso com esmero, como a instalação que Maurizio Cattelan desenvolveu pra Bienal de Veneza de 2001, na qual ele ergueu as letras Hollywood em tamanho monumental no alto do lixão municipal de Palermo.
Uma rápida analise do “Homem Apropriado”, por Stephan Doitschinoff:
Na cabeça, uma flor de lótus, que nasce sempre sobre a lama, em brejos desabrochando pura, com suas folhas sempre limpas. Seria a tomada de consciência só se tornando possível após a integração dos processos da sombra, a aceitação do lado “negativo”.
A mão direita, a mão que abençoa, tem no centro da palma uma cabeça de peixe. Esse símbolo era usado pelos cristãos no início do século 1, época em que os devotos de Cristo eram perseguidos, para se identificarem entre si. Animal do mundo da água, símbolo do inconsciente, de sangue frio, não pode ser dominado por paixões. Por isso mesmo, tornou-se elemento para sacrifícios sagrados.
No cotovelo direito, um pequeno mar onde navega a salvação, nas águas do Dilúvio, os peixes, que não foram alvo da maldição divina, nadam tranquilamente. A arca que recebe a pomba, símbolo do apaziguamento da ira divina.
Na mão esquerda, a mão que amaldiçoa, a bíblia enfocando o apocalipse e um dos anjos das trombetas caminhado em sua direção, acima a torre de babel. O castigo já começou.
No peito, sobre o coração, uma mariposa atraída em direção à luz. Eternamente procura e morre, sem resistir, como o ser humano que não resiste às paixões e se queima todo o tempo. No lado direito, a morte.
Na altura do estômago, algo que realmente enjoa e enoja. Simbologia do mais fraco sendo currado pelo mais forte. O poder público secular ou religioso, manipulando o povo. Corrupção, descaso, manutenção do povo na ignorância para melhor dele se aproveitar.
Dos intestinos, das vísceras, nasce a igreja, simbolizando também a problemática do homem, da corrupção e falta de escrúpulos dos poderosos.
Perna direita. Na coxa, uma mulher representando a iniciação no mundo adulto e no processo de amadurecimento. No joelho, uma mão com um cérebro nascendo de dentro de um ovo. É apenas através da consciência, simbolizada pelo cérebro, e do nascimento nessa vida, que devemos nos ajoelhar humildemente (joelho: símbolo máximo de poder). Tomar corpo, importância, estar na presença de Deus trazendo mais perto joelhos e coração.
O pé esquerdo traz um túmulo sob um São Pedro já em glória como anjo, segurando a chave, o segredo do renascimento em Cristo, a igreja verdadeira. Os pés equivalem aos do feto no ventre da mãe, eles que nos levam ao nosso destino, o renascimento no amor ao próximo.



