52 por trás - na caixa
grunge never dies
por leandro vignoli
Tempo de tirar flanelas mofadas do roupeiro. Agora, dia 21 de setembro, os vivíssimos do Pearl Jam lançam seu novo álbum de inéditas, Backspacer. Nono da carreira, marca o retorno de Brendan O’Brien como produtor da banda (destacado na Void #048). Dez dias depois, é a vez do Alice In Chains lançar Black Ways Give To Blue, 14 anos após o último deles.
Quem assume o vocal é o da foto ali, o desconhecido William Duvall (embora Jerry Cantrell faça backing em todas). O álbum terá a colorida participação de Elton John numa faixa em homenagem ao suicida Layne Staley. E por falar em suicídio, o Nirvana terá reeditado em novembro, pela Sub Pop, o seu primeiro disco, Bleach, de 1989. Além do álbum, a edição traz um show inédito realizado em Portland, no ano seguinte. Com toda essa onda grunge, é bom rezar pra que o Bush não se anime e resolva sair do limbo também.
as melhores da década
por leandro vignoli
Estamos na rabeira de 2009, último ano da década. E o site Pitchforkmedia, o mais indie entre todos os indies, saiu na frente e elencou as 500 melhores músicas dessa década. Sem delongas, vão aí as dez primeiras: 10) Arcade Fire – Neighborhood #1; 9) Animal Collective – My Girls; 8) Radiohead – Idioteque; 7) Missy Elliot – Get Ur Freak On; 6) Yeah Yeah Yeahs – Maps; 5) Daft Punk – One More Time; 4) Beyoncè (ft. Jay-Z) – Crazy in Love; 3) M.I.A – Paper Planes; 2) LCD Soundsystem – All My Friends; 1) Outkast – B.O.B.
Caso você tenha estado em coma nos últimos dez anos, o site ainda elenca os 50 melhores videoclipes da década, e os 200 álbuns desses anos 00s. Prometo que será a única que menciono por aqui das próximas 7.936 que sairão até o fim do ano. A menos que eu faça uma, claro.
Info: http://pitchfork.com/p2k/
indicado com manteiga de cacau
por leandro vignoli
Os sempre inovadores Flaming Lips estão de volta aos discos em outubro. Embryonic terá entre os convidados Karen O, vocalista dos Yeah Yeah Yeahs, e a duplinha MGMT (espécie de filhotes dos Lips). O álbum tem dezoito faixas e, segundo a banda, é duplo. Porém, se os tempos divulgados de cada música forem oficiais – e nunca dá pra saber quando eles estão realmente falando sério –, o disco cabe num CD simples mesmo (seria duplo só em vinil).
De forma oficial, quatro das faixas já são conhecidas. “Convinced of the Hex,” “The Impulse” e “Silver Trembling Hands”, distribuídas a fãs que compraram ingressos pra turnê da banda, e “See The Leaves”, pelo site oficial. Lembrando que recentemente a canção “Do You Realize” (2002) foi votada pelo congresso de Oklahoma como a música oficial daquele estado. Mais do que justo, mesmo que este seja o Tocantins lá dos EUA.
poeira, levantou poeira
por leandro vignoli
Com um som muito mais brasileiro que a própria MPB, Wado melhora a cada disco as matizes da música nacional moderna, ou o que alguns preferem chamar “nova MPB”. Sua sonoridade é autêntica, com rebuscamento que não resvala no erudito, e letras sem margem para metáforas, os dois principais defeitos do “lenineísmo”. Ele acaba de lançar o quinto disco, Atlântico Negro, para download gratuito no seu site. Conectando África e Brasil, o atlântico negro de Wado aponta pro seu álbum mais regionalista até hoje, com ênfase nos afoxés baianos. Num bate-papo, o sujeito explica mais qual é a sua, numa conexão brasileira mesmo, sem escalas. Confere aí.
Void: No disco anterior você se designava como "brazilian electro funk disco reggaeton afoxé". A proposta segue nessa linha?
Wado: Acho que isso era uma coisa bem-humorada, naquele trabalho tinha isso mesmo de ter todos esses ritmos. O novo fica mais no afoxé, samba e funks. Cada trabalho é um capítulo à parte, sempre tem alguma novidade.
Void: Manifesto da Arte Periférica, Terceiro Mundo Festivo e Atlântico Negro. Porque essa é a temática recorrente nos títulos dos álbuns?
Wado: São assuntos que me interessam, essa abordagem de periferia sempre foi meu foco.
Void: Nessa aproximação África-Brasil, onde termina um e começa o outro?
Wado: O processo fala justamente do caráter rizomático disto, de não considerar uma raiz original, mas a inter-relação de vários focos que emanam informação e se comunicam.
Void: Como uma música do Hot Chip virou referência ao umbanda em “Martelo de Ogum”?
Wado: No caso foi só o conteúdo, o Made in the Dark é o “fomos feitos no escuro”, o resto foi surgindo naturalmente, é uma conexão maluca mesmo.
Void: Atlântico Negro tem certa coesão. Primeiro as músicas regionais, seguem-se as sentimentais (“Hercilio Luz”, “Pavão Macaco” e “Frágil”), e culmina nas eletrônicas. Isso é proposital da tua parte?
Wado: Tentei dividir em blocos mesmo, como você percebeu. Na minha interpretação, a única diferença é que considero o primeiro bloco de afoxés, depois é o que você descreve.
Void: Rádio ainda tem função hoje, com internet e i-pods? Qual seria ela?
Wado: Acho que é o instrumento principal da música ainda. Todo o resto é muito pouco ouvido, essas outras ferramentas ainda têm pouquíssima audiência se considerarmos o tamanho do Brasil.
Void: Sua música “Uma Raiz Uma Flor” tá na novela Caminho das Índias, na versão do Fino Coletivo (de que você já fez parte). Já assistiu a algum capítulo pra escutar?
Wado: Acho a novela bem chata, mas já consegui ver um trecho com a música no YouTube, numa cena com o Vitor Fasano.
Hare baba!
Info: www2.uol.com.br/wado/
1001 discos para ouvir depois de morrer
por leandro vignoli
Quase cinco anos atrás ouvi e escrevi sobre esse álbum, e naquela breve falta de lucidez em que decidi fazer isso, passei a ter pesadelos recorrentes. Lupicínio Rodrigues vinha toda noite puxar meu pé e gritar aquela maldição de “até a pé nós iremos”.
Não bastasse o maior poeta do Rio Grande do Sul ter o azar de nascer gremista, ainda apareceu o vocalista duma banda ruim de pop rock pra fazer um disco chafurdando a sua obra. Muita terapia e tarja preta depois, minha única saída foi não fazer com que esse mal se propague mais. Versões eletrônicas do Lupi cantadas pelo Thedy Corrêa deviam ter uma campanha na TV tão pungente quanto a Crack Nem Pensar (campanha antidrogas da afiliada da Globo no RS). E não é questão de purismo ou saudosismo. Você pode perfeitamente homenagear seus ídolos e/ou mestres. Por exemplo, editando em CD a obra original dum cara como o Lupicínio, que até hoje não existe.
No lugar, preferem lançar um disco de cover com trocadilho infame. E de resultado enthedyante (viu só como é bom, porra!). Não sei quantas vezes ele havia ouvido Lupicínio Rodrigues até gravar esse disco, mas tenho certeza de que bem menos do que ouviu Fito Paez.
Música, bar e mulheres, era disso que Lupi falava: e fica bem difícil imaginar Thedy Corrêa abordando bem qualquer um desses temas. Aliás, as singelas letras que exaltavam o cotidiano e o doce-amargo clichê que é a vida ganhavam impacto justamente pelas interpretações feitas – por ele, e outros belos intérpretes. Loopcinio talvez seja a prova mais veemente disso. Cantadas por esse cidadão, exatamente as mesmas letras soam de uma pieguice atroz, algo que faz você, em vez de compartilhar a desilusão do autor, rir da cara dele.
Na maioria das faixas, Thedy não ressoa sentimento algum, é de uma palidez cadavérica, e usa entonações vocais de quem frequenta cafés cult, não bares. Por assim dizer, ele transformou música popular em pseudoerudição. De novo, o problema não tem a ver com purismo. A questão é que, até por serem versões eletrônicas, as programações são amadoras demais, os arranjos de piano parecem todos socados, e as percussões tão artificiais quanto sexo com travesseiro. A hipotética modernidade da coisa deixou de lado o que há de mais especial nas melodias do negrão: suingado, ginga e alegria (mesmo aquela de cantar tristezas).
Quando isso ocorre em tentativas frustradas, outra lógica sobressai. Thedy cantando samba é tão esdrúxulo quanto... sei lá, crie aqui sua própria analogia. Entre tantas conjecturas, tenho uma única certeza: Lupicínio Rodrigues não teria bebido uma só gota de ceva se soubesse no que isso daria.



