52 por trás - matéria 02
a maldição dos vampiros laser
por pexão / fotos: joão hell's, thaise costenaro e jaqueline chaves

Em geral, os primeiros seguidores dos Damn Laser Vampires, entre os quais me incluo, viram a banda tocar apenas uma vez e já foram pegos pela maldição. Sem saber nada sobre o grupo de antemão, às vezes sem ter gostado de nenhum tipo de música parecida antes, quando viram, misteriosamente, estavam dançando polca cemiterial. Daí pra frente, passam a ir a todos os futuros shows, arrastar os amigos, e podem até vir a integrar a infame Patrulha do Inferno, principal gangue de arruaceiros ligada à banda. O raio laser hipnotizante deles pega em cheio quem leu muitos gibis do Batman, gosta de filmes de horror, de humor negro ou simplesmente aprecia rock desafiante e cru, pingando sangue.
Em busca das origens desse fenômeno obscuro, conversei com Ronaldo Selistre, Francis K e Michel Munhoz, os Malditos Vampiros Laser, de Porto Alegre/Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul. Naquele momento, eles tinham acabado de participar do festival de cinema Fantaspoa (com um show e a arte do cartaz feita pela Francis K), estavam negociando a distribuição nacional do disco Gotham Beggars Syndicate, que saiu na gringa pela Devil’s Ruin Records, e prestes a embarcar em sua quarta tour por São Paulo. Sem dúvida, é um panorama empolgante para três músicos e artistas gráficos acostumados à vida subterrânea.
VOID: Como vocês começaram a tocar? Vi o primeiro show da banda em 2006 e fiquei me perguntando "de onde saíram esses malucos?”, no meio da febre de bandas metidas a mod de Porto Alegre.
Ronaldo: Eu já tinha um trabalho musical com o antigo baterista da banda. A gente gravou um EP de três faixas, a Francis K entrou para a banda no mês seguinte. Esse baterista saiu logo, pra cuidar da vida, e o Michel entrou. A gente já conhecia o trabalho dele com zines, todo mundo conhecia! É um cara meio lendário. Mas a gente só se conheceu pessoalmente em um show no Garagem Hermética, quando ainda estávamos com o antigo baterista. Ele viu o show, a gente conversou. Quando o cara saiu, ele entrou.
VOID: Vocês tiveram outras bandas antes?
Ronaldo: Eu tive uma banda chamada Violins, antes de existir a banda Violins... Tive uma banda chamada Stonehenge... ANTES de existir a banda chamada Stonehenge. Tive uma banda chamada Cramps, antes de existir... Não, não. Foram bandas que eu tive quando era moleque, ou seja, eram horríveis.
Francis K: Eu tocava com uns amigos de Sapucaia (RS), chamava Gizz de Feetal, que é uma expressão que o Lobo, personagem dos quadrinhos, usava.
VOID: Bom, Michel, limita tuas lembranças de bandas porque não temos tanto espaço na revista.
Michel: Cara... Eu carrego essa maldição deliciosa há uns 15 anos mais ou menos, quando comecei a tocar bateria. Aquele esquema da molecada tocando no quartinho dos fundos ou na garagem, baixo, guitarra e vocal ligados na mesma caixa, barulheira. Se não me engano, a partir de 1995 a primeira banda em que toquei com os vizinhos chamava Demência. Depois vieram algumas que não duraram uma semana e a banda em que consegui me estabelecer legal, a Gritos de Alerta, antiga Terror Terror, de 1999 até 2003/2004. Depois a gente não fez mais show e eu fiquei num hiato, meio que até querendo largar a música. Eis que um dia chego em casa, ligo a TV, e dou de cara com as figuras tocando no programa Radar da TVE. Pensei "Que legal, cara, há salvação no mundo! Duas guitarras, bateria, tudo reto, que maravilha!". Eram os Damn Laser Vampires tocando e anunciando um show. Anotei o nome, liguei pra um amigo e falei "tem essa banda, meio psychobilly, vamos no show?". Daí fomos ver no Garagem Hermética e teve todo o impacto de chegar e ver o "Damn Laser Sinal" projetado na parede. Mudou a minha vida, velho. Coisa de três ou quatro meses depois estar tocando na banda foi maravilhoso. O Ronaldo me ligou convidando pra tocar e eu falei "Vamo aí! Sei tocar todas músicas!". O primeiro show comigo na bateria foi no dia 3 de outubro de 2006, no Sarau Elétrico, com lançamento do livro O Vampiro, do Leo Felipe.
VOID: Maldição é uma boa. Uma das poucas atividades que consigo imaginar ser tão ingrata quanto tocar rock em inglês, no Brasil, é fazer histórias em quadrinhos. Vamos às origens dessa desgraça.
Ronaldo: Geralmente o pessoal envolvido com quadrinhos e arte gráfica começa autodidata. Na verdade, quase toda criança desenha, mas algumas nunca param de desenhar. Essas viram os assim chamados artistas gráficos, como nós. A gente acabou tendo a chance de se encontrar, a Francis K, o Michel e eu, não só pelo gosto musical, mas também por desenharmos. A gente tinha gostos musicais que em algum momento iam convergir, que eram em comum. Por outro lado, a gente participou de uma exposição em 1998, chamada Vulgo Quadrinhos, que tinha trabalhos meus, do Michel e da Francis K, e a gente nem se conhecia. Só fomos nos conhecer mesmo, os três, pra valer, em 2006. Essas coisas me fazem pensar que algumas trajetórias, não importa o que tu faça, vão dar em algo, independente do controle que tu acha que tem. O Michel tem uma produção muito extensa de capa de disco, fanzines, cartazes e tal. Quando a gente trabalhava na revista Mercado Negro, na Cidade Baixa, os roteiristas sempre tinham aquele papo: "eu tô com um roteiro pro Michel Munhoz, ele falou que vai desenhar...", daí o outro dizia "mas ele falou que vai desenhar é o MEU roteiro". Era disputado! Ficávamos querendo conhecer esse sujeito.
Francis K: Quando eu conheci o Ronaldo, eu desenhava retratos na rua dos Andradas, no Centro de Porto Alegre, do lado do irmão dele, que é pintor. Conheci o Ronaldo ali, por conta da ilustração. E o Michel foi nessa exposição. Engraçado que a gente passava na rua e via algum cartaz e falava "aquilo ali é do Michel", daí ia olhar e tava ali a assinatura dele.
Michel: De uns 12 anos pra cá eu comecei a trabalhar muito com a cena punk daqui, na parte sonora e também na parte gráfica. A gente experimentava muito com serigrafia, colagem, quadrinhos, etc. Antes disso tudo, os quadrinhos tiveram uma importância decisiva pra mim, super-heróis, Marvel, DC, pra aprimorar o traço, lendo muito e sacando o universo todo do rabisco. Daí tu vai conhecendo coisas novas, vai experimentando nos fanzines e chega em outra dimensão. Levar a experiência pro underground é como ir pro inferno, é maravilhoso. Eu continuo até hoje, sempre experimentando.

VOID: Como se pagam as contas com essas habilidades?
Ronaldo: Não adianta, cara. O senso comum diz que o ilustrador não trabalha, desenha. É a mesma impressão que o músico passa, "ele não trabalha, toca". É uma coisa a que a gente já se acostumou, mas não era pra ter se acostumado! As pessoas não têm essa dimensão do ofício de ilustrador, têm muito essa ideia de que é recreio. Tudo bem, quem desenha sabe que é uma delícia, tu te sente grato por poder desenhar. Mas é muito mais legal tu poder desenhar o que quiser, certo? Mas, quando tu tem que desenhar pra pagar as contas, raramente vai fazer o que quer. Tem que ter a disposição de operário, de veículo para os objetivos de alguém que, muitas vezes, não tem a menor noção do que é transformar uma ideia em imagem. Rola muito de ter que refazer um trampo milhares de vezes e a pessoa achar que tu fez aquilo brincando.
Michel: Isso me lembra até o colégio, uma época obscuríssima. Tu desenhava, tinha a aula de Artes. Vinha aquela galera que não sabia desenhar e falava "desenha pra mim que eu te pago uma torrada!". Já começava ali o trabalho de ilustrador, na quarta série. Na época em que eu comecei a pegar um traço legal tavam em ascensão as revistas de surf e de skate, então a galera assimilava muito rapidamente as logomarcas e o ilustrador ia no embalo. "Faz o Pychulyn!". Velho, tem tudo a ver com o que tu enfrenta no futuro, as cobranças, "tem que ser dessa maneira ou nada feito". É o nosso calvário. Mas é legal.
Francis K: Pra mim, desenhar na rua foi uma mudança bem radical, eu era extremamente tímida, praticamente não falava com as pessoas. E estando exposta na rua fui obrigada a conviver com todo tipo de pessoa. Depois, quando fui trabalhar em uma agência de publicidade, tive que me adaptar a outros tipos de desenho.
Ronaldo: A banda é, de longe, nosso projeto mais bem-sucedido. Até porque a gente não precisou deixar de desenhar por causa dela, muito pelo contrário. As referências que sempre nos influenciaram no desenho, a gente usa como influência musical também. É o melhor aproveitamento possível do nosso background, de coisas que trazemos desde a infância e que já atrapalharam bastante. Eu já larguei emprego por causa desse maldito gosto por rock. Uma coisa é o que tu desempenha em função da sobrevivência, e outra é o que corre por dentro. Ter a sorte de misturar esses dois lados nos ajuda a seguir em frente, nos impele, nos energiza e nos mantém sempre honestos com o que fazemos.
VOID: Falando em HQ, faz anos que o Ronaldo está parindo um monstro, lentamente.
Ronaldo: Tá chutando aqui. Ai. Na verdade eu interrompi uma história chamada “Guitar City Underground” faz alguns anos. Olha que sem noção: ela foi planejada pra ter oito capítulos de 30 páginas cada. Beleza, escrevi o roteiro todo e eu e um parceiro, o Flavio Barbosa, grande desenhista, encaramos essa juntos. Um desenhava um capítulo enquanto o outro desenhava o próximo. Isso foi ficando muito difícil de levar. O cara teve que cuidar do emprego dele e eu também tive que largar, porque aquilo demandava tempo integral. Então eu registrei na Biblioteca Nacional e, no início dos anos 2000, inscrevi em um projeto de lei de incentivo à cultura. Foi até a última instância, mas foi recusado no fim. Daí engavetei. Tá com um pouco mais de 180 páginas. Vou acabar terminando ela, mas não sei quando.
Michel: Eu te ajudo, cara.
Ronaldo: Aeee! Beleza! Acabei de fechar com o Michel Munhoz! Finalmente ele vai desenhar um roteiro meu.
VOID: Na música de vocês é evidente a relação com um determinado tipo de histórias em quadrinhos. Como é isso de levar narrativas pras letras das músicas e uma estética para o visual da banda?
Francis K: Sobre uma das primeiras referências de quadrinhos na banda, a gente já tinha aquele logo, das exclamações com as asas. Então lembrei do sinal de luz do Batman e fizemos nossa versão. Daí a gente projetou no nosso segundo show, o primeiro que o Michel foi.
Ronaldo: Como letrista, é automático pra mim. Eu falo da bagagem que eu tenho, no caso muita história em quadrinhos. Cinema também é uma influência natural, mas quadrinhos é realmente o nosso norte na hora de pensar esteticamente a coisa. No nosso primeiro disco tem essa música chamada “Saint of Killers”, que é uma referência clara ao "Santo dos Assassinos", personagem da série Preacher. Outro tema recorrente é religião, daí voltamos ao Preacher. O nosso som é muito visual, e quadrinhos é uma mídia tridimensional, é um veículo de literatura, imagem e som, tu ouve música ali.
Michel: Todas as coisas que eu gosto de ler nos quadrinhos e ver no cinema estavam condensadas na banda quando vi o show pela primeira vez. Terror, cinema absurdo, estava tudo ali.
VOID: Boa parte da trajetória de cada um de vocês deve ter sido bem LOSER, no sentido de não estar em sintonia com o resto do mundo. Agora, várias das influências de vocês, como bandas, artistas e toda uma maneira de fazer as coisas, estão sendo reconhecidas e ganhando destaque mundialmente. Nesse contexto, o futuro parece bom para os Damn Laser Vampires?
Ronaldo: Cara, eu costumo dizer que, de alguma maneira, a gente é muito budista como banda. Não temos um objetivo maior, mítico, pro futuro. Talvez, profissionalmente, seja um defeito, mas isso nos poupa muita ansiedade. Na verdade, fazemos o que gostaríamos que alguém fizesse se nós não estivéssemos fazendo. Começamos muito no contra. O fato de a gente se sentir no lucro, desde o início, já é o suficiente. Se ficarmos milionários, beleza. Se não, beleza também. A gente não vai deixar de ser o que é.
VOID: Realmente, desde quando vocês tocavam para meia dúzia de pessoas a energia já era a mesma. Mas o público sempre foi crescendo e se diversificando, sem ser abraçado por apenas uma galera. Tem skatistas, punks, grunges, entusiastas do cinema de horror, etc. De cima do palco, qual é a visão dessa formação do público?
Ronaldo: Pra começar, não dá pra deixar de citar a Patrulha do Inferno, o pessoal de Cachoeirinha (RS) e arredores. Eles começaram a atrair atenção porque realmente seguiam a banda muito fielmente, cantando as letras. Era bizarro pra gente, por não achar que a banda ia dar certo nesse sentido. Esse pessoal certamente é responsável pelo aumento do nosso público. As pessoas acabam prestando atenção na empolgação deles e querem entender o motivo. Conhecemos pessoalmente grande parte de quem vai bastante nos shows e sabemos que, realmente, eles têm gostos muito conflitantes entre si, mas gostam igualmente da gente. Isso é demais.
Michel: Desde o primeiro show que eu fui, quando não estava no palco ainda, a energia da banda rebatia no público, era incrível. Eu fazia parte da Patrulha do Inferno, quando eram só umas quatro pessoas. No outro show já entraram mais dez. Na real funcionou mostrando o som, tipo, "escuta isso aqui". A internet ajudou, mas foi muito de um mostrar o som pro outro e combinar "vamos no próximo show, vamos ficar bêbados e quebrar tudo". Depois eu fui pro palco e continuei vendo o poder da música, que faz tirar o pé do chão. E faz cair de cabeça no chão. As pessoas se assustam, mas é uma violência legal, é uma catarse.
Ronaldo: Sobre isso de algumas pessoas se assustarem, o rock é a música dos instintos. Quando tu intelectualiza muito, ele não vai chegar nos teus instintos em estado puro. Se o rock for feito instintivamente, ele vai ser recebido instintivamente. As pessoas têm instintos que precisam ser alimentados, então, esse comportamento do público nos shows é natural.
VOID: É possível descrever os personagens que compõem a banda? Quando vocês tocam, parecem realmente encarnar personagens.
Michel: Eu sou o mordomo careca. Psicótico, que abre a porta e convida para entrar em um universo fantástico.
Francis K: (risos) Eu não sei. Não sei se me vejo como personagem. Talvez uma mulher-morcego glam.
Ronaldo: A Francis pode ser uma mulher misteriosa, cara. Ela era realmente muito tímida antes de começarmos a tocar. Não é raro, no meio do show, eu olhar pra ela e pensar "quem é essa pessoa que tá ali?". A banda tem muito desse lado teatral, mas sempre tem alguma coisa pessoal preservada. Se for pra ver como personagens que se manifestam em mim, alterno entre estados de espírito eufóricos, festeiros, e outros estágios mais sombrios. Putz, “personagens que se manifestam” parece coisa de encarnação de espírito. Sobre o personagem mais demoníaco de algumas músicas, ele vem bastante da minha infância, de frequentar a igreja evangélica com minha mãe. Isso acaba tendo uma influência forte. Toda essa ideia de entidade demoníaca é muito presente na Bíblia, que é um livro que eu estou sempre voltando a ler.
Michel: Nosso amigo Julinho, no primeiro mês da banda, falou "meu, vocês parecem que saíram de um museu de cera do terror!". Maravilha.




