51 de lado - matéria 02
nordestão uivante
por felipe de souza / fotos: mauricio capellari
Pode-se dizer que, na arquitetura do universo o Brasil foi premiado com uma costa ímpar e gigantesca. Do Cabo Orange ao Chuí são exatos 7.048 quilômetros de frente para o mar. Essa geografia é salpicada por mangues, morros, recifes e canais. Mas essa diversidade pára em Santa Catarina. Atravessando o Rio Mampituba e entrando no Rio Grande do Sul, o litoral transforma-se em uma grande reta de areia. O vento é forte, o mar é mexido e a correnteza é violenta.

As condições são adversas o ano inteiro, mas no inverno tudo fica bem pior. Em um mês onde os termômetros visitaram com freqüência a casa dos 5ºC fomos dar um rolê por praias ermas e de paisagem desoladora. A ideia? Conhecer surfistas locais que, depois que a temporada termina e os veranistas lacram suas casas com tapumes, continuam lá, pegando onda e tentando ter uma vida normal em locais que beiram o fantasmagórico.
A praia dos cabos
Tendo Porto Alegre como ponto de partida, a primeira praia que se encontra depois de 107 Km pela RS-040 é o Balneário Pinhal. Pela proximidade com a capital, talvez seja um dos picos mais emblemáticos do litoral. Todo mundo acaba tendo uma história de lá. Não há quem não tenha passado um veraneio em um quarto na casa da tia, andando de bicicleta sobre as poças d’água de cada esquina e tomando chá mate gelado.

É lá em Pinhal que o surfista Ricardo Bugio mora desde sempre. Residente da rua 35, divide a casa com os pais aposentados e pega onda todo santo dia. Aos 29 anos, tira o sustento fazendo bicos de marcenaria, além de consertar e fabricar pranchas sob encomenda. “No inverno é complicado, o trabalho diminui muito”. O trampo de consertar pranchas, óbvio, também sofre um duro golpe durante os meses de frio. “Conserto umas cinco por mês nessa época”, contabiliza Bugio.

Além de ter que se virar pra engordar o orçamento, quem surfa e vive em Pinhal tem que aprender a conviver dentro d’água com uma nefasta companhia: os cabos de rede de pesca. Dos oito quilômetros que Pinhal tem de praia, apenas 1.200 metros são destinados ao surf. De um lado e de outro estão lá as armadilhas que podem levar pro buraco os mais desavisados. “A maioria dessas redes são de três malhas, proibidas pelo Ibama”, alerta Fernando Paraguassu, presidente da associação dos surfistas do balneário.
Alheio à queda de braço com os pescadores, Bugio segue sua rotina. Mesmo quando há trabalho, ao meio-dia ele corre pro mar antes de voltar a labuta.“Dá tempo de pegar umas duas ou três ondas, sair e ir fazer meus serviços”.
Sentinela das ondas
Ao lado de Pinhal, a uma distância que, com um pouco de disposição e tempo pode ser percorrida caminhando, está Cidreira. A cidade ganhou fama nacional quando, nos anos 90, o então prefeito Elói Sessim foi cassado por contratar mais de 40 funcionários sem concurso público, tudo na caneta!
Foi também na gestão dele que foi erguido o Estádio Municipal, com capacidade para 13 mil pessoas e que hoje vive às moscas, sendo guardado por um sexagenário zelador. “Ele (Sessim) precisa voltar. Na época dele não faltava serviço pra ninguém. Dizem que roubou, mas qual deles não rouba?”, nos questionava o senhor.

Trambiques à parte, Cidreira é a praia mais antiga do Rio Grande do Sul e cerca de 14 mil pessoas residem por lá. Uma delas é Eduardo Freitas, 27 anos, que mora de frente para o mar com a namorada, um bugue vermelho e os labradores Jaws e Brown. A garagem da casa virou loja da sua marca, a OVL (Objeto Voador do Litoral), o quintal foi transformado num bowl onde, a R$2,00, a molecada local pode andar de carrinho à vontade.
Além de empresário, ele também repassa as condições do mar para quatro sites de surf. “Cidreira podia ter uma plataforma exclusiva para o surf, com lojas e bares, mas falta vontade do pessoal”, lamenta Freitas, que há cinco anos também começou a fazer seus shapes e já aprendeu a mexer com o software DSD (*).

Banho? Naquele sábado gris, nem pensar. Além do frio e vento tétricos, o mar estava mexido pra valer.

O obreiro de Rainha do Mar
Lutando bravamente com o vento contra e 130 Km longe de nosso ponto de partida, chegamos à Rainha do Mar, balneário do município de Xangri-lá. Em toda sua história, o que mais dá fama ao lugar é ele ser o escolhido para os veraneios de um tal senador Pedro Simon que, dizem, em janeiro larga tudo em Brasília e tira férias lá. Ainda no completo anonimato, Christian Mattos tem 15 anos e é local do pico. De longas madeixas loiras, nasceu na cidade de Campo Bom e chegou só para veranear.
O que ele não esperava era que a mãe iria se apaixonar pelo dono de um restaurante do lugar. Resultado: mudança para o inóspito litoral.
Surfa a semana inteira, cursa o 1º ano do segundo-grau em uma escola pública da cidade e aos sábados e domingos corre pra igreja Bola de Neve, encontrar os amigos e orar. “Já fumei maconha, mas quando minha vó morreu eu entrei pra igreja. Jesus mora aqui ó”, dizia o garoto, apontando pro peito.

Dentro d’água, aéreos, rasgadas e uma pontinha de localismo. “Se rabear, vai tomar uns tapas. Vem na boa, não fica tirando onda nem remando com a cabecinha empinada”. Mattos luta por patrocínio, corre o campeonato gaúcho e ocupa o 4º lugar no ranking mirim.
Eu sou a lenda
Andando de um lado a outro do litoral, buscando os resistentes personagens do surf sem temporada, tropeçamos num lugarejo chamado Albatroz. De longe o mais solitário e triste pico em que estivemos. Quem nos recebeu por lá foi Saymonn Brusch, que nasceu na cidade de Osório e mora no lúgubre balneário desde a tenra idade. A casa ele divide com a mãe e o padrasto. Já o mar, nessa época do ano, é só dele.

“Cara, eu amo isso aqui, não troco por nada”, jura o rapaz, que tem aulas na cidade de Imbé, onde também achou a namorada, com quem divide a vida dura litorânea há três anos.

Apesar de ser fiel ao local onde cresceu, confessa que nos finais de semana o destino é a praia vizinha. “Vou pra Tramandaí porque lá eu consigo desenvolver mais o surf”. Saymonn também disputa o gaúcho e procura patrocinadores. Enquanto a grana do apoio não chega, se vira como pode para viajar para as etapas do campeonato estadual e dá um jeito de vedar por conta própria o long surrado. “Uma vez eu tava na platafoma de Tramandaí e entrou água na roupa. Meu, quase congelei”, recorda.

A exemplo do colega Christian, de Rainha do Mar, Saymonn também parece se encaminhar para uma vida de oração. “Eu e minha mãe gostamos muito de assistir ao pastor RR Soares na televisão. Quando ficar mais velho, quero ter uma religião, sim!” Fora d'água, além do estudo e do namoro firme, trampa na filial da companhia elétrica que fica em um município vizinho, além de reforçar os tapumes das casas dos vizinhos que só dão as caras no verão. “Tem muito arrombamento por aqui”.

Nos despedimos de Saymonn e só depois notamos que a única casa em que não vimos trancas e tapumes era a dele. Era como estar deixando o set de filmagem de Eu Sou a Lenda.
*Software usado na fabricação de pranchas. Nele, são definidas as dimensões do shape. Depois, uma máquina de corte obedece as instruções que o shaper colocou no computador.



