50 léguas daqui - matéria 02
hardrock rollercoaster
por felipe de souza / fotos: mauricio capellari
Mulheres peitudas, limusines brancas, botas de bico fino e calças fuseau (em homens), laquê no cabelo e maquiagem pesada (também em homens), Jack Daniels, cocaína e grana. Todos os elementos que montam um videoclipe de hard rock típico e folclórico fizeram parte da vida de Gilberto Barea, 39 anos, baterista da Rosa Tattooada.
A banda, criada no fim dos anos 80, foi alavancada à fama depois da gravação do primeiro disco independente, que vendeu mais de 30 mil cópias só no Rio Grande do Sul, gerou tours que ultrapassavam fácil a marca de 100 shows por ano, isso só nos estados da ponta de baixo do Brasil, além de uma legendária sessão de autógrafos em um shopping da capital gaúcha, onde centenas de adolescentes entraram em frenesi. Resultado: dinheiro, mulher e farinha.

Pra vitaminar um pouco mais a sacanagem, a banda foi contratada por uma gravadora major, o que elevou ao cubo o estilo de vida rocker do sujeito. Porém, não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe, e Barea caiu das nuvens pouco tempo depois. De adolescente convidado a abrir a tour do Guns n’ Roses para logo depois ser chutado da gravadora para dar lugar a Daniela Mercury, o baterista contou tudo pra gente, abrindo a caixa preta do hard rock. Se sua cabeça já estiver doendo agora, toma um analgésico que a ressaca aqui é bruta.
Void: Como foi o início da Rosa Tattooada?
Barea: Eu era roadie dos Cascavelletes, e um dia o Flávio Basso (1), que era o vocalista, falou para eu e o Jaques, que era o outro roadie, montarmos uma banda para fazer um show de abertura deles. Era uma época em que a gente freqüentava o Ocidente.
Void: Vocês eram todos moleques na época...
Barea: Sim, e a gente começou a ganhar grana muito rápido. Eu era roadie dos Cascavelletes e corria com os caras pra todo lado, operava um pouco, fazia luz... Fazia mais de cem shows por ano fácil, fácil. Tinha muita droga, muita cocaína. Muita grana, muita loucura... A gente tinha muito pouco compromisso. Porra, eu comia gente a rodo. O grande barato no lance do hard rock e no rock anos 80 de modo geral era que todo mundo tinha uma atitude muito extrema e ninguém era roqueiro de fim de semana, ninguém era mais ou menos. Todo mundo era drogado o tempo todo, de terça-feira a domingo.
Void: Era o sonho de todo moleque...
Barea: Imagina, pra gente que era um bando de maconheiro, de repente começar a ir pra São Paulo, que tinha um circuito underground muito louco. O rock de lá era diferente, era tecnicamente mais raso e tinha outra retórica. Bandas como Ratos de Porão, Inocentes, Não Religião... Era uma coisa meio Dead Kennedys...
Void: Foi nessa época que o Rosa Tattooada começou a explodir também...
Barea: Isso! E a gente sempre teve influência direta do hard rock californiano.
Void: Antes de ir pra São Paulo vocês fizeram um disco independente no Rio Grande do Sul, não?
Barea: Sim, gravamos esse disco e vendeu 30 mil copias muito rápido, era outra época. Gravamos em 1988 e o lançamento foi em 1989. E uma coisa legal é que, quando a Rosa Tattooada foi criada, eu nem sei se o Guns n' Roses já existia, pois a gente não teve eles como influência. O som das duas bandas era muito parecido pelo fato de a gente ter ouvido as mesmas coisas, tipo Mötley Crüe, Kiss, AC/DC. Eram os sons que traziam muita adrenalina, muita euforia, de induzir a fazer o que era o maior prazer... Sair, se embebedar, comer alguém... Porra, fizemos orgias absurdas pelo estado inteiro, em São Paulo também. Não tinha risco, naquela época era muito tranqüilo. Sexo era algo muito fácil, pra qualquer artista que está no palco é algo muito acessível. Naquela época, então, muito mais.
Void: Como foi depois de gravar o primeiro disco?
Barea: Assinamos com a Sony e o trabalho vendeu pra caralho. Que eu me lembre, lançamos o disco independente em 1989, assinamos com a Sony em 1990. Eles nos levaram para gravar no estúdio Nas Nuvens e o trabalho saiu em 1991. Se não é isso, é perto disso, não consegui registrar muito as datas em que as coisas aconteceram (risos).
Void: Vocês já chegaram como a menina dos olhos da gravadora?
Barea: Sim, chegamos como a grande promessa. Até porque o grande lance de vendas que estava rolando naquela época era o rock, o Guns n’ Roses... O Aerosmith teve um reborn fodido também. O que a gente conseguiu no Rio Grande do Sul não foi brincadeira. Fizemos uma sessão de autógrafos no Shopping Praia de Belas pra muita gente, talvez perto de mil pessoas.

Void: Foi nessa época que veio o convite pra abrir a tour do Guns no Brasil?
Barea: Isso, durante a gravação do disco, em 1991. O Guns tinha como exigência que tivesse sempre uma banda local abrindo os shows. Eles requisitaram, através da produtora da época, um material de cinco bandas que tocassem mais ou menos no mesmo estilo deles. Foram listados nós, o Viper, Yankee, e outras que não lembro.
Void: Mas o Viper era metal...
Barea: Sim, com uma temática musical totalmente diferente da nossa. Nos éramos muito californianos. Essas bandas que muita gente acha muito bagaceira, e que realmente são, têm um talento absurdo pra fazer essa dinâmica nos sons, pra música ter um crescendo constante. AC/DC que gerou isso. Os posers daquela época eram todos assim. Quiet Riot, L.A. Guns... Esses caras eram todos muito bregas, por serem toscos, essa coisa de rímel nos olhos, batom... Essa galera da Califórnia, por mais que tivesse postura glitter de cabelos com laquê e calça fuseau cor de rosa, comia todo mundo. Nenhum deles era viado. O rock tinha o fundamento da diversão absoluta.
Void: Parece um lance meio ingênuo, de festa sem fim.
Barea: Sai, toma tua cerveja, pega umas minas, se diverte e só cuida pra não bater o carro na volta, porque provavelmente amanhã você vai fazer tudo de novo. Era como a gente vivia, e o mais legal era que no outro dia eu não precisava pegar uma mochila e ir pro colégio.
Void: E como era esse disco que vocês gravaram no Rio? Tinha nome, era só de inéditas...?
Barea: Não tinha nome, tinha umas músicas do disco independente e mais algumas inéditas. A música “O Inferno Vai Ter que Esperar” acabou sendo regravada. Essa música foi recorde de execução na Rádio Atlântida FM. Ficou durante um ano e cinco meses entre as mais pedidas.
Void: Puta que pariu, lembro que eu tinha uns 12 anos e isso tocava sem parar mesmo.
Barea: Sim! Aí o pessoal do Guns escutou nosso som e a produtora nos chamou. Num primeiro momento dissemos não. O convite rolou dentro do estúdio, numa noite regada a uísque e cocaína. Teve até um executivo da gravadora que saiu de quatro de dentro da sala, literalmente rastejando de tão bêbado. O cara enlouqueceu a ponto de não conseguir mais caminhar. A gente se ligou que não ia ter condições técnicas de fazer. Aí o cara nos deu uma folha de papel e mandou escrever tudo o que precisaríamos pra subir no palco.
Void: O dinheiro que as gravadoras tinham naquela época permitia que os caras fizessem de tudo, não?
Barea: Naquela época tinha os esquemas de gravadora. Os volumes de venda eram tão grandes que você chegava num hotel e tinha os acertos. Todo mundo sabia que as bandas não podiam marcar bebida alcoólica no consumo, então tinha uma mutreta de beber pra caralho e marcar como comida. Uma vez fizemos uma janta num hotel de são Paulo e cada garrafa de ceva era marcada como três sucos de laranja. Quando o cara do departamento financeiro da gravadora viu a nota, veio me falar rindo: “Cara, vocês são nossa banda mais saudável. Tem uma nota fiscal de vocês aqui comigo em que constam três filés a parmegiana e 75 sucos de laranja” (risos). Essas coisas já estavam definidas no orçamento.

Void: Setenta e cinco sucos de laranja podem fazer tão mal quanto farinha, imagina a gastrite. E então veio o lance da abertura do show do Guns n’ Roses.
Barea: Foram duas noites, uma no Anhembi, em São Paulo, e outra em Jacarepaguá, no Rio. Os caras foram muito receptivos, a produtora foi de um profissionalismo absurdo, até porque Axel Rose na época era Deus na Terra. Então a gente teve uma receptividade fodida, nos prepararam um palco legal. Imagina, você tem uns vinte e poucos anos e na tua frente tem 60 mil pessoas. É um impacto muito foda.
Void: E não amarelaram?
Barea: Não! A gente já tava num momento bom, tocando para grandes públicos. Subimos no palco muito a fim, sem receio algum.
Void: Foi a época do auge, em que a banda estava com tudo em cima?
Barea: Altos hotéis, altas festas, entrevista pra revista Capricho, baladinha, ganhando beijinho da Rosana e da Xuxa...
Void: Caralho! Da Rosana?
Barea: Sim! Ela é muito esquisita, a cara dela parece um totem da Ilha de Páscoa, é uma cara quadrada. No mais, tomávamos Ballantine’s na piscina do hotel, a duas quadras do mar, ganhando equipamento a rodo. O pessoal da gravadora chegava com umas guitarras pra gente dar uma olhada, várias vezes vi os caras da banda despachando as guitarras, dizendo que não tinha nada bom ali (risos). Pra abrir a tour do Guns pedimos o mundo. Doze caixas Marshall, etc. Depois começou a chegar guitarra e o escambau pra gente escolher. Rolava uma papagaiada gigantesca, uma mídia foda. Em dois dias nos ligaram avisando do embarque para São Paulo. Iríamos conhecer os caras do Guns, dar entrevistas e fazer os dois primeiros shows.
Void: E vocês ficaram no mesmo hotel da turma do Axl? Tiveram contato direto com os caras?
Barea: Eles ficaram no Maksoud Plaza e nós num flat ao lado. Naquela época fecharam o bairro inteiro pros caras, causaram um transtorno... Não tivemos tanto contato com eles, mas com a produção do negócio todo. Eram umas 200 pessoas. Tinha um centro de imprensa gigantesco. Na época não tinha internet, só fax. Então era aquela porrada de aparelho de fax, aparelho de telefone, barraca de merchandising, heliporto... Enfim, a porra toda.
Void: Você chegou a ter acesso ao camarim deles?
Barea: Meu, tu não acredita. Dentro do camarim dos caras tinha uma fonte d’água, com peixinho saindo água pela boca. Tudo isso parecia folclórico, mas tu chegava lá e tinha uma sala fechada com parede pré-moldada, um pôster do Jimi Hendrix na parede e uma mesa de vidro que nego ligava na tomada, esquentava e metia o pó pra cheirar em cima. Na época o Axl tava casado com a Stephanie Seymour, modelo que aparecia no clipe de “November Rain”. Ela circulava perto da gente, com um vidro de pó numa mão e uma palheta na outra, cheirando que nem uma doida.

Void: A essa altura do campeonato vocês já tinham conhecido os caras...
Barea: Sim, os conhecemos uns dois dias antes disso. Ficamos tomando umas caipirinhas no bar do hotel. Eles tavam vindo da Colômbia e tinham muito pó. Inclusive deu uma merda grande porque a mulher de um deles deixou um vidrinho de cocaína no bolso de uma calça e botou pra lavar. Ai já sabe né, a camareira pegou e deu rolo, fez um barraco.
Void: E como foi a primeira noite? Correu tudo bem ou deu algum rolo nas apresentações?
Barea: Foi foda, Anhembi lotado, umas 70 mil pessoas. E deu rolo, sim! Em um dos shows uma mina jogou uma jaqueta de couro no Axl e ele parou tudo bem no meio de “Paradise City”, mandou tirarem a mina do show, o público jogou pedra no palco... Na outra noite também. Eles terminaram a tour meio queimados com a galera daqui. Mas nesse dia, lá pelas 16h, nos chamaram porque os caras queriam nos conhecer. Era o Gilby Clark, pedindo pra ver nossas guitarras, tocou um pouco, bateu um papo e caiu fora. Durante a tour, em todas as noites, a produção deles mandava uma garrafa de uísque e duas caixas de Heineken.
Void: E pessoalmente, o Axl era temperamental e xaropão?
Barea: Não, na verdade ele era um baita marqueteiro. Ele era muito comum. Atrás dos tapumes ficava tranqüilo, de capuz na cabeça. Mas quando via que chegava alguém da imprensa ou qualquer movimentação diferente ao redor, a fisionomia já mudava, ele fazia um teatro. Era o que esperavam dele e ele fazia muito bem.
Void: Vocês chegaram a sair na noite com os caras do Guns?
Barea: Não. Eles eram muito cercados por todo lado. Quando estavam no backstage, ficavam de boa, batendo papo. Na noite seguinte, São Paulo, a previsão era de chuva e os caras deviam ter se estourado depois do primeiro show. O Axl tava muito mal-humorado, ficou puto porque o patrocinador do show colocou um helicóptero com a marca. Foi nessa noite que rolou um lance surreal. No meio de um solo de guitarra, o Axl saiu do palco e foi lá pra trás, onde a gente ficava vendo o show com as esposas deles. Ele chegou na frente da Stephanie Seymour, com aquela bermudinha de lycra, tirou a pica pra fora e a mina bateu uma punheta pro cara ali, na frente de todo mundo! Na frente dos técnicos, das mulheres dos outros caras... Naquela noite ela cheirou todas. Daí os caras compraram essa briga com o helicóptero do patrocinador, o Axl saiu do palco e um tradutor foi falar com a galera. Um lance ridículo, que hoje em dia seria impensável. Aí olha a cagada que o cara faz: foi e pediu pro tradutor dizer que, graças à imprensa, São Paulo tinha se tornado um dos lugares mais desagradáveis de se estar. Bem, depois disso a galera tocou tudo em cima do palco. A sorte foi que eles tinham tudo duplo, desde o palco até os instrumentos.
Void: E sobrou pra vocês também?
Barea: Jogaram pedras no nosso camarim, foi foda. Mas saímos dali com nossos dois Opalas Comodoro marrom e um pacote de cocaína. Fomos pra outra festa gigantesca. Em São Paulo tinha uma rua que numa esquina tinha um bar chamado Nova York e na outra esquina tinha o bar São Paulo. Aí a rua fechava e ficava só a galera do hard rock, só os cabeludos, um monte de carro estacionado. Tinha uma mina ninfomaníaca que eu e o guitarrista passávamos a noite inteira fodendo, de tudo quanto é jeito e quantas vezes quisesse. Era doido, coisa absurda. Nessa noite comi duas minas no quarto do hotel, fiquei até de manhã com elas e só saí do quarto pra pegar o avião e ir tocar no Rio.

Void: E no Rio as coisas aconteceram nesse ritmo de demência também?
Barea: No Rio não. Os caras estavam cansados pra caralho e nós também, porque sabíamos que seria nossa última noite naquele conto de fadas e já tava todo mundo acabado de festa e de droga. O pessoal da técnica deles usava camisetas com uma fita tape grudada onde eles escreveram Send Me To L.A. Mas o show foi foda! Um pouco antes de entrar no palco, uma amiga minha foi me ver no camarim. A mina me levou pro banheiro com um pacote de cocaína e uma garrafa de Jack Daniels. Porra, aquilo foi uma viagem expressa pro inferno. Em questão de segundos eu já era outro cara. Tocamos muito bem. Tanto que, meses depois, fomos dar uma entrevista para uma rádio do Rio e o locutor falou ao vivo que nossa apresentação tinha sido mais competente do que a do Guns n’ Roses. Ouvir isso ao vivo é muito louco, até pensei comigo mesmo: “Se isso é verdade eu tô ganhando pouco” (risos).
Void: E a ressaca dessa parada toda já começou logo após o show do Rio? Quanto tempo passou desde o auge ao lado do Guns n’ Roses e a rescisão de contrato com a Sony?
Barea: Porra, meses! Talvez um ano. Aí a gente começou a se afundar. Numa gravadora da dimensão da Sony, nego não quer saber nem teu nome. Eles querem saber é quanto de faturamento você pode gerar. E a verdade é que lá dentro o cara tem que ter um padrinho para batalhar pelos seus interesses. Como nosso padrinho foi convidado a trabalhar no exterior, o cara que ficou no lugar dele chegou já com os artistas que ele tinha descoberto, que eram Daniela Mercury, Skank e Gabriel O Pensador. Fomos deletados. Tínhamos inclusive uma música nossa, “Virando Dias e Noites”, que ia virar trilha de novela, mas aí, com essa mudança, já não rolou mais nada.
Void: Mas vocês foram totalmente inconseqüentes ou chegaram a guardar uma grana?
Barea: Na real a gente conseguiu manter um dinheiro guardado porque pagávamos pouca coisa do próprio bolso. Depois de ser chutado da Sony, onde a regalia rolava solta, a gente foi para a Paradoxx, onde a mordomia diminuiu bastante, mas mesmo assim ainda rolava.
Void: E foi nesse clima que o disco que vocês gravaram com a Sony foi lançado?
Barea: Cara, na manhã do dia do show de lançamento, que rolou no Circo Voador, a porteira veio nos entregar uma correspondência. Dentro do envelope estava o termo de rescisão do contrato.
Void: Porra, será que eles não poderiam ter escolhido outro momento?
Barea: Eu acho que foi proposital, uma atitude simbólica deles, de acabar com o mal com um golpe só. E um termo de rescisão você tem que assinar, não tem choro, foda-se. E a gente ficou sem gerar grana, sem tocar. E fazendo balada toda noite. Nessa época eu comia uma mina que era tequileira de um bar, a mulher até posou pra revista Vip, era linda. Esse pico que ela trabalhava era doido, o banheiro do lugar era coletivo, homem e mulher junto, e tinha um barman fazendo drink pra galera. Eu comi metade da mulherada que freqüentava. A outra metade que eu não comi eram as pessoas que cheiravam junto comigo.

Void: Vocês se foderam no Rio e não queriam voltar pro Rio Grande do Sul?
Barea: Não, não queríamos. Até porque nos queimamos aqui no mercado, as pessoas viam que a gente tinha abandonado a cena local. Decidimos ir para São Paulo, onde rolou muita merda. Descolamos um apartamento com duas minas, uma era garota de programa do estilo dominadora. Muito louca, enfiava cocaína pelo cu.
Void: A mina cheirava farinha pelo cu?
Barea: Sim, o cu é mucosa igual ao nariz e a garganta, dá o mesmo efeito. Fomos pra esse apartamento e o dono era traficante, o cara gostou da gente e nos dava cocaína toda vez que a gente ia lá pagar o aluguel. Ele tinha telentrega de coca, era um cara da madrugada, um sujeito muito estranho. Era uma energia, não uma pessoa (risos).
Void: Nessa época vocês devem ter conhecido vários desses personagens da madrugada, uns caras vampirescos...
Barea: Vários. Tinha muita briga, coisa de quebrar um bar inteiro. Eu pegava pó atrás do aeroporto de Congonhas. O fornecimento era rápido e prático. A cocaína vinha dentro de uma embalagem ziploc, um lance muito industrial e muito mais barato. Com dois saquinhos de R$10 eu ficava cheirando dois dias.
Void: E você nunca teve problema de saúde sério por conta disso?
Barea: Tive cálculos renais. Imagina, era muita cocaína e muita bebida destilada e quase nenhuma comida. Eu não bebia água, era só ceva e gin.
Void: A diferença de estrutura da Sony para a Paradoxx era muito gritante?
Barea: Porra, muito! Os dois Opalas Comodoro que nos transportavam na Sony, e era um Fiat 147 da namorada do funcionário na Paradoxx. Decadência. O legal é que lá eles nos descolaram uns programas legais, como Jô Soares e Serginho Groisman. Mas a gente tava naquela merda toda, grana começando a acabar, meu nariz e meu rim destruídos e sem muita perspectiva. Num estalar de dedos o hard rock se tornou a coisa mais brega do mundo.

Void: Sim, até na época teve um Hollywood Rock que veio o Nirvana, o L7 e outras bandas grunge que estavam estourando. Já era uma pilha totalmente diferente.
Barea: Pois é, eu lembro também. Mas pra nós aquela onda foi uma merda, o hard rock com aquela nossa roupagem virou uma coisa muito brega. Os jovens da primeira geração que a MTV criou no Brasil já estavam em outra. E a gente não ia se travestir de grunge nem a pau, embora aquele nosso disco Devotion tenha alguma pitada desse som. A gente gravou todo em inglês e todas as músicas falavam de droga. Aquele disco era um bode fodido, uma bad trip. Foi a ressaca do que a gente estava vivendo depois de passar anos drogado, anos com todo aquele glamour.
Void: Esse disco de vocês é doido, a temática dele é toda meio deprê.
Barea: Eu lembro de uma ocasião em que eu estava tão louco há tanto tempo que eu simplesmente me olhei no espelho e me despedi de mim mesmo. Estava prestes a desmaiar e achava que provavelmente ia morrer. Caí e acordei horas depois, nem sei como.
Void: Esse foi o ápice da deprê?
Barea: Não. Teve outra vez que também passei dias cheirando. Nessa época eu namorava uma mina que era filha de um cara que manipulava jogos de loteria desportiva, uma gente brega pra caralho, mas podre de rica. Eu tinha estourado o carro dela num poste, tinha feito uma cagada gigante e depois de dias voltei para o meu apartamento sem dinheiro, sem pó, sem nada pra comer e não tinha a chave pra entrar. Eu lembro que me deitei no corredor escuro e comecei a chorar pra caralho. Sem ninguém pra procurar, sem ninguém pra recorrer. Foi ali que decidi vir embora pra Porto Alegre.
Void: Nessa aí a banda foi pro saco?
Barea: Sim, acabou. Eu vim pra cá, outro foi morar em Nova York, enfim, a banda faliu. Então eu casei com uma coelhinha da Playboy. Ela era maravilhosa, ficamos oito anos juntos. Foi nesse tempo que comecei a trabalhar como técnico de som e a me envolver com estúdio.
Void: Trampar em estúdio e largar as tours foi uma maneira de se endireitar?
Barea: Sim, tive umas recaídas, mas foquei nesse lance de estúdio. Em 2003 fui para a Espanha gravar o som de uma banda de metal, como técnico de som. Por lá também fiz uma banda de black metal que era uma merda, uns caras estranhos que tinham um som satânico e excessivamente desgraçado. Era difícil até de conviver com os caras, de tão mórbidos (risos). Fumavam muito haxixe, tomavam muita birita.

Void: O haxixe da Espanha deve ser aquele que vem enfiado em cu de marroquino...
Barea: (risos) Sim! Quando o cara fuma haxixe na Europa, pode ter certeza de que aquilo um dia foi vibrador de marroquino (risos). Mas esse trampo foi legal, ganhava uns 30 euros por hora.
Void: E esse seu projeto de música eletrônica, como surgiu?
Barea: Eu comecei de curioso, os solos de bateria da época da Rosa Tattooada já eram feitos sobre trilhas. Depois comprei um equipamento e fazia umas festas com amigos, umas festas de house e eletrohouse. Comecei a pesquisar uns sons, principalmente umas coisas que vêm do Canadá. Depois de um tempo decidi colocar minha bateria do lado e tocar junto, fazendo Live P.A. Cara, quando eu comecei a tocar aquilo foi foda. Na Praia do Rosa foi louco. Em dois segundos tinha um monte de câmeras me fotografando e filmando. Eu pensei comigo: “Porra, isso vai dar grana!”.
Void: E tá dando mesmo?
Barea: Sim, está muito bom. Em fevereiro eu já tinha data marcada pra dezembro. Isso nunca tinha acontecido em toda a minha carreira.
(1) Flavio Basso – integrante da banda Cascavelletes, que fez sucesso nos anos 80. Hoje atende pela alcunha de Júpiter Maçã.



