léguas daqui

50 léguas daqui - matéria 01

aotearoa, kiwiland

por rosi lazaro e norberto ritter

Dois meses de férias. Um carro de trezentos dólares. Uma barraca pequena. Um colchonete de dois centímetros de espessura. Um fogão a gás, duas panelas e um kit de temperos. Um brasileiro e uma bodyboarder uruguaia. Pranchas, roupas de borracha e vontade de dirigir, muita. Cinco mil quilômetros percorridos de saldo, e um mapa absolutamente marcado como testemunha. Kia Ora Aotearoa, bem-vindos à alucinante Nova Zelândia.

1. RAGLAN, WAIKATO
37°48'57.20"S
174°50'32.22"E

A maré esteve bastante seca hoje à tarde, e as rochas apareciam para fora d’água nos costões de Wainui Beach. Além de me acostumar a dirigir pela esquerda, e a deixar de lado a paranóia de roubo e violência do Brasil, estou sabendo que aqui a mudança de maré é de uns quatro metros.

Nova Zelândia

Impressionante. Muda tudo, incluindo, é claro, o surf, que parece um esporte de múltiplas variáveis (vento, maré, swell, bancadas e muito mais), ou um bingo. Hoje foi bingo de manhã, com maré média em Indicators, primeira seção da famosa esquerda de Raglan, com algumas ondas encaixando bem na bancada de rocha. Surfamos até os braços não agüentarem mais e a onda começar a ficar lotada. Também me acostumei que, salvando alguns moleques metidos a pro, todo mundo se cumprimenta na água.   

Sunset

A Rosi pôs no fogo na panela, onde diz que fará os mexilhões que tiramos das rochas hoje à tarde. De uma cor verde esmeralda, eles são realmente enormes. Lá fora, o sol está se escondendo entre as montanhas e as ovelhas já se encostam à cerca para dormir. Soberba visual aqui das janelas da casa que alugamos nestes primeiros dias. Segundo uma receita à moda kiwi que ela acredita que vai funcionar, o molho leva vinho branco, alecrim, creme de leite, um pouco de pasta de tomate e limão.

Mussels

Tenho muita fome, multiplicada pelo esforço de escalar o Karioi esta mesma tarde. É o vulcão que faz sombra na cidade nos finais de tarde e o responsável direto pela formação da bancada de Raglan. Ele tem a forma de uma mulher deitada, e parece que há um monte de histórias malucas a seu respeito. Foram quatro horas de caminhada no meio do mato até alcançar o topo. A volta durou um pouco menos por ser descida, e não rendeu nenhuma história além de cãibras em locais que eu nem lembrava ter.

Chego perto da panela e experimento o molho. Fácil vai ser me acostumar também ao fato de que os kiwis sabem como cozinhar mexilhões e fazer um bom Sauvignon Blanc.

2.PIHAMA, TARANAKI
39°30'48.66"
173°54'39.89"E

lost in pihama

Abro os olhos quando o sol já está queimando as pálpebras. O Norba ainda dorme sobre a grama, se cobrindo com o saco de dormir. Nem barraca armamos ontem, pois faz mais calor há algumas semanas, e então dormimos olhando para as estrelas. Viemos com o swell e a previsão de pouco vento, que prometia bom surf nas praias mais expostas de Taranaki. Lá embaixo, as ondas quebram contra o penhasco, maiores que ontem.

Taranaki

Olho para o carro, e começo rir: a mulher de Singapura dos subúrbios de Auckland que nos vendeu nunca imaginou que chegaríamos até aqui. O nome da mulher era Leslie, de onde veio o nome do carro: Golden Leslie, em alusão também à cor dourada horrível que tem. Agora está num lugar um pouco mais alto, para o caso de ter que pegar no tranco, como vem acontecendo nos últimos dias.
Faz alguns minutos, se escutou a caminhonete do fazendeiro, e logo depois os irrigadores do pasto começaram funcionar. Tambos e mais tambos, vacas e mais vacas. E sempre o vulcão Taranaki, coberto de nuvens ou bem nítido como hoje.

Most Stylish One

Going To Gisborne

Às vezes aparecem algumas campervans na praia, toda uma instituição nacional nos verões dos kiwis. Você é um carro sapeca, digo baixinho para a Leslie, e só quero que ela pegue e que consigamos surfar à esquerda de Mangahumi, uns poucos minutos mais para o norte. Aí, bem na saída de um rio e com o visual incrível do vulcão na frente, pode ser que hoje esteja bem melhor que ontem.

3.    WAIPIRO BAY, EAST CAPE
38°3'0.65"S
178°22'10.63"E

 Waipiro Bay

Tenho que levantar o pé para o calo parar de doer. Bati-o contra a prancha no primeiro banho e vi estrelinhas. Esqueci de tomar o antibiótico hoje de manhã, e agora nem penso em tomar essa pílula louca que me faz enjoar, ter dor de barriga e me fez levantar ontem no meio da noite na barraca dizendo para a Rosi aos gritos: Alguém me envenenou, alguém me envenenou. Ela riu, perguntando com seu espanhol dorminhoco: Pero quién te va a querer envenenar a vos, terraja!!, e voltou a dormir enquanto eu saía para vomitar. O calo está no dedão, e tomara que a dor passe logo porque as ondas continuam boas.

Calo Inflamado

De manhã funcionou uma direita bem aqui na frente, e enquanto a maré baixa estamos nos dando conta de como vai melhorando e ganhando forma uma outra direita uns cinqüenta metros abaixo, com tubos em cima das rochas. O povoadinho lá longe é de casas baixas e tem uma igreja polinésia. Não existe água encanada em nenhuma casa na baía inteira, só na estrada, no meio dos pinheiros e das flores amarelas. Aqui embaixo da árvore, esperamos a maré dar as horas. Só um maori está lá fora. A família dele espera na praia, recolhendo mariscos e tomando banho de mar de roupa. Corpos amplos, sorrisos fáceis e olhos enormes. No caminho, quando perguntamos a uma mulher o que fazia com que ela mais gostasse de morar aqui, ela não hesitou em afirmar que eram os peixes e os mariscos da costa leste, e começou a falar de receitas maravilhosas, cobrindo às vezes a boca na qual lhe faltavam vários dentes.   

Mamãe maori

Recém Morrido


Com cuidado, boto mais silvertape no dedão e nos preparamos para entrar na água. As séries parecem entrar mais agora, ou talvez seja a rápida mudança de maré que nos dá essa impressão. Bingo.  

4.GOUGH´S BAY, CANTERBURY

43°48'31.58"S
173°4'57.37"E

Akaroa Peninsula

Um gato branco e preto, muito pequeno, lança com precisão suas garras contra nossos tornozelos. Uncle Bob abre mais uma garrafa de vinho, talvez a quarta da noite, e continua a história de como a sua família, os Masefield, chegaram à península de Akaroa em 1863. Fala de um pai inglês, alcoólatra e louco, que enviou os seus filhos o mais longe possível para não ouvir mais falar deles. A Nova Zelândia parece ser o mais longe que o seu tataravô conseguiu os afastar, diz Marilyn, a esposa de Bob, que explode numa gargalhada.

Rebanho

Os dois têm o rosto cheio de rugas do vento constante deste lugar e vermelho pelo bom vinho que começamos a beber pouco depois das seis da tarde. No meio da mesa, há um prato enorme com cordeiro assado, vegetais grelhados e salada da própria horta. Um dos cachorros se deita na frente da lareira e nos olha com preguiça.

Tosa

Estamos aqui por pura casualidade, quando antes de abrir uma porteira para chegar às ondas decidimos que era melhor perguntar se podíamos ou não passar. Saiu então o Bob de um galpão, rindo dos “perdidos” e dizendo que aqui não era a Hickory Bay que procurávamos, e sim Gough’s Bay, propriedade da sua família. “Se quiserem, podem ficar em casa e jantar com a gente”, ofereceu depois de uma breve conversa em que ficou muito interessado no Brasil, perguntando pelas mulheres cariocas e pelo futebol. Ontem então surfamos nessa praia: zero crowd, só as ovelhas de sentinela nas encostas, e invadindo o espaço de uns lobos marinhos que olhavam das rochas. Quando saímos, o vento gelado e a perspectiva de ter que montar acampamento nos fez aceitar o convite.

Enquanto Bob serve o vinho, falo para Marilyn que, se ela fosse esposa de fazendeiro no Uruguai, certamente estaria na cidade jogando cartas e não aqui trabalhando. Ela ri forte de novo e me pergunta de que forma então iriam viver. Hoje fizemos parte da tosquia, o acontecimento anual chave da fazenda. Junto com os próprios Masefield, três tosquiadores profissionais do povoado vizinho e mais um casal de holandeses que estava lá no mesmo esquema que a gente: viajando e trabalhando por cama e comida, demos conta da lã de umas quatrocentas ovelhas.

Norba e as ovelhas

Meu deus, aquele cheiro constante de merda no ar e a gordura da lã nas mãos. O Norba se saiu bem levando as ovelhas até o galpão para os tosquiadores, e adorou mesmo quando mataram uma para a janta. Com a camiseta cheia de sangue, me contou o assunto com fascinação. Agora Bob propõe um brinde ao Brasil, e todos levantam as taças.
 
5.ARROWTOWN, OTAGO

44°57'34.51"S
168°50'16.71"E

Flying Away

O avião é diminuto e as montanhas parecem ainda maiores quando as sobrevoamos. O velho Roger dirige o avião com segurança pelo meio das fendas entre a cordilheira neozelandesa enquanto Jessica, a copiloto, assinala o caminho a seguir. Vamos de Arrowtown, povoado emblema da febre do ouro na Ilha Sul da Nova Zelândia, até Big Bay, pico de ondas aparentemente legendárias aonde só se chega de barco, a pé ou de avião. Faz três dias que esperamos que as condições estejam boas para o vôo, acampados perto de Queenstown.

Roger's Plane

O pequeno avião encontramos com dificuldade num potreiro perto de Arrowtown. Agora, Norba tira fotos, deslumbrado com a beleza dos picos nevados e as cores incríveis das montanhas. No meu colo, uma caixa com pequenos bolos decorados que serão presente para o Warrick, o surfista amigo que tem uma casa em Big Bay. Principal motivador desta aventura, ele insistiu até nos convencer a contatar Roger e voar para a região mais remota da Nova Zelândia.

Food came

The Cottage

De repente, enquanto o Norba tira mais fotos, o avião que já enfrentava turbulência há algum tempo dá um salto no ar, e a caixa dos bolinhos se estatela contra o teto do aparelho. Bato com a cabeça e a câmera que estava na mão do Norba some. Roger não diz nada, e continua pilotando a avioneta que parece que vai se desmanchar. Só nesse momento me dou conta do medo, que tento afastar como se fosse uma mosca molesta. Pouco a pouco, começa a aparecer o mar entre as montanhas. Minutos depois, quando aterrissamos nas areias de Big Bay, após passar as ondas como se fossem uma maquete, a alma volta ao corpo. De trás das dunas, aparecem o Warrick e o Steve dirigindo um triciclo. Roger não desliga o motor. Baixamos as malas e as provisões bem rápido, e o aparelho acelera levantando areia, subindo e se perdendo de novo rumo às montanhas verdes.   

6.MILFORD SOUND, SOUTHLAND

44°20'12.95"S
167°59'56.09"E

Martins na onda

Entramos no mar com o bote zodiac, junto com a correnteza do rio, deixando para trás as ondas que quebravam na foz de areia e pequenas rochas de degelo que vêm da montanha na primavera. É início de fevereiro e faz frio de inverno, e estamos todos abrigados com roupas de borracha, botinhas, luvas, capuzes, calças e jaquetas contra a água. Não quero nem imaginar o que deve ser isto em pleno julho.

Congelando

Há histórias de big riders kiwis que organizam expedições nessa época, desafiando o frio e a fúria do mar da Tasmânia para descer umas morras monumentais. O zodiac acelera e avançamos em paralelo ao istmo de areia que forma a desembocadura do outro rio onde surfamos.

Milford Sound

Faz frio e o vento sopra de sul, como sempre. Ficam lá do outro lado os golfinhos de água salgada que se acercaram curiosos do barco, e os milhões de pássaros que passaram por cima das nossas cabeças. No lado interno dos olhos, lembranças de tubos escuros e profundos de poucas horas atrás.
As latas de feijão e massa foram fundamentais para lutar contra o frio e encarar a aventura de navegar três horas em direção ao sul, em alto mar e num bote inflável, para entrar no fiorde de Milford Sound pelo oceano para buscar gasolina no povoado mais próximo. Um pontinho no mar, e lá vamos!

Chegamos à ponta do fiorde, e o que se abre na frente dos nossos olhos é uma sucessão infinita de costões rochosos, escarpas, quedas d’água e montanhas enormes e verdes caindo no mar turquesa. Por enquanto, os pelicanos vigiam o ar. De dentro de um luxuoso navio de turismo eu tenho certeza de que algumas pessoas nos vêem. Quantas delas trocariam o conforto daquele momento pela aventura que acabamos de viver a bordo do barquinho?   

7.TE ANAU, SOUTHLAND

45°25'37.56"S
167°43'31.15"E

The best ride

Depois de dois dias caminhado pelo matagal mais fechado para voltar de Big Bay (dessa vez com itinerário terrestre), atravessando montanhas e alguns rios, o corpo só pede descanso. Estamos parados na estrada, perto de Te Anau. Mais calos nos pés, fome de alguma coisa que seja fresca e não enlatada, e milhões de picadas de sandflies (as moscas demônio da costa oeste) em todo o corpo. Os carros passam e ninguém se compadece deste casal com duas mochilas enormes e pranchas no meio do nada. É um cruzamento de caminhos ao melhor estilo filme americano, e a lembrança da última noite no refúgio da trilha me faz ter saudades de uma cama e vontade de pegar o nosso carro já mesmo. De repente, na nossa frente, pára um tremendo Chevrolet anos 60, vermelhão, que parece também saído de um filme. Dentro, cinco adolescentes "dando um rolé" de domingão.

Original One   
“Wanna a ride?”, pergunta a motorista, única que bebe refrigerante num carro lotado de garrafas de cerveja. A Rosi vai na frente, e eu vou atrás com os dois estudantes de engenharia e o açougueiro da cidadezinha, que se diverte jogando garrafas vazias contra as placas da estrada.

 Mato

É o jeito deles de serem malvados e rebeldes. Começa a tocar AC/DC no último volume, e quando me dou conta já bebi umas quantas garrafas daquela cerveja escura do sul. A motorista continua com a lata de coca-cola e dirige feito um ás do volante no meio daquelas montanhas. Lembro de tudo o que estes olhos viram, e tanta velocidade dá um pouco de vertigem. Rosi tira uma foto e o açougueiro faz cara de vilão.