49 fora do gelo - matéria 01
penalidade leve
por felipe de souza e mauricio capellari / fotos: mauricio capellari

Até publicar esta matéria, sabíamos tanto de hockey in line quanto de pelota basca. Mas, depois de receber um e-mail avisando que estávamos às vésperas do Campeonato Brasileiro da Terceira Divisão, nos sentimos obrigados a cobrir o evento. Patins, hockey, terceirona? Não tínhamos a mínima idéia do que nos aguardava, mas, dementes que somos, dissemos “sim!”.
Hockey inline, conhece? Na real, o esporte teve origem a partir do hockey no gelo, praticado mais a vera no Canadá e nos Estados Unidos. A origem do esporte é controversa. Algumas fontes apontam para o Egito Antigo, enquanto outras informam que o ice hockey começou a ser jogado nas aldeias do Canadá. Os índios de lá patinavam sobre lagos congelados, usando galhos de árvores como taco e estrume congelado como puck (disco).
O certo é que ele chegou ao Brasil beeem depois, trazido pelo canadense André Lawrence, que reside por estas bandas desde 1961 e é treinador do time Contagem Flames, de Minas Gerais. Por aqui, o inline é regulado pela CBHG (Confederação Brasileira de Hockey no Gelo) e possui três divisões. Mas a história do esporte nós só fomos conhecer depois de receber o convite para ir até Curitiba acompanhar o Campeonato Brasileiro da Divisão III. Sim, a terceirona! Mais do que hockey, esse relato é sobre fazer o que se gosta, custe o que custar, e sem dar a mínima pra opinião alheia. É pegar 12 horas de estrada para medir forças sobre patins e com um taco na mão e, de quebra, fazer amizades e tomar umas.

Puck, linha, ice... Nenhum desses termos lembra qualquer um dos esportes que estamos acostumados a ver na televisão brasileira. Nunca escutamos (e com um pouco de sorte provavelmente nunca escutaremos) o Galvão Bueno gritando a plenos pulmões: “Vamo lá, Brasil, organiza a linha!”. É o mesmo jogo que você vê na ESPN; a diferença é que, no lugar de gelo e patins com lâmina, entra a quadra com piso de madeira (ou cimento queimado) e os patins em linha (lembra daquele roller que você ganhou no Natal de 95?). Ah, e diferente da modalidade jogada no Canadá e nos Estados Unidos, brigas não são toleradas. Dirigidos pelo conteúdo que a TV tupiniquim entrega, poucos brasileiros têm intimidade com o negócio.
Pra conferir de perto, teríamos que nos deslocar até a sede campestre do Clube Três Marias, em Curitiba. Pra chegar lá, pegamos carona em um micro-ônibus (sem banheiro) alugado pelo time Pirates, de Caxias do Sul. Já na cidade da Serra Gaúcha, notamos que o negócio não era brincadeira. Assim como tem dois times disputando a peleia futebolística regional, Caxias também possui duas equipes brigando taco a taco na quadra pública da cidade. Pirates e THC (Time de Hockey de Caxias, esse é o significado da sigla, ok?) são rivais e esperavam a partida dos ônibus no mesmo local, separados por metros de distância. E foi do THC nossa primeira fonte in loco nesse louco mundo sobre patins.
De cara, conhecemos Edson Costa, o Eddy, camisa 69. Jaco de couro, calça jeans e bandana na cabeça, ganhou uma edição da VOID e já saiu disparando: “O THC é mais antigo aqui na cidade. O time deles (Pirates) surgiu como dissidência. Compraram alguns jogadores nossos, mas o sentimento pelo time não se compra”. Depois da minipalestra sobre lealdade e amor clubístico, Eddy arregaçou a manga do casaco, mostrando a tattoo com o distintivo do time. A van da trupe do THC era bem ao nosso estilo: loiras tatuadas e de umbiguinho de fora no banco de trás, bebidas diversas no isopor e a promessa de um leve fumacê nos ares. Teríamos pego carona com o time errado? Meio desconfiado de que estávamos prestes a mudar de lado, Lucas Vanoni, jogador do Pirates, nos chamou pra embarcar no Mercedinho. Lá fomos nós, mas não sem antes ouvir o ultimato de Eddy: “Vocês que sabem, tem dois lugares aqui com nóis. Lá não tem trago, papai e mamãe vão junto...”.
Vendo o veículo do THC cada vez mais longe, uma solitária lágrima correu de um dos olhos do fotógrafo Mauricio Capellari. E isso que nosso retratista ainda nem imaginava o diminuto assento que lhe fora reservado. Seu Paulo, pai do capitão do Pirates, é quem organiza a viagem. “É a primeira vez deles em um campeonato. Sabemos que não temos muita chance, mas o bom mesmo é ganhar experiência e ficar junto com os filhos.” Para nosso desespero, os piratas caxienses eram realmente MUITO comedidos nos quesitos etílico e fumígeno. Com pais e mães junto, o ambiente exalava clima familiar e atitude desportiva.
Nas 12 horas seguintes estaríamos esmagados entre o pouco espaço dos bancos do micro-ônibus, escutando a gritaria adolescente e presenciando toda sorte de sacanagens infanto-juvenis: depilação, pintura de unhas, bunda na cara dos que dormiam... Nossa dúvida é se agüentaríamos tamanha curtição.

Durante as 12 horas de estrada até a capital paranaense, entre uma e outra fisgada no ciático, nos questionávamos como estaria sendo a viagem de Eddy e seus comandados. Tínhamos apenas a certeza de que a nossa road trip junto aos Pirates poderia estar sendo feita com menos decibéis, mais espaço entre uma poltrona e outra e, quiçá, uma cervejinha pra ir relaxando os ânimos e curtir o sacolejar da estrada. Mantras e respiração diafragmática se fizeram necessários.
Já na manhã seguinte, depois de perambular mais de duas horas, perdidos nas periferias de Curitiba e sem o auxílio luxuoso de um GPS, Seu Paulo, mais do que ciente da jornada sem glórias em que estava inserido, ao passar na frente de um Carrefour solta a única piada engraçada de toda a viagem. “Vamos armar um amistoso contra o combinado das patinadoras do supermercado. Pode ser que delas a gente ganhe.” Boa, Seu Paulo!
Depois do desembarque na fria e asséptica Curitiba e de poucas horas de descanso nas instalações vintage do resistente Guaíra Palace Hotel (com banheiro), na tarde de sexta-feira voltamos a nos encontrar com os piratas caxienses. Nós na arquibancada, eles na quadra.
A estréia dos caras foi bem dura. De cara, pegaram o Bauru, fortíssimo time do interior paulista. A conhecida sorte de principiante não pintou no ginásio, e o placar foi esmagador: Pirates 1 x 8 Bauru. Pelo jeito, a abstinência alcoólica fez mal aos garotos.
Logo a um minuto de jogo os paulistas abriram o placar com um tiro de Felipe Araújo. Daí pra frente, escancararam-se as porteiras da meta caxiense. Com a facilidade de quem corta manteiga com faca quente, o Bauru empilhou gols. Talvez sem percebermos, o martírio vivenciado no micro-ônibus e ainda fresco em nossas carcaças tinha nos tornado bauruenses de coração.
Sopa, goleiro dos piratas, até que conseguiu segurar as pontas por um tempo, mas ficar sob um fogo cruzado de discos em alta velocidade não é algo que se possa suportar por longos períodos. “Numa cagada acabei tomando um gol pelo meio das pernas”, lamentava após a partida, ainda se despindo da armadura que precisa usar embaixo das traves. “É nossa primeira partida em um campeonato e eu jogo só há seis meses, então é normal, né?”

ENTRE A SORTE E O NERVOSISMO
Sorte mesmo deu o pessoal do THC, que nem precisou entrar em quadra, já que o time adversário, o Predacon, de Goiânia, não deu as caras no ginásio. Resultado: vitória de W.O. Sem saber que já tínhamos averiguado o pé quente, Eddy nos recebe com um efusivo cumprimento e informa: “Metemos cinco neles!”. O Blades, de Porto Alegre, que completava a trinca dos gaúchos na competição, não teve a mesma moleza. O adversário da estréia, o D’Masters, do Espírito Santo, não só apareceu como aplicou 7 x 1. “Não era um jogo pra perder desse jeito. Saímos ganhando e cedemos o empate em seguida. Depois acho que o time ficou nervoso”, explicava Matias, argentino radicado em Porto Alegre e atacante da equipe.
Esquenta não, Matias. Se nós ficamos nervosos em assistir, imagina jogar? O esporte é rápido, de alto contato, e o barulho dos tacos e do disco batendo na tabela que separa a quadra do público é perturbador. Numa dessas jogadas ríspidas, o puck foi bater na câmera de nosso fotógrafo, cena que ganhou um uhhhhh do povo aglomerado na arquibancada.
Pra entender melhor, cada time é composto por quatro jogadores de linha e um goleiro. As substituições são ilimitadas, e cada equipe pode inscrever até 16 jogadores de linha. Muitas vezes a diferença entre o fracasso e o sucesso mora exatamente no número de atletas de que cada equipe dispõe. Quanto mais jogadores, mais substituições e mais gente com gás dentro da quadra.
Cada partida é dividida em quatro tempos de 12 minutos; os 10primeiros minutos são corridos, e os dois restantes, cronometrados. Semelhanças com o esporte bretão? Além do gol, quase nenhuma. Não tem lateral, o disco praticamente nunca pára. Outro fator que torna o esporte ainda mais frenético é que a regra permite o uso das mãos e dos pés. Não raro fomos testemunhas de lances em que o disco subia, era apanhado pelo jogador e atirado ao solo, facilitando o domínio com o taco. O mesmo pode ser feito com os patins.
Ah, ia esquecendo! Existe uma outra triste coincidência no cruzamento futebol e hockey: em ambos o goleiro é o que mais se fode. Sempre! Aqui, eles têm que usar uma roupa que os deixam parecidos com um Transformer. Trajando caneleiras gigantes, proteção peitoral mais do que avantajada, luvas e capacete com grade, os arqueiros ficam quase sempre com o corpo encolhido, protegendo a cidadela que mede 1,05m de altura por 1,70m de largura. Eles podem rebater o puck com qualquer parte do corpo, mas toda vez que o seguram contra o solo ou o aparam entre as mãos, é marcado o que se chama de ice, que é um tipo de bola ao chão. Aí lá vem o seu juiz, também de patins e capacete, e larga o disco entre dois atletas que disputam o domínio da jogada.

Na terceirona do Campeonato Brasileiro, são 12 times inscritos e divididos em quatro grupos de três. Predacon, de Goiânia, e Uberlândia, de Minas Gerais, não deram as caras e terão que pagar multa aos cofres da CBHG. Aliás, a Confederação é bem rígida quanto à disciplina. Tanto que um dos jogadores do THC nem viajou pra Curitiba. O sujeito pegou gancho de 60 dias depois de se envolver em uma briga com um dos componentes do arqui-rival Pirates. Tem até no YouTube. Basta digitar “bicho pegando no campeonato gaúcho de hockey”.

D’MASTERS, A FORÇA CAPIXABA
Quinto colocado e detentor do artilheiro da competição, o D’Masters é de Cariacica, Espírito Santo. Tem em Leandro Barcellos (vulgo Biro-Biro) seu técnico e capitão. O time foi fundado em 1999 e todos os jogadores andavam de patins estilo street, até que um deles conheceu um jogador de hockey em uma pista de Vitória. “Treinamos em uma quadra de futsal em Cariacica. Pra vir pro campeonato, uma empresa de Minas Gerais e um comerciante da nossa cidade nos ajudou”, conta o simpático Biro-Biro. Aliás, simpatia é o lema do D’Masters. Não foi à toa que conseguimos esse pôster do escrete capixaba. No final das contas, viraram nossos colegas de birita.
Sem muito tempo para reorganizar a equipe e arriscar uma nova tática, o Blades do gringo Matias Causa tinha que entrar em quadra novamente, dessa vez para enfrentar um furacão chamado Associação Portuguesa de Desportos. Não é gozação; ao contrário do que rola nos gramados, onde o clube migra da primeira para a segunda divisão frequentemente, no hockey a Portuguesa é potência. Tanto que possui três esquadrões, um para cada divisão do torneio nacional. Resultado mais do que previsível: Portuguesa 5 x 0 Blades. “Viu como faz diferença ter mais jogadores inscritos? Meu físico já era”, dizia Matias esbaforido.

À PROCURA DA QUADRA PERFEITA
Se conhecemos um pouco desse universo do hockey inline, o principal responsável foi o time do Blades. Apesar da má colocação no torneio, foi neles que encontramos as figuras de entusiastas do esporte. Todos, sem exceção, tiveram paciência monástica para nos explicar quarenta vezes todas as regras do jogo. Apesar do farto conhecimento, os caras ainda penam para arrumar uma quadra adequada, e os treinos são realizados em cancha de futsal, sem as medidas oficiais. Mas nem isso desanima, e o time toca uma escolinha pra molecada. A vontade de juntar gente pra jogar é tanta que até nós fomos convidados pra engrossar as fileiras do Blades. “Gostou? Não quer começar?”, perguntava Matias. Para o bem do esporte, ficaremos na arquibancada. Mas valeu o convite!
COM OU SEM EMOÇÃO?!
Apesar das jogadas ríspidas, tombos e eventuais discussões mais acaloradas, o esporte é bem propício para a construção da velha e boa camaradagem. Como a maioria dos times não tem muita estrutura e viaja com pouca grana no bolso, acaba um se hospedando na casa do outro. Foi assim que surgiu a aliança entre D’Masters e THC. Em um campeonato disputado no interior de São Paulo, se hospedaram na casa de amigos em comum.
A convivência gerou baladas e cervejadas. Numa delas, houve até uma fuga espetacular a bordo de uma pick-up, como recorda Tchow Boy, goleiro do D’Masters. “A gente tava de farra, todo mundo doidão na caçamba da camionete, aí a polícia veio atrás. O motorista meteu a cabeça pro lado de fora e perguntou: ‘Com emoção ou sem emoção?’. Foi aí que eu vi que gaúcho é tudo cagão mesmo” (risos).
Pois é, Tchow Boy, ainda bem que Eddy não estava presente durante a sua declaração. Minutos depois de conversar com o goleiro capixaba, fui trocar uma idéia com o cara. Ele tava lá, atrás de uma das goleiras da quadra, se aquecendo para o jogo contra o time da Associação Darks, de São Paulo. Apesar da cara de mau do sujeito, cheguei junto pra perguntar a expectativa em relação à partida. Sem rodeios, Eddy devolve: “É vitória! Esse é o jogo da minha vida, vale uma vaga para a semifinal e um lugar na segunda divisão. Tu vai ver eu berrar, chorar e chamar todo mundo de filho da puta”. Realmente o capitão do THC rodava em alta voltagem na quadra. Muitas vezes alta demais, o que o fez virar um habitué da zona de penalidade, cercado onde os atletas cumprem suspensão quando passam dos limites. A linda (linda mesmo!) locutora e juíza do campeonato repetia a cada curto intervalo de tempo: “Edson Costa, do THC, penalidade leve!”.
As penalidades mais comuns são por elbowing (cotovelada), high stick (taco alto) e falsear, que rola quando o jogador usa o taco pra atingir as pernas do adversário. O tempo de gancho do lado de fora varia de dois a cinco minutos, dependendo da gravidade. E, apesar de seus atletas baterem ponto na zona de castigo, o THC chegou à tão esperada vaga nas semifinais, depois de golear um insosso SP Darks por 10 x 3. O ascenso à segundona nacional também já estava na mão, o que fez toda a equipe se juntar no meio do ginásio e bradar um inusitado “ao, ão, ão, segunda divisão”.
Com duas derrotas na tabela e sem maiores ambições na competição, Blades e Pirates se enfrentaram apenas para ver quem conseguia uma melhor colocação no ranking. Momentos antes do jogo começar, Roger Souza, defensor do Blades, adiantou: “Vai dar nós, pode ter certeza”. E deu. Para fechar a campanha, o Blades meteu 5 x 2 nos piratas. “Nosso desempenho poderia ter sido melhor, mas pela diferença de treinamento que temos comparando com o resto do Brasil, o resultado ficou dentro do esperado”, avaliou Matias, o argentino boa praça.
Já Cristiano Schmitz, que acumula os cargos de defensor e técnico, foi mais duro na autocrítica. “Como treinador e capitão da equipe, estou muito decepcionado comigo. A equipe fez tudo que eu pedi e deu seu melhor. Eu falhei e fiz com que tivéssemos um rendimento inferior ao do ano passado.” Mas logo o cara completa: “Temos muitas coisas pra corrigir pro próximo ano, mas não vamos desanimar. Hockey é o esporte mais do caralho que já existiu!”.
No fim do certame, o Blades ocupou a nona colocação na tabela. O Pirates finalizou em 10º, sem provar o gosto de uma vitória em jogos oficiais e ficando à frente apenas dos dois times que deram caô e não apareceram.

Resultados à parte, a eliminação precoce dentro de um campeonato significa o mesmo pra todo mundo: relax e cerveja! E foi com o atacante Rafael Mattos, do Blades, que reparti umas latas e idéias no lado de fora do ginásio. O cara conheceu os patins inline durante uma viagem com a família, em Miami. O resto é história. De lá pra cá, já participou até de uma clínica de hockey no Canadá, para onde pretende voltar em breve. “Já pratiquei muitos esportes tradicionais, e nenhum é tão desafiador como o hockey. É como entrar em outro ecossistema, seu corpo e seu cérebro experimentam outra percepção do mundo. Tecnicamente nós nem estamos tocando o chão, e a nossa ‘bola’ não rola, desliza. Isso dá uma sensação de volatilidade pros sentidos que ultrapassa os próprios limites. É como aprender a andar de novo.” Detalhe: enquanto conversava e bebia, o cara ainda tinha os patins nos pés, o que facilitava o deslocamento até o bar pra pegar mais uma, mas causava pânico no repórter.

Por sorte, o trago não foi suficiente para nos impedir de presenciar uma das partidas mais espetaculares do torneio. Na quadra, nossos amigos capixabas do D’Masters voltavam à carga, dessa vez contra os curitibanos do No Fear. Quando a partida estava 3 x 1 para a equipe da casa, Leandro Nascimento (o Biro-Biro de Cariacica) comandou seu grupo a uma reação heróica. Depois de surpreender o adversário, ao empatar em 3 x 3, o D’Masters, com o atacante Adrian, deu o golpe de misericórdia. Em uma jogada de dribles e malemolência, o tiro final fez o puck passar no espaço milimétrico entre a mão e o taco do goleiro paranaense. Festa, êxtase e capacetes jogados pro alto. Apesar de serem protagonistas do mais eletrizante embate que vivenciamos, a combinação geral dos resultados colocou os D’Masters em quinto lugar na tabela, e o ascenso para a segundona ficou para uma próxima.
“De qualquer maneira, evoluímos muito! Ano passado ficamos em nono”, lembrava Biro-Biro. E foi ele, temente a Deus, quem chamou toda a delegação para um efusivo Pai Nosso. Depois da reza, o grito de guerra, composto tempos atrás na intenção de provocar um adversário de Minas Gerais: “Nós temos praia? TEMOS! Nós somos capixabas? SOMOS! D’MASTERS”.

“É MELHOR ELES FACILITAREM”
Enquanto pra uns o Campeonato Brasileiro da Terceira Divisão chegava ao fim e as primeiras latas de breja eram enfiadas goela abaixo, para outros a quadra ainda representava o território onde eram depositadas as esperanças. E, novamente, Eddy 69 e sua trupe do THC seriam protagonistas do duelo. O jogo era contra os anfitriões do Hold Yager, e valia vaga na final.

O ritual dos caxienses não sofreu alterações: jogadores e parte da torcida se agrupavam atrás de uma das metas. “Olha, eu sei que o jogo vai ser difícil, mas nós vamos ganhar. Ou a gente ganha na boa jogando limpo ou perde batendo neles. Então é melhor eles facilitarem”, avisou Eddy. Até levei fé no seu olhar obstinado e voz firme, mas quando vi os Hold Yagers enfileirados, esperando o início da partida, todos eles empertigados em seus uniformes grená... Contrastando com a euforia maquiavélica do THC, eles eram pura calma e concentração e, para piorar as coisas pro lado de Eddy, contavam com Guilherme Vanzin e Rodolfo Buschle, eleitos os melhores defensores do evento. Para entornar um pouco mais o caldo, o ataque era composto por um sujeito chamado Key Miyazaki, número 19.
O jogo foi uma aula técnica e tática, com os Hold Yagers goleando por 5 x 0. O rodízio de penalidades pros jogadores do THC seguiu como nas partidas anteriores, a ponto de levar Antônio Lopes Siqueira, diretor técnico da CBHG, a perder as estribeiras. Se foram bons alunos, os caxienses poderão aplicar alguma coisa na segundona.
A TAÇA FICOU EM CASA
Na outra chave das semifinais, os dois times apontados como favoritos ao título se comiam em quadra para uma vaga à final. Bauru e Portuguesa não fizeram um jogo tão eletrizante quanto outros testemunhados por nós. Mas todos no ginásio tinham quase que a mesma previsão: o vencedor dali seria campeão da terceirona 2009. Ao fim dos quatro tempos, o placar era de 2 x 2. Para dar contornos épicos, a decisão foi para os pênaltis e deu Bauru.
O domingão da grande final entre Hold Yagers e Bauru amanheceu carrancudo, com nuvens gris no céu da capital paranaense. Dentro de nossos aposentos no hotel Guaíra, ainda lutávamos contra o álcool que corria em nossas veias. Na noite anterior, fizemos uma incursão por uns botequins meia-bomba, conhecemos hospitaleiras curitibanas e, em adiantada hora na madrugada, nos vimos fazendo um tour infindável atrás de comida e glicose. A jornada encerrou em uma padaria 24 horas, tendo como companhia taxistas doidões e agentes do mercado negro que negociavam celulares na calçada do centrão.
A final entre paulistas e paranaenses foi cheia de protocolos. A entrada na quadra foi feita ao estilo NHL, com os jogadores sendo chamados um a um pela locutora (a menina linda que deve povoar o sonho de muito jogador). Contrariando todas as nossas previsões furadas, o Bauru não levou a melhor. O tal do Miyazaki fez miséria, e seu time enfiou 6 a 2 nos bauruenses que, dizem, entraram pro jogo calçando um salto 15. Sifu! Hold Yager campeão e com toda a moral pra jogar a segundona, que rola já em julho no município paulistano de Sertãozinho.
UM ABRAÇO, NOS VEMOS LÁ!
Nossa incursão no cenário da terceira divisão do hockey brasileiro foi mais que positiva. Tanto que, na solenidade de entrega, aquele clima de fim de festa já tava marejando os olhos. Biro-Biro, nosso brother capixaba, levou troféu de melhor jogador da competição. Logo depois de receber o prêmio, veio dar um abraço e entregar a própria camisa como lembrança. “Toma, essa é sua!” Logo na seqüência, a van de Eddy já encostou e, sem os patins e o capacete, ele pareceu ser bem menos beligerante. “Vamo com a gente pra Sertãozinho, cara!”, convidou ele antes de embarcar de volta pra Caxias.
E ainda pudemos confirmar o clima de camaradagem institucionalizado quando, com os bolsos vazios, ganhamos uma carona na van do Blades até o aeroporto. Lá, na interminável espera para o vôo que nos levaria para casa, uma TV passava a final do campeonato paranaense de futebol. Depois de três dias acompanhando a velocidade vertiginosa do hockey inline, o velho esporte do onze contra onze tinha perdido totalmente a graça e poderia ser definido em uma palavra: MOROSO.

DUAS HORAS POR DIA, TRÊS DIAS POR SEMANA
Key Miyazaki foi o nome da final da terceirona, comandando seu time ao título. Aos 30 anos, já passou por quatro equipes e tem no currículo uma convocação para a seleção brasileira. “Joguei o Campeonato Mundial de 2000 na República Tcheca e marquei dois gols contra a seleção da Finlândia, que foi campeã daquele ano”, lembra. Atualmente, sua rotina é treinar duro em quintas, sábados e domingos, sempre duas horas em cada treino.
Tudo isso pra tentar a sorte no capeonato da segunda divisão. “Vamos tentar subir pra primeira. Se não der, tentaremos ao menos permanecer na Divisão II, onde os times são bem mais fortes”, avaliou.
GOSTOU? QUER COMEÇAR?
-Apesar de termos declinado o convite feito por Matias Causa, ficamos na torcida pra que mais gente pratique o esporte. E o próprio Blades tem uma escolinha pra iniciantes em Porto Alegre. A idade mínima é de 12 anos e os treinos acontecem no Esporte Clube São José (Av. Assis Brasil, 1200). Também rolam treinos na quadra pública que fica próxima à Usina do Gasômetro. O melhor é se informar direto com os caras: poablades@gmail.com
-Em Curitiba, o Hold Yager, time campeão, também mantém categorias de base. Os treinos rolam lá no Clube de Campo Três Marias, às quintas e aos sábados. Ah, e eles têm um time feminino também! Mais informações por e-mail: contato@holdyagerhockey.com.br



