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trabalho em série

por felipe de souza / fotos: mauricio capellari

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Umbanda, candomblé, batuque, seja lá qual for o caminho afro-místico escolhido, o certo é que MUITA gente faz um trabalhinho para conseguir o que quer. Pegar mulher, se livrar de mina chata, enfeitiçar a recrutadora de RH daquele trampo dos seus sonhos, fazer com que sua sogra torça os ligamentos cruzados dos dois joelhos ao mesmo tempo...Pra tudo as forças da natureza estarão à disposição.


Agora, você já parou pra entrar num estabelecimento comercial em que as prateleiras são forradas, do chão ao teto, só com produtos pra evocar o que há de oculto? No primeiro momento é estranho, mas depois de acostumar-se com o cheiro característico que toda flora tem, pode ser até bem divertido. Não se impressione com os exus espalhados pelo local. Ao fim e ao cabo, todos eles são apenas gesso, argila e tinta.


Pra acabar de vez com o cagaço e ir atrás do nascedouro de santos, santas e cabulosos bichos com caveira, embarcamos em uma trip até o nada aprazível município de Viamão, pra visitar a linha de produção da Imagens Diamantina. Quem nos recebe na fábrica é Luciano Ferreira Dias, 33 anos de idade e 12 parindo exu em forma. “Meu pai já trabalhava com gesso, era um negócio de família. Como a sociedade foi rompida, ele decidiu entrar para esse ramo de imagens religiosas”. Luciano afirma que foi tiro certo. “Trabalhar com decoração é complicado e o bom do nosso negócio é que santo não sai de moda nunca”.

Além de não sair de moda, descobrimos também que esse trampo de fabricar imagens pra religiões afro também não requer uma linha especial. Diferente do que rola na rua, dentro da fábrica a relação catolicismo x mandinga é bem de boa. Prova disso é que a mesma forma que é usada pra fazer nascer um Santo Antônio, serve para o surgimento de um Bará, assim como Nossa Senhora Aparecida vira Oxum, São Jorge é Ogum e o Cristo vai atender pelo nome de Oxalá. Total flex, sacou?
Na Diamantina, 1500 peças são fabricadas por mês, atendendo a clientes dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O valor varia entre módicos R$3 reais e salgados R$450 reais, que é o valor cobrado por uma estátua de Oxum medindo 1,20m. Agora, o item de ponta da fábrica é realmente o bom Preto Velho, que sai por 700 pratas. “É caro porque leva 50 Kg de gesso e leva uns três dias para ficar pronto. A pintura leva mais umas três horas” explica Luciano.



Em estoque, a Imagens Diamantina tem cerca de 10 mil itens. Só na linha de exus, são mais de trinta modelos, entre eles o Caveira, o Exu do Lodo e o Exu Veludo. No setor de Pomba Gira, mais uns 20 modelos entre a Pomba Gira Cigana, a Rainha das Sete Encruzilhadas, a Maria Padilha e a Sete Saias.

 

Quem dá o tom em cada santo é a Dona Tereza, que durante a vida toda nunca teve outro trabalho senão dar a demão nos santos. Um Exu Tiriri, por exemplo, toma 30 minutos de seu tempo, isso usando uma pistola de tinta automotiva. “Nunca tive medo. Quem tem Deus no coração não tem medo de nada. Ele me destinou a esse ofício e os santos me abençoam”. É isso aí Dona Tereza, chuta que é macumba.


A galinha, o pato e o peru

Provocando paúra no Peta e no rapeize vegano, há um nicho dentro dos estabelecimentos de comércio de artigos religiosos que lucra só com a degola do bicharedo. Na real, os aviários existem e ganham grana porque certas macumbas precisam de penosas pra darem certo, aí não tem jeito, quem paga o pato são as aves.

Na volta da viagem até Viamão, demos uma chegada em um desses estabelecimentos. Quem nos recebe é o Beto. De bermuda, sem camisa, cabeleira loira presa em um rabo de cavalo, ele nos recebeu de boa no barracão que era um mix de aviário, casa de artigos religiosos e lounge com sofá e TV pra relaxar durante as compras.

“Tenho 37 anos e nasci nisso. A gente tinha outro aviário que quebrou e então abrimos a loja aqui”, explica. No barracão do Beto, a galinha sai por R$10 o Kg, mesmo preço cobrado por marrecos e patos. O casal da pomba sai por R$25 . No setor de quatro patas, “pros trabaio mais forte”, bodes e cabritos saem por até R$180. Segundo Beto, o movimento dos negócios já teve dias melhores. “Agora tá foda, mas depois da quaresma melhora”.

Umbanda dos Bálcãs

Imagine um croata típico, acostumado com o frio abaixo de zero, com aquela paisagem banhada pelo mediterrâneo, se pá um torcedor fanático do Hadjuka Split. O que um sujeito desses tem a ver com cultos afro? Pergunte pro pessoal que toca a loja Kolesar e eles terão a resposta.

Incrustado no coração do Mercado Público de Porto Alegre, o estabelecimento começou há mais de 40 anos, só vendendo flores. Os anos passaram e a segunda geração da família Kolesar entrou de cabeça no negócio dos caboclos, santos, pombas-gira e pretos-velho. A loja é apertada, mas a gama de produtos é imensa, do quindim à espada de Ogum, encontra-se de tudo por lá.

O entra e sai pela manhã é frenético e no balcão a freguesia chega afoita com os “receituários” emitidos por babalorixás e pais de santo. Uma senhora parecia estar fazendo um trabalho realmente invocado. No pacote final, charutos da marca Imperial, tecido vermelho, pinga, balas de mel, pequenos frascos com poções misteriosas... Enfim, entregando na mão certa, dava pra matar um elefante com aquilo tudo.


Entrevista com Pai Laerte da Oxum


Nesse entra e sai de floras, fábricas de imagens e indústrias de gesso, conversamos com Pai Laerte da Oxum. Em uma acanhada sala instalada no segundo piso de uma loja de artigos religiosos no centro de Porto Alegre, o babalorixá atende 30 pessoas por dia, cobrando R$20 a consulta (30 x 20,00 = R$600. Nada mal!). O movimento era intenso no local.

Na escadinha de acesso ao consultório, um rapaz mais feio que a necessidade aguardava ansioso. “Fiz trabalho pra pegar mulher e o negócio deu certo, agora não tô dando conta. É muita mulher, muita confusão”. A esperança do mancebo era  que Pai Laerte trouxesse tranqüilidade e um pouco de celibato ao seu cotidiano. Cada um com seus problemas.


VOID: Quando foi sua iniciação? Quando o senhor se deu conta que tinha esse dom?


Pai Laerte: Isso veio da minha avó. Ela morreu com 114 anos e tinha três descendentes de escravas que viviam com ela. Ela ficou viúva depois da Guerra do Paraguai. Foi ela quem me deu a iniciação. Fui criado dentro da religião e trabalhava com ela e fui aprendendo e sendo controlado e orientado por ela. Nesse ramo, hoje em dia, é muito raro encontrar pessoas sérias, a religião virou uma palhaçada.


VOID: Por quê?


Pai Laerte: Porque estão usando a religião como comércio, forma de ganhar dinheiro. E não adianta, para ser um bom pai de santo é preciso ter uma profissão, porque senão, se o sujeito precisa de dinheiro ele vai querer ganhar com a primeira pessoa que entrar pra consulta. Aqui eu só cobro o que eu gasto, nunca cobrei nada mais que R$200 para os trabalhos. Claro que quando eu tenho que matar um galo ou uma galinha, as coisas ficam mais caras. Eu faço tudo certo, depeno todas elas direitinho, deixo tudo limpinho


VOID: O senhor deve receber aqui pessoas que fazem os mais diversos pedidos, tanto para o bem quanto para o mal. Você tem habilidade e disposição para trabalhar para os dois lados?


Pai Laerte: Eu creio que sim, mas prefiro fazer as coisas sempre para o bem. Aqui tu colhe o que tu planta. Trabalhos para o mal sempre pagam muito bem.  Inclusive ontem chegou um sujeito aqui que engravidou a amante. Ele queria que eu fizesse trabalho para matar a criança e a mãe e disse que me pagaria o que eu quisesse. Na hora, mandei ele descer. Não dependo do dinheiro daqui, sou aposentado como enfermeiro padrão.

VOID: O senhor deve conviver aqui com todo o tipo de energia. Como é que faz para se defender dessas influências?


Pai Laerte: Uma ou duas vezes por semana eu faço meus banhos de descarrego, com sais.


VOID: Encara essa atividade como um sacerdócio?
Pai Laerte: Na verdade eu não cobro quase nada. Hoje em dia tem mães de santo que chegam a cobrar até R$20 mil por um serviço. Eu nunca vou cobrar um dinheiro desses de ninguém.

VOID: Um lance que não entendo é o porquê de ainda sacrificarem animais.

Pai Laerte: Isso vem desde o começo dos tempos, quando se sacrificavam cordeiros. Na realidade eles são a alimentação dos Orixás, não tem jeito.

VOID: E a droga, o tabaco, a cachaça... Onde entram nisso tudo?

Pai Laerte: Olha eu não lido com isso, com exus. Hoje em dia se você for numa rodada de exu não vê mais o respeito que se tinha tempos atrás. Eles tomam uma ou duas garrafas de cachaça e já vem gritando: (imitando voz sinistra) “Vamo deitá neguinha, vamo deitá neguinha”. São entidades que não têm luz.

VOID: Nessa simbologia toda, o Exu seria um escravo?

Pai Laerte: O Exu é um escravo, um pecador. Ele bebe cachaça, anda na rua... Ele é o que está mais abaixo na hierarquia.

VOID: Mas como acontece isso? Se eu quero que algum colega meu seja demitido, por exemplo, como eu faço uma parada dessas? Que energias vão conspirar para que o cara se dê mal?

Pai Laerte: Daí você tem que consultar os Orixás, eles é quem vão falar se há ou não como fazer o serviço. Tu corta totalmente a áurea e os chacras da pessoa, você afunda a pessoa. Aí vão fazer trabalho em cemitério, em encruzilhada pra depois o caminhão passar por cima.


VOID: Esse negócio mexe muito com as forças da natureza, não?

Pai Laerte: Com certeza, meu filho! E hoje em dia ninguém mais tem respeito com a mãe natureza. Se alguém for fazer trabalho que tenha que enterrar alguma coisa, antes da pá encostar na terra é preciso pedir autorização pra mãe natureza, porque é ela que cria e é ela que extermina.

 VOID: E lhe procuram muito para consertar coisas que outros pais de santo fizeram errado?
Pai Laerte: Sim, muito!


VOID
: E qual o erro mais comum?

Pai Laerte: É o olho gordo, a inveja. Algumas pessoas vêem o colega com uma camiseta melhor, uma roupa mais arrumada, e já fazem trabalho pra ele perder o que tem. Fervem miolos numa panela quente, aí o cara já briga com o chefe, essa energia fica nele. Hoje em dia tudo está muito prostituído. Por exemplo, eu sou homossexual, mas se vou receber um orixá feminino, ela tem que saber que eu sou um aparelho masculino, porque sou homossexual, mas sou homem.


VOID: Quer deixar algum recado pro pessoal que lê a revista? Algum cuidado especial?


Pai Laerte: Olha, esse ano é de Ogum com Iansã, então tem que ter muito cuidado com a parte da saúde, principalmente quem é do signo de capricórnio.

VOID: Pra aquariano tá tranqüilo?

Pai Laerte: Tá tranqüilo, meu filho!


VOID: Então maravilha!


Põe na sacola


Zé Pilintra


Exu polivalente, que se manifesta tanto na direita (baianos e pretos-velhos), como na esquerda (exus). Sempre vem com sua vestimenta impecável e chamativa, bebe batidinha de côco e pinga e sempre aceita um cigarrinho. A estatueta de 20cm sai por R$12 reais e dá pra fazer no cartão de crédito ou débito.


Cigano Igor

Entidade espiritual estradeira, on the Road mesmo. Sempre baixando aqui e acolá. É chinfroso, cabeludo e sempre tira som no violino. Por 12 contos, ele pode fazer parte do décor da sua sala nova.

Exu Omulu

Pra dar um ar Greyskull pro lar. Esse aí, dizem, é o Exu da varíola e das doenças contagiosas, tanto curando como trazendo. Olho vivo com o caveirinha. R$12.


Pó de Mico

Em nenhuma das lojas visitadas os atendentes souberam explicar o uso do Pó de Mico em terreiros. O certo é que esse negócio dá uma coceira da porra. Fora do ambiente religioso, pode ser usado pra zoar geral no escritório, em casa ou naquele fim de semana na praia, com o cunhado chato. O vidrinho sai por R$2.

Banha de Ori

Manteiga vegetal extraída do Karité. É usada como “reforço de cabeça” nos rituais de iniciação. R$2,00
Espada de Ogum
Pra se puxar no Cosplay e entrar na festa devidamente paramentado. Por R$28 ela é sua.

Sabonete Atrai Fregueses

Se o seu negócio anda mal das pernas, esfregue no corpo! Encontrado em casas de umbanda, mas também é muito comprado por Salims e Jacobs. R$1,50

Ebi

Esse animalzinho repugnante e inveterado comedor de alface poderia ter tido outra sorte nessa vida. Para azar do Ebi, ele parece ter grande importância dentro dos terreiros, sendo colocado sobre a cabeça (blergs) dos participantes da sessão, para dar um “reforço”. Preço? R$4,00


 

being thom yorke

por leandro vignoli / Fotos: Divulgação_Marcos Hermes

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No último março, o Radiohead finalmente tocou no Brasil, após muita especulação. Foi um show no Rio e outro em São Paulo, onde estive pra acompanhar tudo de perto. Porém, às vezes, em shows desse porte, não é possível ficar perto o suficiente para ver mínimos detalhes. Assim, pensei em algo inédito. Entrar na cabeça de Thom Yorke. Baseado em estudos sobre filosofia da mente e percepção sensorial (você já deve ter visto coisa parecida em algum filme), foi possível adentrar no corpo do caolho em instantes específicos, antes de ser cuspido de volta à paulistada. Note, não era possível saber o que ele pensava, apenas ver e sentir tudo através do seu corpo sobre minha própria ótica. Em resumo, sinto te dizer, em determinadas músicas era eu quem estava tocando.

O festival, com a banda de atração principal, era uma desorganização. Apenas uma fachada de nome pra receber bastante mídia, embora se valendo das mesmas dragas acometidas aqui no terceiro mundo. Lugar de acesso impossível, sem transporte eficaz, preços abusivos de cerveja, tendas de comida fechadas antes do show, tudo uma droga. Agora o show não. Porque o Radiohead, mais que qualquer outra banda, talvez, mostra ao vivo a união do seu talento natural aliado a muito profissionalismo. Da execução das músicas – que em relação aos álbuns vão desde uma cópia exata (o que é ótimo) a interessantíssimas trocas de ritmos e melodias (o que é ótimo) –, ao aparato de imagens. A tal iluminação ecologicamente correta funciona à perfeição. Tubos de PVC gigantes suspensos no palco sobre a cabeça dos integrantes provocavam variações de luz, uma idéia bastante funcional e de efeito lindo. No telão, o audiovisual também dava o tom, com imagens sendo editadas na hora, numa espécie de filme instantâneo do show.

Uma das minhas indagações a respeito da apresentação é se a banda fazia de verdade mesmo toda a sua manipulação eletrônica. Aproveitei uma incursão ao corpo de Thom pra isso, e descobri que, ao contrário do Kraftwerk, que tocou antes, e utilizava quase tudo pré-gravado enquanto provavelmente olhava sua página no Facebook em cima do palco, no Radiohead até o mínimo barulhinho é concebido na hora. Enquanto eu estava lá, era “Idioteque” o que tocava, com Greenwood controlando os beats de um lado, enquanto Ed O’Brien, à direita, manipulava a voz de Yorke em tempo real. Certo de que era o momento mais dance do show, não consegui me controlar e fiquei me sacudindo de maneira espasmódica, como se tivesse numa overdose. O público, atônito, saiu do show achando que Thom Yorke tinha enlouquecido naquela música.

Ali, entre o público mesmo, as coisas não pareciam menos interessantes. A participação coletiva da banda é bem intensa, com O’Brien tocando bumbo em “There There” e maracas em “Reckoner”, o baixista Colin Greenwood simulando o instrumento no piano em duas músicas, e Jonny Greenwood fazendo todo tipo de experimento com pedais, alternadores de freqüência, sintetizadores, usando até o braço da guitarra em algumas teclas. Fitando o baterista Phil Selway, vê-se que ele conta o andamento de algumas músicas em contratempo, evidenciando que o cara é uma espécie de metrônomo humano, um perfeccionista das baquetas. A respeito do blasésismo deles, deve ter sido uma máxima mais espalhada que de fato real. Todos, com a exceção de Jonny, sorriem.

Outro que chama muita atenção é o próprio Thom Yorke, por seu carisma sutil, e por em hipótese alguma desafinar (e não me atrevi a atrapalhar isso). Desapego é outra palavra cabível pra ele. Enquanto fiz outra incorporação, pude ter a noção privilegiada de que, mesmo com uma megaequipe de apoio, quando terminou de tocar piano em “Videotape”, foi o próprio cara quem o empurrou pra fora do palco, quase se cagando. Não era de se admirar que eu estivesse ali naquela hora. Pobre sempre se fode. E antes de me submeter a outra destas, desci de volta ao paulistedo pro momento pico do show. Ao final de “Paranoid Android”, todo mundo seguiu cantando o refrão, e meio que OBRIGARAM Yorke a voltar ao microfone, sozinho, violão em mãos, para entoar a melodia e cantar o co-refrão da música. Algo ímpar em qualquer circunstância, mais ainda nesse show, em que quase todo o tempo o que se ouvia da galera era muito silêncio. Não um silêncio sepulcral de “ai, que saco estar aqui”, mas efetivo silêncio de querer sacar o que raios a banda estava fazendo. Uma catarsesinha paga-pau foi emendada com “Fake Plastic Trees”. Era o Radiohead mostrando com quantos U2s se faz uma canoa.

Aos mais imediadistas de informação, foram 26 músicas em duas horas e quinze. Ao todo, vi três pessoas chorando e uma gritando “No Surprises” a cada fim de música (eles não tocaram). Também vi uma bandeira do Uruguai e outra do Sport Club Internacional. Segundo se previa, o show tinha acabado depois de dois bis. Mas aí a banda resolveu mudar o script das coisas. Provavelmente alguém da produção mencionou que a banda nacional que abriu o show, uns barbudos, não tocava o seu principal hit por mero capricho ególatra, e eles, como gringos corretos no ponto de vista sócio-político-econômico-ambiental, deviam dar o exemplo nisso também. Então voltaram e tocaram “Creep”. E não importa o quanto essa música tenha perdido o sentido, o quanto foi tocada à exaustão, o quanto seja meio boba, ao vivo ela carrega um significado, num simples pisar de pedal de Jonny com aquele TCHA-TCHA antes de explodir o refrão. Foi o TCHA-TCHA mais cantado afora uma letra de música. E foi um encerramento digno, de cinco carinhas que possuem muito menos frescura que os seus próprios fãs.

E pra cair fora do lugar, antes enfrentar o caos de 30 mil pessoas saindo feito gado por um mesmo corredor estreito de oito metros, e ao conseguir, sentir-se em meio a Guerra dos Mundos com pessoas na disputa de um mero táxi que, certos de serem peças raras, cobravam valores parelhos (e criminosos) ao pago pelo show, antes isso, preferi usar de forma derradeira meu portal, e ver o que uma estrela de rock fazia no seu camarim. Por Deus, essa estrela é Thom Yorke. Ele fazia um maldito tai-chi-chuan e comia alguma tenebrosa comida vegetariana com gosto de alfafa. Vazei. Acho que o caos compensava.

w.l.t.f.

por Felipe de Souza / Fotos: Rodrigo Novaes, Dimirty Suholet,Carla Roe, Nathan Apple, Rafael Cañas, Leonardo Nones, Christian Castaneda

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Would Like to Fuck! Não seria legal chegar numa banca de revista no centro da cidade e dar de cara com uma publicação com esse nome? Pois a WLTF é o projeto de Rodrigo Novaes, brasileiro radicado em Londres, que, depois de incentivado por amigos, montou um projeto de curadoria e publicação de imagens eróticas.


A publicação é trimestral e o conteúdo é feito todo na pilha colaborativa, sempre com diferentes convidados. Mas calma, antes de fazer a encomenda na Banca do Zé, saiba que a WLTF ainda não foi pro papel. Ela navega na web sem nenhuma restrição.

 Você pode ir lá: http://www.wltf-mag.com. 



Void_A revista tem três edições lançadas. Qual a periodicidade e quando surgiu a idéia de fazê-la?

Rodrigo_Publico o projeto a cada três meses. Algumas vezes a gente dá uma atrasadinha, mas sempre publicamos. A próxima edição será o início de um novo ciclo do projeto com editores convidados. Chamamos o Stephane Malysse que é francês e dá aula de antropologia e arte na USP.

A idéia de fazer o projeto nasceu em dezembro de 2007 e foi meio que acidental. Tenho um trabalho de fotografia e montei uns livrinhos feitos em casa com algumas imagens. Eles fizeram sucesso e os amigos sugeriram que se eu montasse uma publicação, eles participariam com trabalhos. Como publicar no papel no Brasil é muito caro, e como não dá pra conseguir patrocínio para projetos que contem nudez e sexo explícito, decidi começar pela web. Desde que publiquei a numero 0 em março do ano passado o interesse tem crescido muito, durante o primeiro mês sempre temos em média 100mil visitas únicas.

Ainda tenho planos de publicar em papel, na verdade tenho várias idéias para expandir o projeto, mas agora preciso de mais gente pra consolidar a equipe e com isso poder crescer.

VOID_Quantas pessoas estão envolvidas no projeto?

Rodrigo_É difícil dizer exatamente quantas porque muitas pessoas me ajudam de um jeito ou outro. Mas o grosso sou eu quem faz, tipo o site, a administração, comunicação etc. Mas já temos muitos amigos e agregados ao redor do mundo que estão fazendo um super trabalho de apoio para divulgar o projeto em vários países. WLTF é 100% internacional.

VOID_Como é conseguir uma rede de colaboradores aí em Londres?

Rodrigo_A rede de colaboradores vai muito além de fronteiras nacionais porque o projeto existe primeiramente na web. O primeiro site da WLTF era uma página única com um texto explicando o projeto, e disso vieram os primeiros interessados. Depois montei um grupo no Flickr e de lá muita gente começou a se interessar. O resto é uma questão de insistência da minha parte, mandando muitos emails e pedindo muitos favores na cara de pau.

VOID_Já teve problemas com algum tipo de censura?

Rodrigo_Nunca tive nenhum problema com isso. A WLTF é independente e apesar de ter imagens que possam ser consideradas como fora do “normal”, a edição sempre respeita as leis internacionais ao que diz respeito à coisas do tipo pedofilia, abuso, difamação etc.

VOID_Quando vão sair as edições impressas e onde serão distribuídas?

Rodrigo_Olha isso ainda não é certo simplesmente porque o conteúdo do projeto é difícil para patrocinadores, portanto vamos continuar na web até conseguirmos resolver essa equação. Mas mesmo quando for publicada no papel, continuaremos na internet.

VOID_Qual o tipo de pervertido que ficaria de pau duro com essas imagens? Porque o fato é que elas são eróticas, mas algumas também são bem perturbadoras.

Rodrigo_Não podemos pensar somente em paus duros, vaginas molhadas também contam! Na verdade o feedback que tivemos até hoje tem sido 100% positivo e de um público extremamente variado em todos os sentidos. A WLTF é sobre indivíduos pensantes, que prefiro não classificar em termos de preferência sexual, que buscam uma honestidade com seus próprios desejos. O processo do desejo sexual é algo profundamente subjetivo e com isso tanto os colaboradores como os observadores tem que se permitir uma enorme latitude de pensamento para assim poderem apreciar as imagens sem julgamento.
Para mim isso é muito importante porque mesmo apesar de não compartilhar da mesma visão de alguns dos contribuintes, não posso julgá-los e espero que o público também não os julgue. O importante é discernir, ou compreender os nossos processos de preferência. Não é porque prefiro maçã ao pêssego que faz do pêssego inferior à maçã, isso é somente uma preferência pessoal, subjetiva, e com o desejo sexual não é nem um pouco diferente. Um amigo me disse que ao olhar dele a WLTF é sobre as diferentes camadas que compõem a formação do indivíduo sexual e não apenas uma série de imagens para se masturbar. Achei essa uma boa descrição.

A gente sempre procura imagens que fujam das normas, que sejam mais de um ponto de vista subjetivo onde o fotógrafo seja de algum modo envolvido com aquilo que fotografa. Porque isso é o que na nossa opinião gera boas imagens e não imagens padronizadas.

No início do projeto, há um ano, mesmo sem imagens no site, já tínhamos uma média de 3mil hits por semana. Após a publicação da WLTF #0 somente nos dois primeiros dias foram 18mil hits e hoje, como disse antes, já cresceu para 100mil hits por mês. O feedback tem sido internacional e agora recebo ofertas de imagens de fotógrafos já bem estabelecidos e com espaço no mercado. Não sei explicar mas me parece que a WLTF tem um certo fator “X” não sei bem o que é, mas é algo que tem uma ressonância positiva com todos que entram em contato com o projeto e isso me anima muito, porque sinto que bati na tecla certa e quero que continue assim. Com o projeto online a um ano os números falam por si não preciso mais ficar tentando convencer as pessoas de que vai dar certo.

VOID_Em um próximo trabalho, deseja explorar algum fetiche mais hardcore, tipo cropofilia, necrofilia ou zoofilia?

Rodrigo_Não temos nenhuma meta específica nesse sentido, o projeto está aberto para que os contribuintes possam explorar seus próprios objetivos. Os colaboradores interpretam o tema da maneira que quiserem, não há nada que especifique como o tema deve ser explorado ou representado. O simples ato de me enviar uma imagem implica que aquilo é o que excita a pessoa, e com isso quando vejo as fotos, tenho que aplicar nelas o filtro WLTF e tentar ver o que a pessoa que as enviou vê. É um exercício incrível porque me faz pensar sobre sexualidade e desejo sexual de maneiras inesperadas.Por exemplo, um dos primeiros colaboradores, um fotógrafo francês, Laurent Champoussin, me enviou varias imagens de paisagens urbanas mas sem nenhuma explicação de porque isso o excita. De inicio não prestei muita atenção, mas com o tempo comecei a ver o mundo a partir da perspectiva dele, do olhar dele, e isso me levou a um plano que não poderia ter imaginado antes, comecei a ver em suas imagens algo muito sexualmente sutil, fora as metáforas embutidas que ao primeiro olhar não havia percebido, mas ao dar mais uma chance ao trabalho, o vi de maneira completamente diferente.
Outro exemplo são as imagens do Pedro Camargo, brasileiro que mora em Londres atualmente. Ele começou interpretando o tema de uma maneira digamos assim “normal”, fotos de pessoas em poses sensuais etc... Mas com o tempo começaram a chegar imagens de comida, doces, pratos vazios, enlatados e frutas. Foi ótimo ver o pensamento dele sair pela lateral, isso é muito bom neste processo, porque me ajuda a pensar de maneiras diferentes também. Nisso entra um dos meus conceitos centrais para a edição de imagens, a justaposição. É neste momento que as imagens começam a “falar”, contar suas histórias. Na minha opinião dentro da WLTF tem muitas imagens que poderiam ser descritas como de mau gosto, mas dentro da justaposição elas adquirem novas formas.