46 auto-estrada - Matéria 02
gigante do asfalto, estrela do picadeiro
por felipe de souza / fotos: mauricio capellari
No começo do ano, pingou aqui na redação da VOID um daqueles e-mails que junta a geral do trampo pra ver. Os poucos segundos das imagens traziam, para nosso deleite, um anão pilotando uma dessas minimotos que coroas abastados compram para seus filhos azucrinarem a vizinhança do condomínio.
O detalhe é que o pequeno homem pilotava o pônei de aço pela BR-290, sentido Porto Alegre-Litoral. Só um sujeito de grandes colhões teria a coragem de enfrentar aquele trânsito infernal a bordo de um veículo que pesa menos de 10kg.
Tal vídeo nos causou coceira e fomos atrás do destemido Hell’s Angels em versão pocket. Depois de farejar todo lado, descobrimos que o cara trampava em um posto às margens da mesma rodovia. Após várias ligações sem êxito, enfim conseguimos conversar com Waldemar Ricardo Dias, o dono daquela supermáquina rubra.
Ricardinho montava sua motoca todo santo dia para ir de casa para o trabalho; no entanto, depois de levar uns enquadres da Polícia Rodoviária, sossegou. Enquanto ele entrega comandas no restaurante do megaposto, a moto descansa no alojamento e aguarda o conserto de uma mangueira do motor para poder voltar à ativa. E o dono já avisa: “Vou vender. Quem me der R$1 mil na mão leva”.
VOID: Você já sabe do vídeo que está rolando na internet? Já viu?
Ricardo: Sim, já vi. Achei bem bacana, gostei. Agora o pessoal que pára aqui no posto já chega perguntando se sou eu mesmo, é legal.
VOID: E quando você comprou essa moto?
Ricardo: Faz um tempo já. Uma vez um caminhoneiro que parava aqui direto me disse que em Caxias do Sul tinha um lugar onde vendiam essas motinhos, daí peguei carona com ele, fui lá e comprei.
VOID: E o trajeto que você faz é esse, de casa para o trabalho e do trabalho pra casa?
Ricardo: É, fazia, porque agora a Polícia Rodoviária não está mais deixando. Eles já me pararam cinco vezes, e aí eu desisti de andar com a moto. Eles dizem que os motoristas dos caminhões e dos carros podem não me enxergar e acabar passando por cima de mim, dizem que é perigoso.
VOID: E qual a velocidade máxima que você já colocou nela?
Ricardo: Ela vai a 50km/h na reta.
VOID: E quanto você mede?
Ricardo: Um metro e treze, mas não tenho nenhuma dificuldade, não me aperto com nada, graças a Deus. Meu pai é irmão gêmeo de uma tia minha e ela cresceu, ele não.
VOID: E antes de vir trabalhar aqui nesse posto, o que você fazia pra ganhar a vida?
Ricardo: Eu fui artista de circo por 18 anos. Trabalhei no circo do Beto Carreiro, no circo dos Trapalhões, no do Chaves. Era palhaço e também fazia locução.
VOID: Sério?! E como começou no circo?
Ricardo: Eu trabalhava numa padaria, e um dia eles passaram pela cidade e um rapaz veio me convidar. Eu gostei da idéia e aceitei o convite.
VOID: E nessa vida de estrada, como era? Arranjava muita namorada?
Ricardo: Sim, muita. Na estrada você conhece muita gente, cada cidade que passava deixava imensas amizades.
VOID: E qual o lugar mais legal que vocês passaram?
Ricardo: O que eu mais gostei foi o Paraná. Curitiba, Maringá, onde minha filha nasceu, o norte do Paraná, Céu Azul, Foz do Iguaçu, Cascavel, Toledo. Ficamos três anos naquela região. Morava no trailer, fazia tudo ali.
VOID: E além do Paraná, em que outros lugares você trabalhou?
Ricardo: Uma porção de cidades... Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Diadema, São Bernardo.
VOID: E tua filha? Ela também é anã?
Ricardo: Minha filha é um pouco mais alta do que eu, mas também vai ser anã.
VOID: E ela mora em Maringá ainda?
Ricardo: Não, agora ela está morando em Jacinto Machado, bem aqui na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Ela está com 15 anos.
VOID: Ela nasceu na estrada, na vida do circo?
Ricardo: Sim, nasceu na estrada, até os dois anos ela morou dentro do circo. Depois me separei da minha mulher porque ela não queria mais aquela vida de circo, queria ir cuidar da mãe dela que estava doente.
VOID: Foi por isso que você largou a vida no picadeiro, então?
Ricardo: Não, na realidade larguei depois da morte do meu pai. A tristeza foi muito grande e ele sempre foi contra eu trabalhar no circo, aí decidi abandonar.
VOID: E nesses 18 anos, deu pra ganhar uma grana legal?
Ricardo: Ah dá, tudo que eu tenho na minha vida, nesses anos todos, eu devo ao circo. Consegui comprar um terreno, construir uma casa. Mas tem muita gente nesse meio que ganha dinheiro e bota tudo fora. A maioria é separado, aí se atira na bebida. A família deles passa a ser a cachaça.
VOID: E depois de chegar numa cidade e montar o circo, o que era legal fazer na folga? Tinha lazer?
Ricardo: Ah tinha, a gente saía muito pras baladas, muita festa mesmo.
VOID: E é verdade que todo anão tem pau grande?
Ricardo: Olha, não sei dos outros, mas do meu nunca reclamaram. Esses dias até vi numa revista um anão que era ator pornô, fazendo cena com duas loironas. Pra mim já apareceram algumas propostas para fazer vídeos, mas é meio complicado. Imagina o pessoal que eu conheço, família, amigos, ficar olhando aquilo.
VOID: A grana que te ofereceram não compensava?
Ricardo: Nem quis saber quanta grana era. O cara disse que eu tinha que ficar umas duas horas de pau duro, que dava uma injeção na bunda pro bicho endurecer, que o negócio era natural, que não tinha problema nenhum... Mas não fui, não.
Void: E se hoje aparecer uma proposta para voltar pro circo, voltar pra estrada... Você encara?
Ricardo: Se for uma proposta boa, eu vou.
VOID: Na tua casa, você teve que adaptar alguma coisa?
Ricardo: Sim, adaptei. Inclusive eu já fiz trabalho de eletricista. Já fui garçom, nunca me apertei mesmo. Graças a Deus, se for pra levantar uma casa, uma parede de tijolo, eu faço o serviço. Já trabalhei como pedreiro, eu mesmo construí minha casa, ajudei minha mãe.
VOID: Em quanto tempo você levantou a casa?
Ricardo: Eu, sozinho, levei uns 25, 30 dias. Tinha outras pessoas, mas eu ajudei a coordenar tudo.
VOID: E quando você está de folga aqui do posto, o que gosta de fazer?
Ricardo: Eu gosto de sair, passear, curtir, jogar uma bola...
VOID: E em que posição você joga?
Ricardo: Eu jogo de meio campo, a gente tem até um time aqui do posto. Jogamos no campo que fica aqui do lado.
VOID: E agora você está solteiro?
Ricardo: Tô namorando uma menina lá de Porto Alegre. Conheci ela pelo 138(1).
VOID: Ela também é anã?
Ricardo: Não, ela é alta. Já tive curiosidade de namorar umas baixinhas, mas até agora não rolou. Minha irmã namora um cara alto e eu também, minhas mulheres sempre foram grandes. Já tive a oportunidade de namorar uma anã lá de Guaíba, mas não foi nada sério, coisa de uns quatro dias só.
VOID: E com essa namorada, você já está há quanto tempo?
Ricardo: Ah, já faz um tempinho, faz uns quatro anos.
VOID: Tá enrolando ela há quatro anos então?
Ricardo: (RISOS) Ela quer casar, é bem de vida, é bancária. Mas eu por enquanto não quero, ela mora com os pais em uma casa de dois pisos. Aquela coisa, ela mora em cima, os velhos embaixo.
VOID: Tô achando que você não quer se enroscar porque pode aparecer uma proposta do circo, e daí você cai na estrada de novo.
Ricardo: Olha, de repente... É que ela é meio cavernosa, ciumenta, desconfiada. Fica brava quando eu fico trabalhando direto e não posso ir pra casa dela. Mas quando ela me conheceu eu já trabalhava aqui.
VOID: E o ritmo do trampo aqui é frenético, hein?
Ricardo: Nessa temporada de verão é fogo, mas depois, no inverno, eu chego a ter duas folgas por semana.
VOID: E quanto dá pra tirar de grana?
Ricardo: Olha, dá pra tirar uns R$1.000, R$1.200, mais as horas extras.
VOID: Mas você dorme aqui?
Ricardo: Sim, às vezes, quando alguém falta, eles me chamam. É que nem Brigada Militar, sempre de plantão.
VOID: Mas esse trampo de entregar as comandas é tranqüilo né? Dá pra conversar com a galera...
Ricardo: É legal, eu conheço pessoas. Conversar é bom, mas o gerente enche o saco. Até a menina do Diário Gaúcho queria vir aqui, mas é complicado parar pra atender. Tava conversando com ela e o gerente chegou, ficou meio ruim. É paulista, né? Paulista não vale nada! (risos)
(1)138 era um serviço oferecido pela companhia telefônica em Porto Alegre e região metropolitana. Também conhecido como teleamigo.



